terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Homem do Castelo Alto

I Ching, Cinema e mundos quânticos na série "The Man in The High Castle"

Cinema Secreto: Cinegnose

Qual a relação entre o milenar livro-oráculo "I Ching", o Cinema no século XX e a hipótese dos Múltiplos Mundos da Física Quântica? A busca dessas conexões é o desafio para o espectador que assiste à série da Amazon Studios “The Man In The High Castle” (2015 - ) livremente inspirado no livro do escritor sci-fi gnóstico Philip K. Dick de 1962. Um mundo invertido no qual os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália)  ganharam a Segunda Guerra Mundial e os EUA, destruídos pela Grande Depressão, foram conquistados pelo Reich e o Império do rei Hirohito. Porém, a posse de estranhos rolos de filmes de procedência misteriosa passa a ser politicamente importante tanto para Resistência como para Hitler: neles, outros mundos são revelados. Tal como no I Ching, devemos encontrar o imutável em mundos fugazes e em constante mutação. Mas pode tornar-se uma arma política: o controle do Tempo, passado e futuro de toda a humanidade.

Todos historiadores sabem que Hitler era obcecado pelo cinema. Muitos até especulam que a sua performance cênica em comícios tinha um quê de Chaplin e dos galãs canastrões dos filmes da época. Portanto, sua obsessão pelos filmes seria muito mais do que ver neles uma ferramenta de propaganda ou diletantismo estético.

Mas, e se Hitler tivesse um interesse pela arte cinematográfica muito mais específico e secreto? Não apenas como mera estratégia de propaganda,  mas o interesse por certos tipos de filmes que apresentassem futuros alternativos os quais deveria evitar, ajudando a formar o sonhado Reich de mil anos sobre a Terra.

Livremente inspirado no livro do escritor gnóstico sci fi Philip K. Dick, a série da Amazon Studio The Man in The High Castle (2015-) mescla o aspecto fundamental da obra de K. Dick (o que entendemos por “realidade” como um contínuo de muitos mundos que se interpenetram) com muitos aspectos da chamada “parapolítica” – o Poder pensado muito além do campo tradicional da economia e política, mas também por motivações esotéricas e ocultistas.  

No livro homônimo de 1962, K. Dick mostrava uma História alternativa do pós-guerra pela lente da distopia, do romance e da ficção-científica. A estória se desenrolava nos Estados Unidos de 1962: quinze anos depois das potencias do eixo (Alemanha, Itália e Japão) terem derrotados os Aliados na Segunda Guerra Mundial, os EUA foram divididos – da Costa Oeste até as Montanhas Rochosas ficou sob domínio japonês; e a Costa Leste sob o domínio do Império Nazista. E no Meio Oeste e Sudoeste, a chamada Zona Neutra sob forte tensão entre forças nazistas e do império japonês.

Um estranho mundo invertido

A realidade descrita por K. Dick parece um estranho mundo invertido. Os EUA não conseguiram superar a Grande Depressão dos anos 1920, tornando-se isolacionista e evitando envolver-se com a Segunda Guerra Mundial. O começo do fim foi a derrota naval para o Japão em Pearl Harbor e a explosão nuclear sobre Washington.

No livro, Hitler fica incapacitado pela sífilis e o novo chanceler nazista prossegue com o Império Colonial Nazi, massacrando as raças consideradas inferiores – massacram judeus em todo o mundo e comete genocídio maciço na África.

Nesse cenário conturbado surge um livro considerado proibido, cujo autor é o “Homem do Castelo Alto”, mostrando um futuro alternativo sobre como seria a História conforme a conhecemos – o Dia D, a derrota do Eixo e a vitória dos Aliados. O I Ching, o milenar oráculo chinês, tem papel fundamental na vida das pessoas e até mesmo na narrativa desse livro proibido. Uma verdadeira “ficção” dentro de outra obra de ficção.

Se no romance original o pivô é um livro que conta como seria a História se Hitler tivesse perdido, na série criada por Frank Spotnitz o Homem do Castelo Alto coleta estranhos rolos de filmes que são entregues por membros da Resistência. Ocasionalmente, agentes e espiões da SS conseguem roubar esses filmes para entrega-los diretamente a Hitler, em Berlim.

A natureza desses filmes e o motivo pelo qual Hitler e o Homem do Castelo Alto têm não só interesse por eles, mas também o porquê de mantê-los em segredo do público é o mistério por trás das, até aqui, duas temporadas. Membros da Resistência são aconselhados a não assistirem o conteúdo dos rolos de filmes, mas apenas passarem para frente, escondendo-os dos nazistas até chegarem ao Homem do Castelo Alto.

A série altera o conteúdo do livro de K. Dick de três formas cruciais: o livro é substituído por rolos de filmes de natureza misteriosa coletados tanto por Hitler como pelo Homem do Castelo Alto; na série Hitler ainda continua vivo, porém com a saúde abalada pela idade; e, principalmente, a aproximação entre I Ching, Cinema e a existência de mundos alternativos capazes de interagirem mutuamente.

A Série

 Juliana Crain (Alexa Davalos) mora em São Francisco e acaba se envolvendo com a Resistência ao tentar descobrir o destino de sua meia-irmã Trudy, desaparecida logo depois de dar a Juliana um  carretel de um filme intitulado “O Gafanhoto Torna-se Pesado” que retrata a história alternativa em estilo documental mostrando um mundo no qual os Aliados ganharam a guerra.

Esse rolo pertence a uma série de filmes coletados por alguém conhecido como “O Homem do Castelo Alto”. Juliana acredita que essas fitas retratam uma realidade alternativa que esconde uma verdade maior sobre como o nosso mundo deveria ser.

Juliana deverá levar o filme para um contato da Resistência na Zona Neutra. Lá conhecerá Joe Blake, um agente duplo sob o comando do Obergruppenführer da SS John Smith – Rufus Sewell. Sua missão é roubar esse filme para a SS entregar a Hitler, além de delatar nomes-chave da Resistência.

Paralelo a isso, desenrola uma conspiração envolvendo traição e espionagem entre o Império Japonês e Nazista: Nobusuke Tagomi (Joel De La Fuente), Ministro do Comércio japonês em São Francisco, se encontra em segredo com Rudolph Wegener (Carsten Norgaard), oficial nazista sob o disfarce de um empresário em um encontro supostamente comercial. Ambos estão preocupados com o vácuo de poder depois da morte de Hitler e o ataque nazista contra o império japonês que viria imediatamente – os nazistas tecnologicamente estão muito à frente dos japoneses. Enquanto a aviação comercial alemã é feita por imponentes aviões à jato parecidos com Concordes e a conquista espacial já tenha alcançado a Lua e Marte, os japoneses ainda se deslocam em navios e aviões convencionais.

Wegener quer passar secretamente o know how da bomba nuclear para os japoneses. O plano é equilibrar militarmente as duas potencias, criando uma espécie de Guerra Fria que impeça a deflagração de um conflito bélico.

A partir daí a série enreda-se em uma sequência de conspirações na disputa de poder no interior do comando do Reich, os planos japoneses em secretamente criar uma bomba nuclear ainda mais potente e destruir Nova York, o atentado ao príncipe herdeiro em São Francisco e a suspeita da SS estar por trás, a triste constatação de a Resistência ser ainda mais cruel do que os próprios nazistas, a tentativa de transformar a morte natural de Hitler em um atentado japonês como pretexto para deflagrar o ataque nuclear final contra o império japonês etc.

Muitos Mundos quânticos – aviso de spoilers à frente

“O Gafanhoto Torna-se Pesado”, título do misterioso rolo de filme, é uma alusão ao capítulo 12 do livro bíblico do Eclesiastes sobre a fugacidade da vida e a chegada à velhice quando as coisas pequenas podem se transformar em grandes fardos. A própria existência desses filmes representa a fugacidade do que compreendemos como realidade – a possível existência de muitos mundos alternativos que se abrem como bifurcações a cada momento-chave histórico ou pessoal.

A marca registrada da obra de K. Dick é certamente influência da chamada Interpretação dos Muitos Mundos (MWI em inglês), interpretação da mecânica quântica feita em 1957 por Hugh Everett – múltiplos mundos estariam nascendo a cada momento em múltiplas ramificações a cada escolha, incorrendo na chamada “decoerência quântica”. A questão é: a MWI permitiria a hipótese que esses mundos possam interagir ou que sinais possam ser trocados entre os mundos? No âmbito da Física Quântica há uma discussão em torno da hipótese dos Mundos em Choque (MC) – clique aqui.

Em The Man In The High Castle essa possibilidade é o ponto chave do controle político em jogo. Cinema é propaganda (a principal ferramenta usada pelos nazis na História). Mas é apenas uma narrativa construída para as massas aderirem ao Estado. Porém, de onde vem o Poder real?

I Ching e o Tempo

Na obra de K. Dick essa resposta é clara: no controle do Tempo e da Teleologia – a imposição de metas, fins e objetivos últimos para a Natureza e a humanidade. Todo poder, seja religioso ou estatal, tem que criar tanto uma Cosmogonia quanto uma Escatologia – mitos sobre de onde viemos e para onde iremos, a Origem e o Fim de tudo: seja o Paraíso (o Catolicismo), o Apocalipse (os Neopentecostais), a sociedade sem classes (o Comunismo) ou o fim da História no mercado (o Capitalismo).  

Não é à toa que a sede do Reich em Berlim é apresentado como uma espécie de gigantesco Vaticano, cuja imensa cúpula abriga um colossal espaço para milhares de pessoas assistirem aos discursos do Führer.

Os filmes de origem misteriosa são coletados tanto por Hitler como pelo “Homem do Castelo Alto” com um objetivo que fica bem claro ao longo das duas temporadas: estudar as informações dos diversos mundos alternativos, estudando as causas e os efeitos possíveis nas tomadas de decisão.

Além dos filmes, o I Ching é outro canal de contato aos mundos desse multiverso imaginado por K. Dick. Além de fonte de sabedoria com seus aforismos, o milenar livro chinês é também um oráculo que busca a ordem em um mundo em constante mutação. Vemos na série o ministro do Comércio japonês fazendo consultas ao I Ching por meio do jogo das 50 varetas para obter respostas.

O problema do I Ching é formular a pergunta correta. Essa aproximação inicial exige meditação prévia. O que fará, em uma dessas profundas meditações, o ministro Tagomi ser acidentalmente transportado para o mundo alternativo no qual os japoneses foram derrotados.

No mundo apresentado pela série onde realidade e ficção se misturam também não é à toa que os japoneses são obcecados pela busca da “historicidade”, pela busca da essência da verdade – muitos são clientes da loja “American Artistic Handcrafts” do personagem Robert Childan (Brennan Brown) em São Francisco: loja de relíquias da história americana que promete peças autênticas “com historicidade”. Na verdade muitas delas são fakes e produzidas pelo marido de Juliana (Frank Frink, membro da Resistência) cujo dinheiro será entregue à máfia Yakuza.

Sophia em um mundo sem mocinhos e bandidos

Outra grande virtude da série é a impossibilidade para o espectador distinguir mocinhos e bandidos. A Resistência cada vez mais demonstra ser tão cruel quanto os nazis e mesmo o mais sanguinário dos oficiais da SS, John Smith, é um marido dedicado aos filhos e à família.

Aqui entra o recorrente tema da obra de K. Dick: a protagonista feminina encarnando o mítico personagem de Sophia – o aeon que busca o melhor na natureza humana para despertar a luz espiritual esquecida em cada um de nós para nos reconectarmos à Plenitude perdida.

Juliana será o ponto constante em um mundo em mutação, como o I Ching. Ela reconhece a humanidade em cada um dos lados, procurando a verdade por trás do jogo de sombras da política. Por isso, a certa altura, passa a ser perseguida tanto pela Resistência como pelos nazistas e a polícia secreta japonesa, a Kempeitai.

Já no final, o próprio Homem do Castelo Alto reconhecerá em Juliana a constante, sempre presente nos diversos rolos de filmes em múltiplos personagens nos diferentes mundos alternativos. Como uma autêntica narrativa gnóstica, Juliana é a chave, o elemento constante em inúmeras variáveis. O ponto imutável buscado na série tanto pelo I Ching como nos filmes que revelam a fugacidade desse multiverso.  

Por isso, The Man In The High Castle se assemelha a uma casa de espelhos dentro da qual vemos apenas imagens que se refletem e se invertem, sem conseguirmos distinguir o reflexo daquilo que foi refletido.

Seria o Universo uma realidade dentro de outra realidade alternativa e assim por diante? Uma ficção dentro de outra ficção? Será que a realidade que conhecemos nos livros de História e filmes documentários que vemos na TV e no Cinema não passam de estratégias para esconder uma estranha realidade? Estratégias políticas e religiosas de controle do Tempo e da Cosmogonia? Controle do passado e do futuro?


Ficha Técnica
Título: The Man In The High Castle
Criador: Frank Spotnitz
Roteiro:  Frank Spotnitz baseado em livro de Philip K. Dick
Elenco:  Alexa Davalos, Rupert Evans, Luke Kleitank, Joel de la Fuente, Rufus Sewell
Produção: Amazon Studios, Big Light Productions
Distribuição: Amazon Prime Video
Ano: 2015 -
País: EUA

Decreto de Trump dificulta a emissão de visto para turistas brasileiros

Do UOL, em São Paulo

A mesma ordem executiva emitida pelo presidente Donald Trump na sexta-feira (27), que baniu a entrada de refugiados sírios no país e vetou o ingresso de cidadãos de sete países de maioria muçulmana no país por 90 dias também alterou os procedimentos para a solicitação de visto para os EUA, incluindo os pedidos de solicitantes no Brasil.

As novas regras começaram a valer nesta semana. A embaixada dos EUA no Brasil confirmou ao UOL que entre as mudanças está a regra para a realização de entrevistas --a partir de agora, solicitantes que pedirem a renovação de seus vistos na mesma categoria deverão passar por entrevista -- antes, ela era dispensada se o pedido fosse feito até 48 meses após o vencimento.

As regras para a isenção da entrevista também mudaram. A partir de agora, somente quem tem menos de 14 anos ou mais de 79 está dispensado. Antes, jovens entre 14 e 15 anos e idosos acima de 66 anos que pediam o visto pela primeira vez não precisavam realizar a entrevista no consulado.

A versão traduzida da ordem executiva está disponível no site da Embaixada dos EUA no Brasil. Os procedimentos para a emissão de cada tipo de visto americano também estão no site da missão diplomática americana no país.

A Grande Delação


Não comparem Dória com Jânio

Nilson Lage

Não comparem Dória com Jânio.

Ele foi dado por maluco, tentou dar um golpe de estado, mas tinha um projeto de nação.

Iniciou a política de aproximação com todos os povos, mantida até o recente golpe de estado, e foi o primeiro (e até agora único) governante brasileiro a denunciar o imoral favorecimento dos grandes grupos de mídia.

Era provinciano, beberrão, esquisito, conservador, mas não era um saco de vento como o prefeito de São Paulo.

A tragédia neoliberal e a meritocracia



O retrato de uma catástrofe 
Jornalistas Livres 

Marilena Chauí, filósofa e professora universitária, fala, em recente entrevista, sobre a ideologia neoliberal e tece uma visão sobre como a ideia de meritocracia é construída e assimilada especialmente por jovens prestes a ingressar no mercado de trabalho.

Havia mais futuro no passado



Gabriela Souto

O Brasil hoje é um país atrasado, violento e sem perspectiva de futuro num curto ou médio espaço de tempo. Prevejo que a situação será assim por mais ou menos duas décadas, com o risco de durar muito mais tempo se nada mudar, até porque não existem lideranças políticas capazes de fazer frente ao avanço da onda avassaladora da direita entreguista que tomou conta do país, além de Lula, que já tem mais de 70 anos não poderá fazer mais muita coisa, pois está sendo caçado. Sem contar agora, com os problemas de saúde de dona Marisa.

Somente uma revolução social e popular ampla, onde as diferenças políticas entre o Lulismo e o fascismo entreguista (sim, até o nosso fascismo é uma jabuticaba), cujo maior representante é a Operação Lava Jato apoiada pela grande imprensa, sejam limadas poderá resolver o grave problema da sociedade brasileira, que é antigo e existe há muito tempo, caracterizado por um ódio de classe doentio dos mais ricos aos mais pobres. 

A democracia já não existe mais neste país faz tempo. Quem não trabalha com essa ideia está fora da realidade.

Do jeito que as coisas vão, Lula não será candidato em 2018.. Se não for preso, será asilado ou impedido de se candidatar pela Proposta de Emenda à Constituição que quer proibir que políticos que exerceram dois mandatos, consecutivos ou não, no Executivo possam se candidatar novamente. Ou seja, se a Lava Jato não prender Lula, se ele não tiver que se asilar politicamente em outro país para evitar a atuação política da justiça parcial brasileira, o Congresso Nacional golpista mudará a Constituição Federal para que ele não possa se candidatar em 2018 a Presidente da República.

Essa é a realidade que somente uma ruptura popular poderá superar. O golpe de estado entreguista, apoiado pela grande imprensa, por setores do empresariado brasileiro, por quase todo o Poder Judiciário, pela Polícia Federal e pela maior parte do Ministério Público Federal, não deixará mais nenhum candidato, não digo nem de esquerda, mas de viés nacionalista se eleger no Brasil nos próximos anos. Ou as forças entreguistas são confrontadas ou se instalarão de vez no poder, sem chance para o regime democrático, para a soberania popular.

Morre, aos 67 anos, o vocalista e baixista John Wetton



Whiplash

John Wetton, vocalista e baixista que passou pelo Asia, King Crimson, UK, Phenomena e Uriah Heep perdeu a batalha contra o câncer e faleceu aos 67 anos. Ele já vinha se ausentando dos palcos há algum tempo, tanto que Billy Sherwood estava assumindo suas funções na banda nos shows ao vivo.


João Dólar já cometeu os dois maiores erros de sua gestão

Doria já cometeu os dois maiores erros de sua gestão
Leão Serva

O segundo maior erro da administração Doria já aconteceu: o aumento do limite de velocidade nas marginais. Se for um bom prefeito, terá sido só um tropeço de iniciante; se for mau, passará à história como o primeiro de uma lista. Mas não será esquecido. Durante quatro anos, cada acidente que ocorrer nas duas avenidas será analisado sob o crivo de sua decisão; cada morte terá um cúmplice já identificado.

Entendo que Doria prometeu a medida na campanha e quis cumpri-la logo de cara, como Donald Trump com o muro no México. Sei também que a medida é popular: pesquisa da ONG Nossa São Paulo mostra que tem apoio de 54% dos paulistanos. Mas se popularidade fosse critério universal para o gestor público, Oswaldo Cruz não teria insistido em vacinar a população do Rio contra varíola apesar da "Revolta da Vacina" (1904).

A redução de velocidade é impopular em todo o planeta, mas é adotada em nome da saúde pública, como parte de um programa da ONU para diminuir a letalidade do trânsito. Diversos países estão reduzindo mortes. O Brasil está estagnado, mas sua maior cidade vem melhorando.

Há um aspecto irracional na reversão da medida adotada pelo prefeito anterior: ela prejudica quem a defende, as pessoas que trafegam pelas duas avenidas e acham que aumentar a velocidade permitida reduz a lentidão. A ciência mostra o contrário: a melhor "produtividade" de uma via (capacidade de levar mais carros rapidamente de um ponto a outro) se dá em torno de 50km/h. Quando os carros aceleram mais, o motorista se distancia do carro da frente para não bater em caso de brecada súbita, e a distância entre eles vai fazer caber menos carros por quilômetro de avenida. Essa foi a conclusão dos estudos pioneiros do engenheiro russo Boris Kerner, a serviço da indústria Mercedes-Benz, buscando aumentar o conforto de seus consumidores.

Ou seja, mesmo pensando no interesse do carro-dependente, esquecendo o risco de acidentes e mortes, o melhor seria manter as velocidades adotadas na gestão anterior. Um bom líder político deveria entender isso e explicar à sociedade.

Ninguém abominou mais o prefeito Fernando Haddad (PT) do que os taxistas. Pois eles defenderam a preservação dos limites, por entender que foram benéficos. O que odiavam era a chamada "indústria da multa", da qual se sentiam as maiores vítimas.

Pois a solução adotada pela prefeitura vai ser um tiro no pé de quem votou em Doria para acabar com a "indústria da multa". Para não potencializar o risco de acidentes ao aumentar os limites de velocidade, foram estabelecidas velocidades diferentes dentro da mesma pista local. Além de ser difícil medir e controlar, a diferença de velocidade entre faixas vai provocar confusão, "turbulência", entre os carros que aceleram (para chegar à segunda pista) e desaceleram (para passar à da direita ou virar numa transversal). Se a prefeitura punir o desrespeito aos 50km, as multas vão multiplicar; se não o fizer, vai incentivar o desrespeito e a medida não vai pegar, aumentando a insegurança de carros e pedestres nas transversais. Como dizia o líder francês Cardeal Richelieu (1585-1642), tirano de "Os Três Mosqueteiros", fazer uma lei e não exigir seu cumprimento é como incentivar o desrespeito.

A administração iniciou uma grande campanha publicitária para divulgar hábitos de segurança no trânsito, junto com o aumento dos limites de velocidade. Campanhas educativas são boas. Mas é estranho ter que gastar dinheiro nos meios de comunicação, em época de crise orçamentária, com mensagens para reduzir riscos decorrentes de uma medida da prefeitura. Era melhor para o Tesouro não ter tomado a decisão.

O leitor talvez se pergunte: qual é então o maior erro da administração? O prefeito está chamando a atenção demais para si. Aparecendo tanto, põe sua digital em tudo que faz a prefeitura, inclusive as bobagens, como o erro no decreto sobre cobertores dos moradores de rua. Um bom líder, como Dória quer ser, deve dar liberdade aos secretários para serem protagonistas em suas áreas e, quando errarem, absorver os efeitos negativos de suas ações

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P.S.: o último parágrafo é muito idiota, não vou publicar. Compara o "sucesso" do ladrão Menem com o "fracasso" do ladrão Collor.

Folha de S. Paulo publica perfil falso e desonesto de Ives Gandra


A Folha de S. Paulo publica hoje um perfil de Ives Gandra Martins Filho, descrito como culto, trabalhador e com "sólida formação jurídica" - o fato de que seja desprovido de qualquer senso de justiça parece não importar.

Em seguida, apresenta sua posição contrária aos direitos dos trabalhadores. A legislação trabalhista seria "paternalismo"; o adequado é deixar capital e trabalho se enfrentarem num ringue de vale-tudo. O trabalho sairia prejudicado? Bobagem, diz o candidato ao STF: se Lula chegou a presidente, isso prova que os sindicatos são fortes. É um argumento tão desonesto, tão capcioso, que imagino que, depois de expressá-lo, Gandrinha deve apertar mais o cilício, como penitência.

Mas o que me chamou a atenção no texto foi o seguinte trecho: "O que pode dificultar sua indicação são as reações à visão ultraconservadora sobre questões morais, exposta em reportagem da Folha". (É mentira; dias antes da Folha, saiu artigo no Justificando, que foi amplamente repercutido. Mas não é esse o ponto.)

O texto está dizendo que o reacionarismo em relação aos direitos trabalhistas não prejudica a candidatura dele, só o reacionarismo em relação aos direitos das mulheres e de gays e lésbicas. Infelizmente, parece que é isso mesmo. A reação feminista à possibilidade de nomeação de Gandra Filho tem sido bonita. É bom ver tanta gente dizendo que não admite um sexista e homofóbico no STF.

Mas as posições dele contra os direitos trabalhistas justificariam reação similar - e essa não se vê. Magistrados do trabalho condenam, aqui e ali, o comportamento dele no TST, mas pouco mais do que isso. Onde estão os sindicatos? Vamos mesmo esperar passivamente a revogação de todos os nossos direitos, da aposentadoria à jornada de oito horas e às férias remuneradas?

Golpe derruba a indústria para o nível pré-Lula

Brasil 247
Os impactos do golpe parlamentar de 2016, articulado por Aécio Neves, Eduardo Cunha, FHC e Michel Temer, foram devastadores para a indústria brasileira, cuja utilização da capacidade recuou para níveis anteriores aos do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o nível de utilização da capacidade instalada da indústria brasileira encerrou 2016 em 76%, o mais baixo já registrado desde 2003, informou a CNI nesta segunda-feira 30; com Lula e Dilma, a indústria cresceu de forma contínua, mas o tombo veio em 2015, quando Aécio se uniu a Cunha para sabotar o País, e em 2016, quando Temer aprofundou a depressão econômica


Mariana Branco, repórter da Agência Brasil - O nível de utilização da capacidade instalada da indústria brasileira encerrou 2016 em 76%, o mais baixo já registrado desde 2003. A informação é da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que divulgou hoje (30) os indicadores industriais relativos a dezembro do ano passado.

"É indicativo de uma grande folga que existe na indústria. Há uma grande ociosidade no setor e isso é um limitador da retomada do investimento", afirmou o gerente-executivo de Políticas Econômicas da CNI, Flávio Castelo Branco.

O levantamento também indicou redução do poder de compra dos trabalhadores no fim do ano passado. A massa real de salários recuou 1,6% enquanto o rendimento médio real do trabalhador caiu 1,2% em dezembro na comparação com novembro. "A capacidade de compra está prejudicada não apenas pelo desemprego, como também pela inflação", disse Castelo Branco.

Por outro lado, dezembro registrou dados positivos em relação ao emprego e às horas trabalhadas na produção. Após 23 meses consecutivos de queda, o emprego cresceu 0,2% em dezembro ante novembro.

No mesmo período, as horas trabalhadas cresceram 1%. De acordo com a CNI, foi o segundo aumento consecutivo das horas trabalhadas na produção. Nos últimos dois meses de 2016, o indicador acumulou crescimento de 1,8%.

Todos os dados contêm ajuste sazonal, ou seja, levam em conta a inflação e as características do período analisado.

Para Flávio Castelo Branco, os resultados do emprego e horas trabalhadas podem sinalizar "possível reversão da trajetória negativa da atividade industrial, que já vem [ocorrendo] há dois anos".

Queda anual

Na comparação anual, os indicadores da indústria pioraram em relação a 2015. O faturamento real caiu 12,1% e as horas trabalhadas, 7,5%. O emprego diminuiu 7,5% e a massa real de salários teve queda de 8,6%. Já o rendimento médio do trabalhador recuou 1,2% de um ano para o outro.

Segundo Castelo Branco, a comparação evidencia que 2016 foi um ano difícil para indústria. "A magnitude da queda [do faturamento real], na casa dos dois dígitos e em cima de quedas que já têm sido grandes em anos anteriores, mostra uma grande corrosão do faturamento das empresas."

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Buraco Negro

Bancos se preparam para quebradeira geral

247 - Diante do caos econômico da administração de Michel temer, que afunda o Brasil na maior crise de sua história, os maiores bancos privados do País já preveem uma quebradeira generalizada nas empresas. Depois de amargarem perdas com a deterioração financeira de grandes empresas, que entraram em recuperação judicial ou estão envolvidas na Lava Jato, Itaú, Bradesco e Santander começaram, nos últimos meses, a se organizar para evitar uma crise ainda maior. A preocupação é que essa onda de recuperações se intensifique e provoque um efeito cascata de estragos na já combalida economia do País. Com equipes especializadas, esses bancos criaram departamentos totalmente focados na reestruturação de médias e grandes empresas.

As informações são de reportagem de Mônica Scaramuzzo e Renée Pereira no Estado de S.Paulo.

"A ideia é trabalhar de forma preventiva, antes que o problema leve mais companhias a um processo de recuperação judicial ou falência – o que é prejudicial também para o balanço dessas instituições, que no último ano tiveram de fazer provisões para perdas bilionárias. Os casos mais emblemáticos foram os da Oi, com dívidas de R$ 65 bilhões, e da Sete Brasil, criada para entregar sondas para a Petrobrás, com débito de R$ 20 bilhões.

Fontes de mercado afirmam que há uma “watch list” (lista de monitoramento) de cerca de R$ 300 bilhões em dívidas de médias e grandes empresas na mira de bancos para reestruturação. Esse valor exclui a dívida da Oi e parte das renegociações de dívidas já feitas por algumas das empresas do grupo Odebrecht."

Eike liga para Luciano Huck do presídio

Ex-propriedade de Eike Batista
Eike liga para Luciano Huck do presídio Ary Franco:
— Alô, Luciano?
—  Sim, quem é?
—  Eike Batista.
—  Quem diria. Loucura, loucura, loucura.
—  Pois é, preciso de sua ajuda.
—  Claro. Você sempre me ajudou e continua me ajudando.
—  Como assim?
—  Mandei fazer uma camiseta com uma foto sua atrás das grades e com uma coleira no pescoço escrito JUSTIÇA. Tá vendendo um bocado. É o capitalismo, você me entende, né?
—  Sim, claro, eu faria a mesma coisa.
—  No que posso ajudar, Eike?
—  Você não faz propaganda daquela faculdade de Osasco?
—  Sim, a Anhanguera.
—  Tem curso à distância.
—  Tem.
—  Tô aqui com o panfleto. Um preso me deu. Ainda tem aquela promoção?
—  Sim, pague até 70% do curso depois de formado.
—  Vou levar. Você consegue agilizar pra mim?
—  Rola uma comissão?
—  Sim.
—  Show de bola.

Brasileiro lincha ladrão de um tostão e tira selfie com ladrão de um bilhão

Roubou uma CAPA de celular

Roubou mais que o PCC, CV, FDN e todos os deputados e senadores somados

Código Penal em tempos de ódio

Luís Carlos Valois

Código Penal em tempos de ódio:

Art.1º - Para vingança social esta lei se aplica retroativamente, independentemente da data do crime ou da lei.

Art. 2º - O fim da pena é satisfazer o sentimento de impunidade da população.

Art. 3º - A jurisprudência será construída pelo noticiário da TV com prioridade sobre o do rádio.

Art. 4º- O judiciário zelará pela aplicação da lei, podendo dela divergir para fazer valer o bem maior da vingança.

Art. 5º - No caso de esta lei ou de o judiciário falharem, o linchamento é o meio adequado de solução de conflitos.

Art. 6º - A prisão é o melhor lugar para se colocar todo mundo que se enquadrar nas hipóteses do art. 2º.

Art. 7º - Revogam-se as disposições contrárias, aliás, nem há necessidade disso.

A deterioração das instituições

Nelson Barbosa

Não há um único passo do nosso judiciário que não nos lance num mar de dúvidas quanto à hombridade de quem deu o tal passo.

Não há um único gesto do judiciário que não nos desperte a sensação de um jogo muito bem articulado para que saiamos perdendo algo.

Até pouco tempo atrás, esta sensação ficava, em termos, restrita ao legislativo.

Para vermos a que ponto deterioraram nossas instituições a partir deste golpe vergonhoso.

Violência nos Estados Unidos não tem nada a ver com muçulmanos

Luis Felipe Miguel

Leio que um estudioso calculou que, desde os ataques do 11 de setembro, terroristas muçulmanos foram responsáveis por 0,0005% dos assassinatos cometidos no território do Estados Unidos. A esmagadora maioria das mortes é causada por psicopatas, supremacistas brancos, gangues em guerra e homens com ódio de suas mulheres. São produtos genuinamente locais. Conclui-se que, para fazer dos Estados Unidos um local mais seguro, Trump devia proibir que estadunidenses entrassem lá.

Cármen Lúcia homologa as 77 delações da Odebrecht

247 A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, acaba de homologar as 77 delações da Odebrecht, que têm potencial para derrubar o governo Temer. 

As delações da Odebrecht servirão para comprovar que o golpe nada mais foi do que uma reação de políticos corruptos contra uma presidente honesta, Dilma Rousseff, que não conteve a Lava Jato.

Será possível confirmar, por exemplo, que Michel Temer pediu e recebeu R$ 10 milhões do departamento de propinas da Odebrecht (leia aqui), que José Serra recebeu R$ 23 milhões desse mesmo departamento numa conta suíça (leia aqui) e que o senador Aécio Neves tinha despesas pessoas pagas pela empreiteira, por meio de seu marqueteiro (leia aqui).

Agora, caberá ao procurador-geral, Rodrigo Janot, pedir investigações contra políticos com foro privilegiado. 

Segundo o portal jurídico Jota, delações serão mantidas em sigilo.



domingo, 29 de janeiro de 2017

Morte em Veneza


Desde que Pateh Sabally se afogou no canal de Veneza, tenho buscado informações sobre o desastre em jornais brasileiros, italianos e de outros países. Constatei algumas coisas e nenhuma delas é boa:

1. Apesar de sua justa indignação, é raro ver um manifestante que saiba o nome do afogado. É sempre "o rapaz africano", "o jovem africano". Pois bem: o nome dele, favor não esquecer, era Pateh Sabally.

Sim, é verdade que a tragédia individual de Pateh ilustra em parte a tragédia de todo um coletivo, e daí eu compreendo a tentação de apagar a identidade do sujeito, não chamando-o pelo nome. Até acho que não é de propósito. Para muitos bem intencionados, Pateh não existe enquanto alguém que sofre individualmente, o sofrimento dele é o sofrimento de toda a África. Para outros, é um equívoco dissipar Pateh num coletivo. Eu acho os dois extremos errados.

Há muita xenofobia na Itália e na Europa, sobretudo dos europeus entre si. O povo italiano é bairrista e não é raro testemunhar depreciação mesmo entre eles. Já falei sobre isso incontáveis vezes: a forma pejorativa com que alguns nortistas se referem a napolitanos, e por aí vai. Mas há também muita coisa boa acontecendo e um esforço monumental para ajudar pessoas nas condições de Pateh.

2. O jornalismo de telefone sem fio domina. A Revista Fórum diz que O Globo disse. Por sua vez, O Globo diz que o The Times disse. O The Times diz que, segundo o Jornal X, ocorreu Z. Só que o jornal X afirma que ocorreu Z segundo o site de notícias Y. Em um monte de publicações, nem sinal do nome do rapaz. Se o jornalismo virou citação de citação, acho melhor não ler mais nada, pego informações pelo Twitter. Lendo a circularidade de citações de citações de citações, me pego perguntando:

"Alguém procurou a família e os amigos de Pateh?"

"Alguém entrevistou testemunhas do episódio?"

Esse jornalismo circular de telefone sem fio é, ironicamente, um jornalismo de apagamento. As pessoas não existem. Para que conversar com as pessoas? Não falta, contudo, o espelhamento recíproco, o looping inescapável do disse-me-disse.

Daí eu encontro um ou outro jornal em que o jornalista fez exatamente isso. Esses jornais são raros e que bom que eles existem. Conto aqui o que li em alguns jornais italianos, que conversaram com parentes e amigos de Pateh e consideraram o que ficou visível em câmeras de vigilância e em cinco filmes diferentes feitos com celulares:

:: [Um pouco da] História de Pateh ::

Tinha 22 anos e era da Gâmbia. Tinha permissão de residência na Itália, logo não estava "desesperado por não ser aceito". Vivia em uma cidade siciliana. Casou-se na Suíça. Tinha ampla família vivendo legalmente na Alemanha e um primo morando também na Itália.

Voltou para a África e depois retornou à Itália, em condições legais.

No dia em que morreu, a temperatura de Veneza variou de um mínimo de -3º a um máximo de 3º, sendo 0º na maior parte do tempo. A água estava terrivelmente fria, nesse que tem sido um dos invernos mais intensos da Itália nas últimas décadas.

Pateh chegou em Veneza naquele dia. Não morava lá. Sentou-se nas escadas da estação de trem e ficou olhando a laguna.

Levantou-se, deixando a mochila na escada. Foi na direção da laguna, atirou-se na água e ficou lá, flutuando por um tempo.

As pessoas inicialmente não entenderam aquilo como um suicídio. Acharam que era uma pessoa que resolveu nadar na laguna. De vez em quando, algum turista sem noção faz isso: se atira na laguna, mesmo sendo terminantemente proibido nadar ali. Algumas pessoas riram, outras gritaram "tá doido?".

Após um curto tempo, não mais que dois minutos, uma das pessoas que filmava a cena bizarra se deu conta de que algo errado estava acontecendo e começou a gritar "atira a boia!", para um barqueiro. O barco parou e atirou na direção de Pateh não apenas uma nem duas boias, mas cinco.

Ele ignorou todas e chegou a se afastar de uma. Então, afundou e morreu.

No bolso da calça da Pateh, encontraram os documentos dele protegidos por um saco plástico e o bilhete de trem que provava que ele tinha acabado de chegar em Veneza. Ele queria que esses papeis fossem encontrados em seu corpo? Provavelmente sim. Esses documentos mostravam que ele era ganês, estava regular na Itália e morava na Sicília. Nenhuma carta de suicídio, nada.

Ninguém sabe por que Pateh supostamente cometeu suicídio. Ressalto o "supostamente", porque mesmo tudo indicando isso, não temos como saber. E se ele tivesse alguma doença mental, surtou e resolveu nadar? Não temos como saber. Sabe-se que ele se recusou a agarrar as boias. Sabe-se que ele se afastou de uma das boias, a que foi atirada mais perto dele.

O resto é o incômodo não-saber. É tudo suposição: sofria por não conseguir emprego, situação que é similar a de muitos europeus. Teria sofrido uma decepção amorosa? Ninguém sabe, nem os amigos dele, nem os familiares.

Se foi suicídio, Pateh foi a Veneza para fazer isso. Se foi suicídio, escolheu morrer em um lugar lindo, em águas geladas. Pateh morreu pertinho de minha casa. Se eu não estivesse de férias no Brasil, talvez tivesse passado por ele.

:: Os vídeos ::



Os vídeos mostram as pessoas gritando por socorro. Em um ou outro caso, a pessoa ri, sem entender por que o sujeito resolveu nadar em lugar proibido. Em um dos casos, uma mulher fica enfurecida e comenta "seu maluco, você quer morrer? Então morra!". Esses comentários que oscilam entre o riso e a indignação ocorrem nos primeiros segundos, quando as pessoas achavam que era alguém querendo chamar a atenção fazendo maluquices.

[coisa que, aliás, não falta em Veneza]

O vídeo principal que serve como prova do ocorrido apenas mostra um homem italiano gritando para que as boias sejam atiradas para Pateh. Em um dado momento, ele se irrita com a recusa de Pateh em pegar as boias, e o chama de "estúpido".

:: A distorção dos depoimentos ::

Os jornais dizem que Dino Basso, chefe da associação de salva-vidas, disse "não quero culpar ninguém, mas talvez algo mais poderia ter sido feito".

Daí as pessoas distorcem a fala de Basso, alegando que o próprio chefe dos salva-vidas teria dito que alguém deveria ter se atirado ao mar para salvar Pateh. Mas não foi isso o que ele disse.

Ocorre que o procedimento correto em casos de pessoas caídas na laguna durante o inverno gélido [e mesmo fora dele] é atirar boias. Quando isso é feito, até crianças agarram as boias.

Existe, entretanto, uma falha que pode ser corrigida: ninguém havia previsto suicídio ou insanidade. Ninguém havia previsto alguém que recusa as boias. A falha, conforme penso, é não existir uma rede de arraste que puxe a pessoa mesmo que ela escolha se afogar.

:: Boicote a Veneza ::

A Liga da Justiça da Internet já organizou até movimentos de boicote a Veneza. Eu espero sinceramente que isso aconteça, porque a cidade está sendo destruída pelo turismo de massa. Eram 120 mil habitantes em Veneza no ano 2000. Hoje, são 59 mil e há quem me chame de maluco por ter escolhido viver em uma cidade em que às vezes não dá nem pra andar porque as pessoas realmente acham que ninguém mora ali. Outro dia, encontrei um rapaz brasileiro que ficou surpreso ao saber que pessoas moram em Veneza. Ele achava que era tudo um grande parque de diversões. Não me espanta existirem grupos que não veem problema algum em bloquear uma rua inteira pra ficar tirando fotos enquanto anciões de mais de 70 anos tentam desesperadamente passar.

Infelizmente, o boicote não ocorrerá. Em uma semana, quase todos irão esquecer Pateh. Se já não sabem o nome dele hoje em dia, imagine semana que vem. Semana que vem, estarão empenhadas em encontrar outros culpados para odiar. De esquerda, de direita ou de centro, a bile ferve na mesma temperatura, e parte-se do pressuposto de que todos os outros são monstros, apenas eu sou um anjo de candura.

Mas se algum de vocês for a Veneza um dia, ao saírem da Ferrovia saibam - ao ver aquele cenário lindo - que foi ali que uma pessoa morreu. Se você lembrar do nome dele - repito: Pateh - eu vou achar surpreendente. Surpreendentemente bom.

Obra de Deus

Ives, opus dei
Leandro Fortes

Homofóbico, machista, celibatário, fundamentalista religioso, fascista, solitário, infeliz.

Esse homem é presidente do Tribunal Superior do Trabalho.

Esse homem pode assumir uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

Cinco séculos de colonização, escravidão e servidão voluntária geraram, no fim das contas, essa excrecência simbólica e institucional.

Nos restou esse governo ilegítimo que almeja um País à sua imagem e semelhança: homofóbico, machista, celibatário, fundamentalista religioso, fascista, solitário, infeliz.

O partido único dos Estados Unidos

Cláudio Daniel

Todos os presidentes dos Estados Unidos foram e são genocidas, agressores dos povos do mundo, porque todos eles -- sem exceção -- representam os interesses das grandes corporações, da indústria armamentista, do capital financeiro, do sionismo e da guerra. 

Criticar Trump é uma coisa, afirmar que qualquer líder "democrata" -- Obama, Hillary etc. -- seria menos ruim é um grande equívoco, porque legitima o imperialismo. Obama, por exemplo, bombardeou o Iraque, a Líbia, a Síria, a Somália, o Iêmen, apoiou os golpes de estado em Honduras, Paraguai, Brasil e os crimes de Israel contra o povo palestino. 

Os EUA são governados por um Partido Único que tem dois nomes, Democrata e Republicano, como escreveu Gore Vidal.

"Se as resoluções saídas do Tribunal de Nuremberg fossem aplicadas, então todos os Presidentes norte-americanos pós-1945 teriam de ser enforcados. Com isto quero eu dizer que todos eles cometeram o mesmo tipo de crimes que aqueles que foram condenados à morte pelo Tribunal de Nuremberg."

Noam Chomsky

A imensa vergonha que é a imprensa brasileira

Weden Alves

EM 2117, SEREMOS ASSIM


Maior jornal alemão se pergunta "Então Marx tinha razão?" sobre uma tendência inerente ao capitalismo, a progressiva concentração de renda (riqueza).

Faz o papel da imprensa, discutindo ideias abertamente.

Aqui jornais praticam doutrinação política e econômica, levando grande parte da sociedade sem acesso a publicações alternativas a acreditar num discurso único, qual seja: o discurso e ideologia neoliberais.

As sociedades não deixam de ser capitalistas por isso, mas passam a se preocupar com a concentração de renda e com medidas de redução de danos.

A grande vergonha que é o judiciário brasileiro


O amigo

Caberia ao ministro Gilmar Mendes declarar-se impedido, quando for o caso. Não se espera que o faça. Mas suas longas visitas "de amigo" a Michel Temer o tornam impedido moralmente de conduzir, como faz, parte dos procedimentos no Tribunal Superior Eleitoral sobre irregularidades da chapa Dilma-Temer. Assim como o tornam moralmente impedido de eventual escolha, ou sorteio, para ser no Supremo o novo relator da Lava Jato, em cujas delações Temer aparece quase 50 vezes.

Vontades

Assistente de Teori Zavascki no caso Lava Jato, o juiz Márcio Schiefler Fontes foi cumprir em Curitiba a formalidade de ouvir Marcelo Odebrecht, sobretudo, nesta indagação obrigatória: fez sua delação premiada por "vontade própria?"

Foi, claro. Depois de um ano e quatro meses na prisão, sem ser ouvido até que se mostrasse disposto a fazer a delação desejada pelo juiz e pelos procuradores –estes detentores, eles sim, de vontade imprópria.


sábado, 28 de janeiro de 2017

100 anos da Revolução de Outubro


A Revolução de Outubro, cujo centenário será comemorado em alguns meses, pode ser analisada pelo que produziu concretamente e também pelo que simboliza.

A tomada do poder pelos bolcheviques abriu espaço para um momento extraordinário de efervescência cultural e de experimentação de novas e melhores relações sociais. Não apenas no que se refere às relações de produção e à posição social dos trabalhadores, como se pensaria a partir da ideia estereotipada de que "marxistas só olham para classe". Houve um intenso debate sobre a maneira efetiva de promover a emancipação feminina, socializando as tarefas domésticas e minimizando o papel social da família. O aborto foi legalizado e o divórcio, facilitado ao extremo, a partir da compreensão de que as relações deviam ser mantidas apenas pela vontade livre dos participantes. As relações homoafetivas foram descriminalizadas.

Ninguém está à frente do próprio tempo, mas os bolcheviques se encontravam na vanguarda de sua época no que se refere aos múltiplos eixos da luta pela emancipação humana. Em outro momento histórico, com as limitações decorrentes, a agenda de gênero dos revolucionários russos incluía muito daquilo pelo qual continuamos lutando cem anos depois.

Muito do que foi pensado não foi posto em prática, em grande medida pelas circunstâncias dramáticas do cerco à revolução e pelo atraso gigantesco da Rússia. A guerra civil também estimulou tendências autoritárias que já estavam presentes no próprio bolchevismo. A crença, que se revelou profundamente equivocada, no rápido desaparecimento do Estado, levou ao desinteresse pela produção de mecanismos de controle da autoridade. Com Stálin, o exercício do poder se tornou plenamente discricionário.

Ainda que a propriedade dos meios de produção tenha sido socializada, permaneceu a desigualdade quanto ao controle destes meios e também quanto aos padrões de consumo. Lembro de um trecho, acho que n'A revolução traída, em que Trótski extrai esta conclusão a partir da informação de que estava sendo construída uma fábrica de margarina na União Soviética: a revolução estava dando origem a uma sociedade segmentada entre aqueles que comeriam manteiga e aqueles que teriam que se contentar com margarina! (Eu, que odeio margarina com todas as forças do meu ser, entendo perfeitamente o que Trótski estava dizendo.)

A deriva autoritária do stalinismo permitiu que, após a Segunda Guerra Mundial, prosperasse a categoria do "totalitarismo", para a qual contribuíram desde filósofas brilhantes como Hannah Arendt até ideólogos vulgares como Zbigniew Brzezinski. A noção de totalitarismo permitia que se recusasse o entendimento de que o fascismo e os regimes liberais eram formas alternativas de dominação burguesa em favor de uma nova linha divisória, segundo a qual a União Soviética e a Alemanha hitlerista ficariam de um mesmo lado, o lado oposto às "democracias liberais". A partir daí, de Raymond Aron a François Furet, muitos vão tentar afirmar que a simpatia pelo comunismo, que cativou as melhores mentes de várias gerações, seria equivalente à adesão ao fascismo. Nada mais longe da realidade. A despeito dos múltiplos problemas da União Soviética, o sonho comunista sempre foi o de uma sociedade igualitária, livre e solidária, o oposto do culto à violência, do racismo e da exaltação da hierarquia, próprios dos fascismos.

A herança do stalinismo inclui a burocratização, o autoritarismo e também a perda da imaginação revolucionária. A União Soviética passou a ter como objetivo vencer o Ocidente de acordo com os critérios capitalistas da sociedade de consumo - a "ultrapassagem", para usar o termo de Nikita Kruschev, seria a comprovação da superioridade do socialismo. Mas a lógica da obsolescência, do desperdício e da ostentação serve ao capitalismo, não a uma ordem social que busque superá-lo. A intensificação da corrida armamentista, que levava esta lógica ao paroxismo, desempenhou papel relevante para que os Estados Unidos vencessem a Guerra Fria.

A sina da União Soviética serviu, enfim, como demonstração absoluta da superioridade do "mercado" e do absurdo do planejamento econômico. Para matizar tal veredito, convém lembrar que, em 1917, a Rússia era um país mais atrasado do que o Brasil. Passados 40 anos, os soviéticos estavam colocando na órbita da Terra o primeiro satélite artificial, enquanto nós continuávamos lutando contra a esquistossomose, brincando com ioiôs de plástico trazidos dos Estados Unidos e dependendo das exportações de café e cacau.

A história da Revolução Russa não deve nos mostrar que a transformação do mundo social é impossível ou fadada ao fracasso. Mostra, isso sim, que ela é árdua, que atalhos ou ilusões cobram um alto preço. Mas que vale a pena lutar por ela, mesmo com todas as dificuldades.

Descubra se você é um brasileiro com tendência neonazista ou fascista


A regra das analogias nazistas do advogado norte-americano Mike Godwin diz que à medida que a discussão cresce, a chance de um dos interlocutores chamar o outro de nazista é grande. Se você for chamado de nazista ou fascista em uma discussão é bom saber se seu interlocutor está certo ou errado.

Você pode pensar que não existem neonazistas brasileiros porque uma das principais características do nazismo seria justamente a questão da raça ariana. É por isso que se usa o termo neonazista. Ou seja, estamos falando dos princípios, das linhas de pensamento e ações humanas que afloraram na Alemanha do início do século passado.

Um dos amigos mais próximos de Hitler, Emil Maurice, que foi seu motorista, era um dos nazistas mais violentos. E por incrível que pareça, Maurice era descendente de judeus. Outra situação bastante estranha era a de Ernst Röhm, um dos chefes da S.A, a polícia violenta do nazismo. Röhm era homossexual e foi assessor de Hitler para questões militares.(p. 77). Então você pode ser brasileiro, negro, latino e ter o comichão neonazista ou fascista a espera de um grande líder, de um mito.

Não dá para entender o neonazismo limitado, por exemplo, ao ódio aos judeus, comunistas e homossexuais, sendo que sua essência é ódio em si. Você pode ser um homossexual e odiar politicamente, você pode ser um judeu e odiar. Veja o que acontece com os palestinos; vivem numa espécie de campo de concentração promovido por judeus. Ironia do ódio.

A essência do nazismo está na própria condição de interpretação da realidade. Todos nós podemos agir como nazistas. O nazismo e o fascismo são uma espécie de estado de espírito político do ser humano. O nazismo é um fascismo que chegou às últimas consequências.

Mas o neonazismo tem suas características fundadas na história do próprio nazismo. Para fazer essas analogias, vamos usar citações de uma obra da pesquisadora brasileira Sílvia Bitencourt, que mora na Alemanha e fez um livro sobre o jornal que combateu os nazistas desde o nascimento do partido em Munique, ao sul da Alemanha. Num trabalho minucioso, Silvia conta em detalhes o nascimento do movimento nazista na Baviera.

Um dos primeiros pontos é que o ódio define o pensamento político e a compreensão da realidade. Se você acha a esquerda, comunistas, índios, gays, negros, putas, integrantes do MST, PT, tudo um lixo, você está em sintonia com os nazistas, historicamente.

Veja que muitos integrantes do futuro partido nazista vieram da Sociedade Thule, uma sociedade secreta e antissemita criada em 1918. Criada para combater a revolução, os comunistas e o governo socialista, dela saíram vários membros do futuro partido de Adolf Hitler. “Seus associados eram, sobretudo, acadêmicos, aristocratas e empresários, que se reuniam no luxuoso hotel Quatro Estações, no Centro de Munique” (p. 54).

Então, se você tem simpatia pelo discurso raivoso de direita, também tem linha próxima dos nazistas. Antes mesmo de fundar o partido, Hitler “ingressara no DAP (Partido dos Trabalhadores da Alemanha), um agrupamento de extrema direita ainda sem recursos”(p. 70). Quando teve mais recursos, o partido nazista comprou o jornal de extrema-direita Völkischer Beobachter, ligado à Sociedade de Thule.

Os nomes dos partidos na Alemanha daquela época podem te confundir, mas não significam nada. O partido de Hitler era tão socialistas quanto o PSDB no Brasil de hoje é “social-democrata”.  É a prática política que define o partido e não o nome. Se um partido, por exemplo, abriga um deputado que diz que “quilombolas, índios, gays, lésbicas são tudo gente que não presta”, o partido abriga um pensamento que está em sintonia com o nazismo. Não adianta ter no nome a palavra “democrático”.


Outro componente no nazismo é o discurso conservador machista. Os nazistas buscavam a “decência alemã”, a família alemã, assim como acontece hoje no Brasil nos discursos em “defesa” da família. O machismo de Hitler se estabelecia na própria relação com a sobrinha, Geli Raubal. “Os historiadores concordam que Geli se suicidou, tentando provavelmente se livrar do controle e do ciúme do tio”. (p. 241)

Então, até o momento já temos um perfil: ser de direita, ter ódio e defender a decência da ordem machista da família. Mas continuemos…

Além do ódio como componente de entendimento da realidade e da política, uma outra característica no nazismo é aceitar a violência como estratégia e condição necessária da realidade. Ódio é a parte intelectual e a violência é a prática da solução dos problemas para os nazistas. Se você odeia, você precisa eliminar seu adversário ou inimigo.

Em 1920, Hitler fez o seguinte discurso: “Chegará o dia no qual nossos objetivos serão realizados, e para isso precisamos de ação e violência; mesmo com uma polícia que não quer saber de ação e violência, o fato é que precisamos de violência para impor nossa luta”. (p. 81). Hitler é um pouco sofisticado para quem grita hoje no Brasil que “bandido bom é bandido morto” e que “Direitos Humanos servem para defender bandido”. Esse discurso bem brasileiro é mais nazista que o próprio nazismo; tem todos os componentes do ódio e da violência com a clareza racional de um capitão do mato.

Outra característica das tendências nazistas é a defesa da eliminação (morte) ou o encarceramento, a ampliação das prisões, um estado policial que prende infinitamente, que todo o controle do Estado é dado ao sistema de aprisionamento. Os campos de concentração dos nazistas foram uma consequência do excesso de presidiários, de prisões abarrotadas e superlotadas como as brasileiras atualmente. “Em uma Alemanha dominada por nós, não haverá guerra civil. Em uma Alemanha com a nossa bandeira, a disciplina e a ordem voltarão a ser a lei máxima” (p.258).

Se você odeia e vê a violência como solução, você provavelmente não teria pudores em caluniar e publicar notícias falsas. Talvez por isso a internet esteja cheia de notícias falsas, temos mais nazistas do que imaginamos. Há inúmeros domínios que publicam matérias totalmente distorcidas ou mesmo mentirosas em sua maioria de perfil ideológico de direita. O jornal comprado pelos nazistas, o Völkischer Beobachter, publicou uma série de artigos caluniosos contra o editor do jornal social-democrata Münchener Post, Erhard Auer. O caso foi parar na Justiça e os nazistas foram condenados (p. 95).

O jornal nazista Völkischer Beobachter disparava e alarmava a população com um discurso em que falava de “Terror vermelho”,  dos “socialistas traidores”, do “perigo vermelho”,  da “mentira internacional” e dos “caciques do marxismo judaico”.  Algo como “Vai pra Cuba!”, “Fidel Assassino”, “foro de São Paulo” etc. “Na madrugada de 10 de agosto, um assassinato em particular abalou o país. Nove homens uniformizados da SA invadiram a casa do agricultor desempregado Konrad Pietzuch, militante comunista na cidade de Potempa (hoje Polônia), pisoteando-o e espancando-o até a morte, na frente de sua mãe” (p. 260). Hitler não hesitou em defender os assassinos, assim como no Brasil alguns defendem execução de bandidos e inocentes por policiais ou chacinas em presídio e na periferia das grandes cidades.

Outra característica dos nazistas é o desprezo pela democracia, mesmo uma democracia como a brasileira totalmente controlada pela compra de políticos com o dinheiro de empresas nas eleições, legal ou ilegalmente. Os nazistas tentaram dar um golpe em 8 de novembro de 1923, que fracassou. A história ficou conhecida como o golpe da cervejaria (p. 128).

Como diz Silvia, Hitler abominava a democracia. Assim também pensam alguns brasileiros que sem constrangimento saíram às ruas em 2016 pedindo “intervenção militar”. Para Hitler e para alguns brasileiros, só um governo ditatorial coloca ordem na casa. Ou seja, desprezar e destruir a democracia não passa de um pensamento alinhado ao nazismo. “O tema preferido do líder nazista em seus pronunciamentos passou a ser o colapso da Alemanha. No lugar dos judeus, seus ataques se voltaram contra o sistema parlamentarista e a democracia” (p. 226). Até o termo “Terceiro Reich”, que significa ‘terceiro império’, dá o sentido de negação da democracia.


Os “Documentos de Boxheim”, redigidos por líderes do partido nazista, “postulavam a revogação da Constituição democrática de Weimar e a instauração de uma ditadura militar pela SA” (p. 245). No Brasil de hoje, não existe coisa mais neonazista do que pedir uma ditadura militar.

Uma outra característica dos nazistas é o ‘culto ao líder”, ou na Alemanha, ‘culto ao Führer. O modelo nazista é o mesmo dos fascistas italianos com o duce Benito Mussolini. O culto começou a acontecer nos grandes acontecimentos do partido.  “Os eventos comeram a girar exclusivamente em torno de Hitler, que deles sempre saía ovacionado” (p. 114). Para os seguidores, os nazistas produziam Hitler como um mito. Para o jornal Münchener Post, “os nazistas estariam fabricando um messias, a partir de um mero demagogo de rua” (p.114)

Família, decência, ordem, líder, mito, violência, intervenção militar etc são discursos comuns no Brasil do século 21. E você pode até se identificar com toda essa ladainha que parece ser a panaceia de todos os problemas. Mas o recado que a história nos deixa é mais cruel.

Quando você defende o Estado como promotor da violência, em algum momento ela vai voltar as caras para você. Após exterminar os adversários, os nazistas começaram a ver seus adversários dentro do próprio do ninho nazista. Entre 30 de junho e 1 de julho de 1934, no episódio conhecido como Pacto da Alemanha, um agrupamento de nazistas promoveu uma onda de assassinatos dos próprios nazistas. Entre as vítimas, estava o ex-chefe da SA,  Ernest Röhm e vários integrantes do partido. Mas o caso de Herbert Hentsch talvez tenha sido mais ilustrativo:
“Já passa das dez e meia da noite quando o jovem Herbert Hentsch, membro da SA de Dresden, na Saxônia, recebeu um telefonema. Três camaradas da organização chamaram-no para um encontro. O rapaz de 26 anos vestiu seu uniforme pardo (da SA nazista) e despediu-se de sua mãe, a viúva Klara Bochmann, prometendo não demorar. Ele não voltaria mais para casa. Seu corpo foi encontrado várias semanas depois daquela noite de 4 de novembro de 1932. Herntsch havia sido espancado e assassinado com um tiro no peito. Amarrado pelas pernas e enfiado num saco plástico cheio de pedras, seu corpo foi jogado numa represa” (p.265)

João Dólar e a guerra à arte de rua

CONTRASSENSO E IGNORÂNCIA 
João Wainer

Acredito que as medidas do prefeito João Doria em relação à arte de rua como a criação de "grafitódromos" e a pintura sobre grafites da av. 23 de Maio não foram tomadas por má-fé, mas por ignorância em relação a uma cultura de rua que é fortíssima na cidade de São Paulo e reconhecida no mundo todo.

O prefeito, como quase todo filho da aristocracia, cresceu em uma bolha, vendo a rua como mero espaço de deslocamento, sempre de carro, entre sua casa e os lugares de seu interesse, e não como espaço de convivência, descoberta e sociabilidade.

Esse lapso de formação típico dos filhos da elite paulistana fez com que ele desenvolvesse conceitos distorcidos que podem ser inofensivos para uma pessoa comum, mas desastrosos quando esse cidadão chega à prefeitura da cidade.

É consenso entre os urbanistas que uma cidade segura é aquela que tem as ruas ocupadas por pessoas, fortalecendo o senso de comunidade. Recomendo ao prefeito a leitura de "Morte e vida de grandes cidades", de Jane Jacobs, para que entenda que cercadinhos como o "grafitódromo" e a Virada Cultural em Interlagos estimulam a "shoppingcenterização" da cidade e fazem com que as ruas fiquem cada vez mais vazias e inseguras, matando aos poucos a cidade.

O prefeito precisa entender que a essência do grafite e da pichação está na ilegalidade. Para que um desenho no muro possa ser chamado de grafite, o artista tem que escolher o muro que quiser e fazer o desenho que bem entender, correndo o risco de ser pego pela policia e submetido ao rigor da lei. Faz parte do jogo. Quando o grafite é aceito pela sociedade, transforma-se em um outro tipo de arte, não menos valioso, mas diferente.

A palavra "grafitódromo" é por si um contrassenso, pois quando um artista recebe autorização e cachê para pintar, ele passa a ter um cliente e não pode fazer o que lhe der na telha. O grafite em sua essência não pode ser regulado pelo poder público.

Outro erro do prefeito está na confusão entre o combate ao que ele considera grafite e a pichação. Quando o grafite foi aceito e domesticado pela sociedade, a pichação herdou seu espaço contestador. Pichadores buscam sempre o enfrentamento com o poder público. Declarar guerra à a pichação de forma midiática pode trazer votos, mas é tudo o que os pichadores mais querem e terá um efeito devastador para a cidade, pois a reação será fortíssima.

A pichação é um crime e deve ser combatida, mas é também uma forma de comunicação sofisticada, criada para que seus autores se comuniquem com seus pares e, ao mesmo tempo, agridam a sociedade que os oprime. Vejo nas pichações a mais perfeita tradução estética de São Paulo, um reflexo de seu caos arquitetônico, dos emaranhados de fios, do egoísmo e da vaidade que imperam na cidade.

Ao pichar, jovens periféricos que são invisíveis à sociedade provocam o ódio e passam a ser notados. É melhor ser odiado do que ignorado, e quando o prefeito da cidade te odeia, ele reconhece que você existe, e não há prazer maior do que esse para os pichadores.

Em Nova York, no final dos anos 1970, quando o grafite surgiu como um braço do movimento hip hop, os índices de criminalidade eram altíssimos e a policia tinha assuntos mais sérios a resolver. Só após a gestão Rudolph Giuliani (1994-2001), quando a criminalidade caiu, a policia pôde combater de forma efetiva crimes menores como o grafite.

São Paulo está hoje no mesmo estágio de Nova York nos anos 1980 e só vai ser capaz de enfrentar a pichação de verdade quando resolver uma série de problemas gravíssimos que devem ser prioritários. Pichação se resolve com escola de qualidade e não com tinta cinza e bravatas na televisão.

JOÃO WAINER, jornalista e cineasta, foi diretor da "TV Folha" e repórter especial do jornal. Dirigiu o documentário "Pixo" (2010)
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