segunda-feira, 23 de abril de 2018

Nunca ninguém fez merda em nome do capeta

Ninguém no Brasil nunca fez merda em nome do Capeta, da maconha ou da sacanagem. Toda vez que mataram, escravizaram e torturaram no Brasil foi em nome de Deus, da pátria e da família.


Gregorio Duvivier

"Pelo menos Bolsonaro vai mudar alguma coisa. Você pode não gostar dele, mas tem que admitir que ele é diferente de tudo o que tá aí."

Sabe o que também é diferente? Tatuagem no testículo. Martelada no mindinho. As camisetas do Faustão. Diferente não é necessariamente bom. O fato de uma ideia ser inédita não significa que ela seja boa. Não conheço ninguém que tenha tido a ideia de fritar a própria bochecha e comer com brócolis. É bom? Não sei.

O mais estranho é que Bolsonaro não consegue nem a proeza de ser inédito. E olha que ser inédito é mole. A frase que acaba de me ocorrer: "o plâncton peida no pâncreas" é, segundo o Google, inédita. Talvez por não fazer sentido algum. Já a frase "bandido bom é bandido morto" não é inédita. O que não quer dizer que ela faça algum sentido.

Tudo o que o sujeito propõe é o que já tem sido praticado nos nossos 500 anos de história. "Você tá doente? Eu inventei um negócio: você corta seu antebraço e deixa sangrar." Então, isso se chama sangria e faz 4.000 anos que não dá certo. "Queria propor uma coisa nova, que é queimar tudo o que é bruxa."
Ilustração - Catarina Bessel
Se tem uma coisa que o Brasil não precisa é de moral cristã e ordem militar. Tudo o que a gente teve até hoje é porrada e missa. E a gente é a prova viva do fracasso de ambos.

Se você ouve o Bolsonaro falando, parece que quem governou o Brasil nos últimos anos foi o Zé Celso e o pessoal do Teatro Oficina. Parece que a gente vive uma ditadura do teatro contemporâneo, da maconha e do poliamor. Parece que o pessoal tá tatuando a cara do Paulo Freire, e não do Neymar.

Ninguém no Brasil nunca fez merda em nome do Capeta, da maconha ou da sacanagem. Toda vez que mataram, escravizaram e torturaram no Brasil foi em nome de Deus, da pátria e da família.

"Tem que manter isso, viu?", disse o Temer pro Joesley sobre a propina pro Cunha. "Nossas putarias têm que continuar", disse o Sérgio Côrtes pro Miguel Iskin antes de ser preso. "Nosso sonho não vai terminar", diz Buchecha e Claudinho pra uma menor de idade. A história do Brasil é uma luta incansável (e vitoriosa) pela manutenção das putarias.

Bolsonaro, pode ter certeza, vai fazer um governo bem parecido com o de Temer. Acho inclusive que deve ganhar. Tem tudo o que precisa pra ser presidente do Brasil: auxílio-moradia, funcionário fantasma e um bando de ideia velha na cabeça.

Brasil afunda num oceano de imbecilidade

Thomas de Toledo

Em tempos de obscurantismo político e religioso, “esquerdopata” virou sinônimo de entender o mundo de forma científica.

Tinha dado uma palestra sobre o Antigo Egito, um expectador ergueu a mão e disse: “você diz que os egípcios construíram as pirâmides, mas não explica que poucos anos antes os homens viviam em cavernas e de repente estavam construindo obras gigantes!”.

Respondi pacientemente: “a revolução neolítica foi um longo processo desde o fim do pleistoceno, há 12 mil anos; de lá até as pirâmides domesticou-se animais e plantas, criou-se a agricultura, desenvolveram-se as primeiras cidades com progressivas técnicas de construção, a partir de tentativa e erro. No Antigo Egito, das primeiras mastabas às pirâmides mais simples, foram mais de 5 séculos de aprimoramento da técnica, com falhas e acertos, organização da força de trabalho e a consolidação de uma economia capaz de realizar tais feitos. Isto tudo seria de repente?”.

Ele afirmou indignado: “você deve ser daqueles que não aceita a verdade incontestável de que alienígenas alteraram o DNA do macaco para criar de uma hora para outra os homens modernos!”.

Respondi calmamente: “o gênero homo tem cerca de 3 milhões de anos e a espécie homo sapiens, 350 mil, conforme mostram fósseis encontrados; portanto, como pode sustentar o argumento de que foi de uma hora para a outra?”.

O cidadão levantou e gritou: “você é do tipo de gente que acredita que a Terra é redonda!”.

Respondi tranquilamente: “não, a Terra é ovalada como demonstrou Erastótenes e sua órbita é elíptica como observou Hipátia, conclusões reafirmadas por satélites orbitais, geoestacionários e estações espaciais que diariamente fotografam a Terra sob diversos ângulos. Mesmo observando eclipses lunares e solares nas quais se projeta a sombra terrestre e com aviões dando voltas sobre o globo, você insiste no argumento de que a Terra é plana?”.

Enfurecido, gritou: “você só pode ser um ‘esquerdopata’, vá pra Cuba! Só o ‘mito’ pode salvar o Brasil dessa ditadura comunista que nega a bíblia”.

Ele foi embora e fiquei pensando em qual parte da bíblia estava escrito que extraterrestres clonaram humanos e construíram pirâmides.

Obs: baseado em fatos reais de um país real.

Eleitores de Bolsonaro fazem ritual para serem aceitos no hospício


Eleição sem Lula é fraude e barbárie


Caso exista, vai ser uma campanha linda. Imaginem só Bolsonaro e Barbosa disputando aquela malta de moralistas homicidas sedentos de sangue (de um tipo bem específico, claro), Alckmin e Dias prometendo pela enésima vez resolver a barafunda política apenas com gestão empresarial, Ciro metralhando todo mundo sem explicar como vai governar sem o "ajuntamento de assaltantes" e todo o resto que ele metralha, Rocha propondo a volta à escravidão do século retrasado como se já não estivéssemos nela, Collor pateticamente tentando algum brilho entre os outros canalhas que já o superaram há muito.

Enfim, se tiver alguma graninha guardada, decida entre comprar um bom estoque de Dramin ou uma pequena viagem internacional para um de nossos vizinhos da AL, te garanto que qualquer outro país vai parecer o suprassumo da civilização perto do que vamos ver por aqui

Osvaldo Pavanelli

Libertarianismo, ou anarco-capitalismo, é a fórmula para o desastre e a tirania total

Insatisfação não se transforma em revolta espontaneamente. É preciso liderança e organização.

Luis Felipe Miguel

No Brasil, nos últimos anos, estamos apanhando todos os dias. Metafórica e, às vezes, também literalmente. Não há dia sem um novo retrocesso, sem uma barbaridade. Eles partem do Planalto, do Congresso, do Supremo, de Curitiba. Enquanto isso, nós esperamos o milagre que nos salvará. Quando o povo cantou o samba-enredo e aplaudiu o vampiro na Sapucaí, muita gente vaticinou: “Agora vai”. Quando o assassinato de Marielle Franco gerou a comoção que gerou de Norte a Sul do país, veio a esperança que da tragédia nascesse a ação: “Agora vai”. E como esperança tem que ser cultivada sempre, até a vitória da moça de esquerda que grita “Lula livre” no BBB tá valendo: “Agora vai”.

Mas não basta a insatisfação com o que está aí - como seria diferente, como um governo que destrói direitos e perspectivas de vida para 99% da população não produziria insatisfação? É preciso canalizá-la para formas de manifestação mais efetivas. É preciso de organização. A revolta provocada pela morte de Marielle foi uma coisa poderosa, mas sem quem a organize, certamente sua energia se dissipa no próprio momento em que se expressa.

A crítica às estruturas autoritárias, à burocratização e ao engessamento das organizações tradicionais da esquerda certamente é justa é necessária, assim como a demanda por maior horizontalidade, espaço para a manifestação das diferenças e recusa à posição de massa a ser manobrada. Mas a crítica deve operar no sentido de reformar as organizações, não de abandoná-las. A expressão espontânea não basta - o saldo das jornadas de junho de 2013 nos ensina isso. É preciso de organização e de liderança para produzir ação coordenada, sustentada além do calor do momento e com efetividade. É preciso partido, sindicato, associação, movimento organizado. Sem eles, operamos no vácuo.

domingo, 22 de abril de 2018

O que é, o que é...


A vida fora do Facebook

Gilmar Mendes: MP, PF e juízes ameaçam a democracia

Os Camisas Negras

Do Conjur - "A maior ameaça à democracia no Brasil não vem das Forças Armadas, e sim de corporações, como a polícia, o Ministério Público e agrupamentos de juízes", afirmou o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. A declaração foi dada no programa Frente a Frente, da Rede Vida.

O ministro disse que "não foi positivo" o efeito das declarações do comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, e de outros generais na véspera do julgamento pelo STF do pedido de Habeas Corpus preventivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, militares criticaram a impunidade, em manifestações que foram interpretadas como uma ameaça aos ministros.

Porém, Gilmar Mendes apontou que as falas não significam que as Forças Armadas têm desapreço pela democracia. A seu ver, elas contribuíram para a construção na nova república, após a Constituição de 1988. A ameaça agora são "grupamentos de corporações", avaliou o magistrado.

"O Estado Democrático de Direito tem uma fórmula muito simples: todos estão submetidos à lei. Quando se começa a transformar a lei para o 'eu acho que', para se traduzir o sentimento social, a gente rompe com esses critérios. Em alguns momentos, a ameaça à democracia pode vir do Ministério Público", exemplificou.

Segundo Gilmar, práticas abusivas da operação "lava jato", como prisões provisórias alongadas sem justificativa ou detenções para forçar delações premiadas criam um efeito negativo no sistema.

"Isso passa a ter um efeito lá embaixo, em todos os locais. Tanto é que agora você tem o 'Moro do Rio de Janeiro', o 'Moro do Pantanal', o 'Moro do não sei o diabo'. Vai ter Moro assim, né?", destacou, referindo ao juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba.

Além disso, o ministro questionou o discurso moralista daqueles que atuam na "lava jato". Ele citou que o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, e sua mulher recebem dois auxílios-moradia, mesmo morando juntos e tendo imóvel próprio — o que torna o benefício ilegal. E ressaltou que o episódio de Marcelo Miller, ex-procurador da República que é acusado de ter defendido a JBS enquanto ainda estava no Ministério Público Federal, mostra que há corrupção na operação.

O dilema dos juízes



Necessidades básicas


República de Curitiba é composta por fantoches sem cérebro de forças econômicas vis



ESTUPIDEZ POLÍTICA

As proibições de visitas a Lula estão provocando mais repercussão política do que se houvesse o consentimento. Eles querem isolar e abater moralmente o ex-presidente. Vão ter que conviver com personalidades diariamente discursando sobre o estado de exceção. Além disso a ideia de silenciar Lula para ele não influir nas eleições é uma ação tão estúpida quanto a crença de que podem manter 30% do eleitorado presos do lado de fora. Eu pensei que esses juízes fossem só agentes de estado que agem como militantes de forças econômicas vis. Não: são fantoches sem cérebros também.

A maioria das esquerdas quer Lula livre, e não uma alternativa a Lula.


Moisés Mendes

LULA E O DESESPERO DA DIREITA

A Folha tem uma interessante reportagem hoje com depoimentos de petistas que rejeitam a ideia de um plano B para o PT e para Lula. É uma posição que parece óbvia, não só como expressão de sentimento. É politicamente acertada.

Não parece razoável, sob qualquer hipótese, que um petista passe a considerar um plano B à candidatura de Lula em meio à resistência contra a prisão dele. Seria uma imbecilidade estratégica anunciar que o PT vai definir outro nome, enquanto milhares de pessoas se dirigem a Curitiba para manifestar apoio ao líder preso e mais da metade do Brasil questiona a legitimidade das decisões da Justiça seletiva da lava-Jato.

A maioria das esquerdas quer Lula livre, e não uma alternativa a Lula.

Mas a direita continua insistindo que o PT deve desistir de Lula. Por quê? Porque a direita tem um candidato por semana. A direita tem inveja de Lula e das esquerdas. Já se foram Aécio, Luciano Huck, o homem da Riachuelo, Álvaro Dias, Botafogo Maia, Meirelles. E agora é a vez de Barbosa.

Porque a direita não quer Bolsonaro como única alternativa. Bolsonaro é apenas a fera antiPT, não é um nome para o poder. 

Barbosa é o ídolo da direita agora. Pelo menos até a semana que vem. O projeto é implodir Alckmin, como a Globo já vem fazendo, e comer Aécio todos os dias, para que esteja bem comido como exemplo de que os deles também são devorados. Barbosa não pode ter concorrentes nessa faixa.

Antigas apostas tucanas serão apenas corruptos à espera de julgamento. E o que vai acontecer com eles depois? Nada. Porque muitos deles, dos grandões, irão perder o foro privilegiado, deliberadamente, e terão seus casos engavetados na Justiça de primeira instância.

Os corruptos da direita se encaminham todos para a morte política, mas para a salvação como mafiosos. Enquanto isso, Dilma acaba com Aécio em Minas. E Lula, mesmo preso, é o maior líder político brasileiro.

"Moro é criminoso e mentiroso" , afirma deputado Jorge Solla

Folha tenta, mas eleitores não desistem de Lula


247 – "Não existe plano B ou C. Só existe 'plano L'. L de Lula. No último dia 12, cinco após a prisão do ex-presidente, a Folha reuniu dez eleitores do petista em São Paulo para debater perspectivas para a eleição e o futuro do lulismo. Todos dizem que não arredam pé de apoiar Lula naquela que, se a Justiça permitir sua candidatura, será sua tentativa de reaver a faixa presidencial —conquistou-a em 2002 e 2006 depois de três tentativas frustradas", informa a jornalista Ana Viriginia Ballousier, em reportagem na Folha.

"Admitir uma alternativa ao ex-presidente, diz o advogado Geovani Doratiotto, 28, 'é acreditar que o que aconteceu com Lula é o correto, o justo'. E isso o grupo não está disposto a tolerar —fiel depositário do slogan esquerdista 'eleição sem Lula é fraude', ainda que a cúpula do PT discuta nos bastidores o que fazer caso ele seja impedido de disputar o pleito em outubro", diz a ainda a reportagem.

Na Justiça de países vistos como civilizados, a lentidão do processo e julgamento de Azeredo seria impossível.

Na Justiça de países vistos como civilizados, a lentidão do processo e julgamento de Azeredo seria impossível. E o processo e o julgamento do mensalão do PT seriam reabertos, para definição das responsabilidades verdadeiros e consequências justas.
De origem idêntica, casos de Dirceu e Azeredo coincidem agora em seus desfechos
Janio de Freitas

Dois assuntos desconexos, mas de origens idênticas, coincidem agora em seus desfechos, um desmistificador, o outro com uma revelação que, em país civilizado, teria desdobramentos judiciais eloquentes. O primeiro caso é o mensalão do PSDB mineiro, que no dia 24 chega a um julgamento capaz de levar o ex-governador Eduardo Azeredo à prisão, ao fim de 13 anos de morosidade judicial.

O segundo é o presumido ato final do processo de José Dirceu no mensalão do PT, com sua volta à prisão para uma sentença influenciada por falha de investigação nunca mencionada.

Nem um só dos petistas notórios atingidos pela Lava Jato mencionou o nome de outro para pagar por sua libertação, exceto o já ex-petista Antônio Palocci. Cada um dos que foram a julgamento no Supremo viu lhe serem atribuídos atos e responsabilidades muitos deles incabíveis. O tribunal tinha muito poucos ouvidos para defesas e explicações.

Um caso exemplar foi provocado pelo recém-empossado ministro Luís Roberto Barroso. Ainda intimidado, chegando já na fase de repasse das sentenças, se disse “em dificuldade para concordar com a formação de quadrilha”. Não falou muito. Apenas o que uma cabeça livre de exaltação notaria. A acusação de quadrilha e seu peso pesado na formação das sentenças foram revertidos pelo tribunal.

José Dirceu foi sobrecarregado de acusações. Chefe da tal quadrilha, do jogo de contratos com as agências de Marcos Valério e com o Banco Rural, da operação com a Visanet. Sua sentença transpareceu essa carga.

Ali estava, porém, o resultado da falta ou da precária realização de investigações, o que parece ser comum e satisfatório na Procuradoria-Geral da República. José Dirceu e José Genoino se ocupavam da área política, dos acordos de apoio à campanha. Não de assuntos financeiros, como qualquer investigação constataria. As articulações com Valério, para os empréstimos ao PT, e as contratações publicitárias de estatais, eixos do esquema financiador, estavam em outra área. Tanto na campanha como, depois, no governo.

Na estrutura ministerial, foi criada uma área de relações corporativas e propaganda, entre outras atividades. Aí se encaixou a organização das contratações publicitárias estatais com as agências de Valério. O comando foi entregue a reconhecido craque em relações corporativas, fundos de pensão e por aí: Luiz Gushiken, petista de primeira hora e primeiro nível, sensibilidade política refinada, motivo de fraternidade ainda maior, no comando do partido, em razão do seu sofrimento com o estômago devorado por um câncer e tratamentos penosos.

Gushiken só foi objeto de um sussurro de Henrique Pizzolato na CPI da Câmara, ao dizer que cumprira ordens na contratação das agência de Valério. O nome de Gushiken não entrou no julgamento pelo Supremo. As acusações e sentenças sobre os demais o acobertaram. O julgamento deformou-se. Mas não por erro do Supremo, no entanto. O erro veio da Procuradoria. Os procuradores-gerais Antonio Fernando de Souza e, depois, Roberto Gurgel induziram a deformação, com suas denúncias muito mais exaltadas do que informadas, à falta de investigação.

Por sua vez, o inquérito contra Azeredo foi autorizado pelo Supremo em 2005. A Procuradoria levou dois anos para apresentar a denúncia, com a acusação de desvio de dinheiro de estatais mineiras para a campanha de reeleição. Esquema semelhante ao mensalão do PT, também com as agências de publicidade SMPB e DNA, de Valério. Isso, nas eleições de 1998, quatro anos antes da combinação Valério-PT.

Entre o fracasso reeleitoral de Azeredo e a autorização do inquérito pelo STF, consumiram-se sete anos. Mais dois pelo Ministério Público, para a denúncia. Outros dois para que o STF a aceitasse. E, aí mesmo, mais seis meses só para a indicação de um ministro-relator.

Essa escala é ilustrativa, quando 6 ministros do STF, contra 5, estabelecem que réus podem ser presos depois da segunda instância de julgamento, e não somente quando todo o processo esteja concluído, como diz a Constituição. Os ministros alegam que os recursos causam a lentidão. Mas o processo de Azeredo comprova que a morosidade está nos intervalos do Judiciário e do Ministério Público. E prova outras coisas, se lembrado que em apenas 19 meses Lula foi levado da denúncia à prisão.

No começo de 2014, Azeredo renunciou à Câmara, e com isso forçou o envio do processo para recomeçar em Minas. Aí, mais quatro anos.

Na Justiça de países vistos como civilizados, a lentidão do processo e julgamento de Azeredo seria impossível. E o processo e o julgamento do mensalão do PT seriam reabertos, para definição das responsabilidades verdadeiros e consequências justas.

“Estive preso e me impediram de visitar-te”

Leonardo Boff

Há uma cena de grande dramaticidade no evangelho se São Mateus quando se trata do Juízo Final”, quer dizer, quando se revela o destino último de cada ser humano. O Juiz Supremo não perguntará a que Igreja ou religião alguém pertenceu, se aceitou os seus dogmas, quantas vezes frequentou os ritos sagrados.

Esse Juiz se voltará aos bons e dirá: ”Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino preparado para vós desde a criação do mundo; porque tive fome e de me destes de comer, tive sede e me destes de beber, fui peregrino e me acolhestes, estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, estava preso e viestes me ver… todas as vezes que fizestes a um destes meus irmãos e irmãs menores, foi a mim que o fizestes…e quando deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes(Evangelho de S.Mateus,25, 35-45).”

Neste momento supremo, são as práticas e não as prédicas para com os sofredores deste mundo que contarão. Se os tivermos atendido, ouviremos aquelas palavras benditas.

Esta experiência foi vivida pelo Prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Perez Esquivel (1931) arquiteto e renomado escultor, grande ativista dos direitos humanos e da cultura da paz, além de ser profundamente religioso e por mim. Ele solicitara às autoridades judiciais brasileiras a permissão de visitar no cárcere o ex-Presidente Lula, amigo de muitos anos.

Da Argentina Esquivel me telefonou e no twitter foi resumida a conversação numa espécie de yotube. Iríamos juntos, pois eu havia recebido também o assim chamado Nobel Alternativo da Paz em 2001(Award The Right Livelihood) do Parlamento sueco. Mas lhe adiantei que minha visita era para cumprir o preceito evagélico o de “visitar quem está encarcerado” além de abraçar o amigo de mais de 30 anos. Queria reforçar-lhe a traquilidade da alma que sempre manteve. Confessou-me pouco antes de ser preso: minha alma está serena porque ela não me acusa de nada e me sinto portador da verdade que possui uma força própria e que no seu devido tempo se manifestará.

Chegamos em Curitiba Esquivel e eu, em horários diferentes, no dia 18 de abril. Fomos diretamente ao grande auditório da Universidade Federal do Paraná repleta de gente, para um debate sobre democracia, direitos humanos e a crise brasileira que culminou com a prisão de Lula. Lá estavam autoridades universitárias, o ex-ministro das relações exteriores Celso Amorim, representantes da Argentina, do Chile, do Paraguay, da Suécia e de outros países. Alternadamente cantaram-se belíssimas músicas latino-americanas especialmente com a voz sonora da atriz e cantora Letícia Sabatella. Afrodescendentes dançaram e cantaram com suas roupas belamente coloridas.

Fizeram-se vários pronunciamentos. O desalento geral, como por um passe de mágica, deu lugar a uma aura de benquerença e de esperança de que o golpe parlamentar, jurídico e mediático não poderia desenhar nenhum futuro para o Brasil. Antes, encerar-se-ia um ciclo de dominação das elites do atraso para abrir caminho para uma democracia que vem de baixo, participativa e sustentável.

Já antes da sessão foi-nos comunicado que a juíza Catarina Moura Lebbos, braço direito do juiz Sérgio Moro, havia proibido a visita que queríamos fazer ao ex-presidente Lula.

Essa juíza não deu-se conta do alto significado de que é portador um Prêmio Nobel da Paz. Ele tem o privilégio de correr o mundo, visitar prisões e lugares de conflito no sentido de promover o diálogo e a paz. Agarramo-nos ao documento da ONU de 2015 que se convencionou chamar de “Regras de Mandela” que trata de Prevenção ao Crime e a Justiça Criminal. Aí se aborda também a parte da visita aos encarcerados. O Brasil foi um dos mais ativos na formulação destas Regras de Mandela, embora não as observe em seu território.

Mas de nada nos valeu. A juíza Lebbos simplesmente negou, No dia seguinte, dia 19 de abril, chegamos ao acampamento, onde centenas de pessoas fazem vigília junto ao Departamento da Justiça Federal, onde Lula está preso. Gritam-lhe “Bom dia, Lula”, “Lula livre” e outras palavras de ânimo e esperança que ele em seu cárcere pode escutar perfeitamente.

Policiais estavam por todo os lados. Tentamos falar com o chefe para podermos ter uma audiência com o Superintendente da Polícia Federal.

Sempre vinha a resposta: não pode, são ordens de cima. Após muito insistir, com chamadas de telefone indo e vindo, Perez Esquivel conseguiu uma audiência com o Superintendente. Explicou-lhe os motivos da visita, humanitária e fraterna a um velho e querido amigo. Por mais que Perez Esquivel argumentasse e fizesse valer seu título de Prêmio Nobel da Paz, mundialmente reconhecido e respeitado, ouvia sempre o mesmo ritornello: Não pode. São ordens de cima.

E assim, cabisbaixos, retornamos para o meio do povo. Eu pessoalmente insistia que minha visita era meramente espiritual. Iria levar-lhe dois livros ”O Senhor é meu pastor e nada me falta”,um comentário minucioso que realmente alimenta a confiança. O outro de nosso melhor exegeta Carlos Mesters “A missão do povo que sofre” descrevendo o desamparo do povo hebreu no exílio babilônico, como era consolado pelos profetas Isaías e Jeremias e como a partir daí se fortaleceu o sentido de seu sofrimento e sua esperança.

No Departamento da Polícia Federal tudo era proibido. Sequer um bilhete era permitido para ser enviado ao ex-Presidente Lula.

No meio do povo, falaram vários representantes dos grupos, especialmente um casal da Suécia que sustenta a candidatura de Lula ao Prêmio Nobel da Paz. Falei eu e Perez Esquivel, reforçando a esperança que finalmente é aquela energia ponderosa que sustenta os que lutam pela justiça e por um outro tipo de democracia. Ele anunciou que lançara a campanha mundial para Lula como candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Há já milhares de subscrições em todo o mundo. Lula preenche todos os requisitos para isso, especialmente as políticas sociais que tiraram milhões da fome e da miséria e seu empenho pela justiça social, base da paz.

Muitas foram as entrevistas aos meios de comunicação nacionais e internacionais. Algumas fotos do evento começaram girar pelo mundo e vinha a solidariedade de muitos países e grupos.

Aí nos demos conta de que efetivamente vivemos sob um regime de exceção na forma de um golpe brando que sequestra a liberdade e nega direitos humanos fundamentais.

A pequenês de espírito de nossos juízes da Lava Jato e a negação de um direito assegurado a um Prêmio Nobel da Paz de visitar um seu amigo encarcerado, no espírito de pura humanidade e de calorosa solidariedade envergonha nosso país, Apenas comprova que efetivamente estamos sob a lógica negadora de democracia num regime de exceção.

Mas o Brasil é maior que sua crise. Purificados, sairemos melhores e orgulhosos de nossa resistência, de nossa indignação e da coragem de resgatar a partir das ruas e pelas eleições um Estado de direito.

Não esqueceremos jamais as palavras sagradas:”Eu estava preso e tu me impediste de visitá-lo”.

O Tiradentes-Temer


sábado, 21 de abril de 2018

As ligações perigosas de Sergio Moro, expostas em um bar de Curitiba

Temer e Tiradentes


Com a corda no pescoço


Sem futuro



O Brasil rompeu o elo com a Civilização e tornou-se hoje o campeão mundial de boçalidade.



O antipetismo e o antilulismo, que poderiam ser aceitos como parte do jogo político, se transformaram em exercício de enfermidade. Quem entra na área de comentários de qualquer grande portal, sai dali com a certeza de que o Brasil rompeu o elo com a Civilização. Em matérias sobre a tendência da moda na Itália, campeonato de basquete da Áustria etc. vem uma legião de "nossa bandeira jamais será vermelha", "os comunistas querem tomar o Brasil"... É tanta ignorância que o Brasil tornou-se hoje talvez o campeão mundial de boçalidade. As anas amélias mentais se reproduzem mais do que coelhos. Até a pavorosa extrema-direita europeia é mais, digamos, cordata e civilizada. O que assusta aqui é a falta de conhecimento que alimenta a baba do ódio.



STF: analfabetismo jurídico acompanhado de pitadas de boçalidade.

Claudio Guedes

O pior de tudo

Tempos sombrios. 
Tempos onde a mediocridade assume protagonismo.

Em quase todas as esferas da vida pública do país. 
Mas na área jurídica é uma trabucada, uma tempestade. 
Dureza.

O que dizer do juiz de 1° Instância como Sérgio [celebridade] Moro?

Você, meu amável leitor, já tentou ler uma sentença completa do juiz de Curitiba. Tentei. Um sofrimento. A língua espancada, o conhecimento jurídico mais reles, mais vulgar, explorado como faria um estagiário medíocre das ciências jurídicas. E o juiz, que era proclamado e festejado, como tendo se especializado em Harvard, Cambridge, USA, falando inglês? O que é aquilo? Como ele entendia as aulas? O que ele compreendia do que falavam os professores? Um farsante?

E o procurador-pastor? O do jejum pela prisão de um réu em processo no qual foi o principal acusador?

Um vivaldino capaz de especular com imóveis de um programa do governo destinado a pessoas de baixa renda e solicitar auxílio-moradia mesmo tendo imóvel residencial próprio na cidade que exerce a função? E os textos que comete o ideólogo da Lava-Jato onde abundam afirmações do tipo: " O STF pode transformar justiça penal num conto de fadas". Isso comentando o debate profundo sobre a presunção da inocência no âmbito do direito constitucional. Deltan Dallagnol é um expoente da vulgaridade e da boçalidade presente no dias de hoje no ministério público nacional.

E o Barroso, Luís Roberto? O ministro do STF, nosso (sic) visconde de Vassouras, se deliciando, se embalando, ao som da própria voz ao narrar, tal qual um sub-Datena de toga, momentos escabrosos do nosso sistema jurídico-penal? Uma lenga-lenga sem fim, com ares de drama novelesco mexicano, um mix de sofrimento, crime passional, violência e sangue. Em uma sessão da Suprema Corte? Quem merece?

E o quarteto Alexandre de Moraes, Rosa Maria Weber, Luiz Fux e José Antônio Toffoli, o Dias?

Outro dia, após assistir uma sessão quase completa do STF, quase tive um surto depressivo. A causa? Acompanhar, sem intervalo, os votos de suas excelências. Analfabetismo jurídico acompanhado de pitadas de boçalidade. Uma pobreza, uma indigência intelectual capaz de deprimir até um cidadão com limitadíssimo conhecimento jurídico como este escriba.

São hoje o tom maior do Brasil. 
As vozes mais ouvidas no país.

São, hoje, o poder judicial. Um poder nas mãos da mais refinada (sic) mediocridade que poderíamos algum dia gestar.

Dureza o Brasil. 
Tristeza.

Entre o fascismo e nós, só há nós


Blog da Boitempo 

Por Luis Felipe Miguel 

Com o golpe de 2016, as condições da disputa política no Brasil entraram em processo de rápida deterioração. A institucionalidade fundada na Constituição dita “cidadã” opera de maneira cada vez mais precária; suas garantias são cada vez mais incertas. A prisão do ex-presidente Lula, após julgamento de exceção, ao arrepio do texto expresso da própria Carta de 1988 e com inequívoca intenção de influenciar no processo eleitoral, simboliza com precisão a situação em que nos encontramos.

Ao mesmo tempo, a violência política aberta se alastra, seja por meio dos agentes do Estado (como mostra a repressão cada vez mais truculenta às manifestações populares e a perseguição aos movimentos sociais), seja contando com sua complacência. Das tentativas de intimidação à expressão de posições à esquerda em espaços públicos ao brutal assassinato da vereadora Marielle Franco (e de seu motorista Anderson Gomes), passando pelos atentados às caravanas de Lula, são muitos os episódios que revelam essa escalada. Há rincões em que o assassinato político nunca deixou de existir – somos um país em que o latifúndio nunca parou de matar lideranças camponesas, por exemplo. Neles, o golpe agravou o quadro, dada a sensação de “porteiras abertas” que o retrocesso no Brasil gera para os mandantes dos crimes. E, nos lugares em que o conflito político apresentava um verniz mais civilizado, regredimos para patamar inferior.

Dissemina-se, no Brasil, uma forma de macartismo. Não há interdição legal ao pensamento de esquerda, mas fomenta-se um ambiente social em que ele não pode ser manifestado. As instituições que deveriam garantir a liberdade de expressão são omissas, quando não coniventes com os abusos. A resposta padrão à exposição de valores democráticos e progressistas, em muitos ambientes reais e virtuais, é uma saraivada de impropérios e ameaças. Acusada de “desviante”, a produção artística enfrenta a ojeriza de setores organizados e com influência sobre o público. Procuradores e juízes põem em xeque a liberdade acadêmica, às vezes sob o comando do Ministério da Educação, em dobradinha com um pretenso “movimento” voltado a impedir o pensamento crítico nas escolas pela mobilização dos preconceitos dos pais. Espaços da mídia alternativa são estrangulados economicamente e sofrem tentativas de censura judicial. Na mídia corporativa, as vozes dissonantes são silenciadas e ridicularizadas. O espaço do debate público é estreitado quase até desaparecer. O vocabulário se entorta na direção do conservadorismo: temos que enfrentar o fantasma da “doutrinação”, burlar o veto à discussão sobre “gênero”, voltar a estabelecer o valor da igualdade, traçar novamente o sentido dos direitos.

a sua versão mais extremada, as forças que se encontram na ofensiva na disputa política no Brasil de hoje namoram com o fascismo. O dissenso é traição; o adversário precisa ser eliminado. As hierarquias sociais não podem ser desafiadas. Qualquer oposição aos mecanismos de dominação vigentes, qualquer insinuação de ameaça à sua reprodução inalterada, é marcada como “desordem” a ser esmagada. A desordem na família, a desordem no trabalho, a desordem na escola, a desordem na cidade – contra elas, a solução é a imposição da força.

Quem nos protegerá do avanço do fascismo? Certamente não a lei, que vigora de forma tão insuficiente e que se encontra nas mãos de pessoas dispostas a compactuar com esse avanço na medida em que colabore para a promoção de seus próprios interesses. Pensemos nos chefes do poderes da República: Michel Temer, Cármen Lúcia, Rodrigo Maia. Será possível dizer que algum deles possui valores ético-políticos de base, que limitem a amplitude de seu oportunismo? Há em qualquer um deles algum apreço pela liberdade, pela justiça, um sentimento estendido de solidariedade, que os coloque decididamente no lado do antifascismo? Os fatos sugerem uma resposta negativa.

O que nos impede de mergulhar no fascismo é que ainda há, na sociedade, uma oposição que faz com que esse mergulho seja custoso. É só a nossa resistência, a nossa recusa cotidiana a ceder sem luta qualquer palmo das nossas liberdades, que poderá nos defender do fascismo.
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