sábado, 12 de agosto de 2017

Passagem do tempo é a chave da existência e do filme "A Chegada"


MARCELO GLEISER

A audiência mal se mexeu ao fim de "A Chegada", filme baseado no conto de Ted Chiang sobre uma visita de seres extraterrestres. Irônico que um filme sobre línguas e tradução, sobre como se comunicar com criaturas tão diferentes de nós, deixa as pessoas sem palavras.

Morte, perda, desespero, solidão, perseverança, sabedoria, amor: o filme mexe com tudo isso e muito mais, ancorado na passagem do tempo, a chave da existência.

O contato com alienígenas inteligentes seria, talvez, a experiência coletiva mais profundamente transformadora para nossa espécie. Especialmente o contato direto, se viessem aqui usando meios misteriosos, com objetivo desconhecido.

Para chegar até nosso pequeno planeta, teriam que ter tecnologias que, para nós, seriam mágicas: usar um gigantesco casulo metálico de 500 metros de altura como cápsula espacial, capaz de flutuar, imóvel, como se a gravidade não existisse, e de viajar a velocidades mais altas do que a da luz, algo que nossa medíocre física não tem a menor ideia de como fazer, a menos que algumas leis da Natureza sejam violadas.

Os alienígenas seriam como deuses. E, como todos os deuses, seriam adorados ou temidos.

Uma visita de tais criaturas, comprometeria o instinto natural que temos de fugir ou lutar.

Lutar, ou resistir, seria completamente inútil, dada a disparidade entre nossa tecnologia e a deles –se bem que alguns líderes, especialmente aqueles que controlam vastos arsenais e têm temperamento instável, inevitavelmente tentariam.

Fugir também seria inútil, visto que, como deuses capazes de controlar o espaço e o tempo, nossos visitantes seriam onipresentes.

A única possibilidade seria tentar se comunicar.

Mas como "falar" com criaturas tão diferentes? Como funcionam seus processos mentais, quais os seus valores morais? E os ruídos que soam como baleias, são palavras? Será que suas regras semânticas são semelhantes às nossas?

No filme, para resolver o problema, o governo americano convoca a doutora em linguística Louise Banks (a atriz Amy Adams, que faz um trabalho extraordinário num papel de difícil interpretação) e o físico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner), criando um time único, uma aliança entre as ciências físicas e as áreas humanas e das ciências sociais.

Algumas das questões que desafiam a humanidade são grandes demais para serem tratadas por apenas um aspecto do conhecimento –o instituto que dirijo em Dartmouth se baseia nessa premissa (os interessados podem visitar ice.dartmouth.edu). É necessário pular as barreiras acadêmicas que erigimos entre as várias disciplinas e criar pontes entre os vários tipos de saber. Com certeza, traduzir e interpretar uma língua alienígena é uma dessas questões.

"Precisamos ensinar a diferença entre uma arma e uma ferramenta. As coisas podem ficar confusas quando o mesmo objeto pode ser usado de ambas as formas", diz Banks ao coronel Weber (o ator Forest Whitaker, sempre genial) que, apesar da enorme pressão política, tenta criar o máximo de espaço para o seu time operar.

Um martelo pode construir ou destruir; o que define o seu uso é a intenção de quem o tem na mão.

No meio-tempo, enquanto 12 casulos gigantescos (numa homenagem a "2001: Uma Odisseia no Espaço") flutuam em regiões espalhadas ao longo dos dois trópicos, o caos começa a reinar no mundo.

O medo inspira a destruição, e a sociedade se deteriora. Inicialmente, os que detêm o poder cooperam entre si, trocando informações sobre seus esforços de tradução. Mas logo a competição entre as grandes potências transforma suas descobertas em segredos.

Russos e chineses se recusam a dividir o que sabem sobre os casulos e seus misteriosos habitantes, cercando-os com seus tanques e navios. A tribo humana se divide em facções nacionais: o mundo está à beira do colapso, a guerra parece ser inevitável, mesmo sem qualquer provocação dos alienígenas.

As pessoas não toleram o não saber, a falta de controle. Quando tanto está em jogo, o silêncio dos ETs é uma forma de tortura, ou ao menos é visto dessa forma. Mas os ETS esperam, pacientemente, como se o tempo para eles fosse algo de muito diferente. E é.

Em um determinado momento, o físico pergunta a Banks se ela sonha com "eles". O cérebro tem uma plasticidade neurológica que o torna capaz de se transformar quando aprendemos uma língua nova. O cérebro da doutora Banks vai se transformando (não que seja visível o processo) à medida que ela decifra a estranha iconografia dos alienígenas, baseada em símbolos circulares criados com tinta negra como a dos polvos, com protuberâncias que se parecem com as imagens de um teste de Rorschach.

Uma sequência particularmente bela de "loops" revela que a linguagem dos alienígenas reflete o seu poder de "ver" o tempo, o futuro. Os "loops" no tempo espelham os da linguagem iconográfica dos alienígenas.

Numa representação cinemática das dificuldades intelectuais e emocionais que os cientistas encontram em suas pesquisas –a batalha com o desconhecido, as dúvidas e incertezas, a sedução do mistério– a doutora Banks descobre que também é capaz de fazê-lo. Pode ver o futuro, suas relações amorosas, seus triunfos e perdas.

Os extraterrestres vieram dividir sua tecnologia conosco, para que, no futuro, dentro de 3.000 anos, segundo eles, possamos salvá-los. Vieram elevar nosso nível moral, criar uma aliança cósmica, demonstrando uma generosidade que ilustra a futilidade dos nossos conflitos e comportamento destrutivos. O que é necessário é um jogo de "soma maior do que zero", onde ambas as partes ganhem na interação.

O roteiro é construído de forma brilhante, espelhando as viagens no tempo não linear dos alienígenas; presente, passado e futuro se alternando de forma aleatória. A estética dentro do casulo, onde humanos e ETS se encontram, lembra uma tela de cinema, mas elevada a um altar, onde podemos vislumbrar as entidades semidivinas por dentre a névoa.

Um filme que gira em torno da natureza do tempo tem uma missão, nos força a confrontar nossa mortalidade, a perda, a incerteza do nosso destino.

O silêncio da plateia ao final não é surpreendente. A narrativa nos convida a uma autorreflexão –onde estamos na vida, as escolhas que fazemos com o tempo que temos– ao mesmo tempo que ilustra a estupidez coletiva de nossa espécie, os intermináveis conflitos e guerras, a fragilidade do pacto social e do nosso planeta.

Mas os alienígenas têm fé na humanidade; vieram aqui por isso. Pena que sejamos tão pequenos na nossa cegueira política, tão arrogantes com o poder que pensamos ter.

MARCELO GLEISER é professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, EUA. Seu livro mais recente é "A Simples Beleza do Inesperado" (ed. Record)

Um comentário:

  1. Curioso! O articulista expõe detalhes do enredo incluindo o final!! De quebra deixa uma insinuação de que os russos e chineses não colaboram. Resta a sensação de que os EUA investiram com força no sentido de conseguir "ferramentas" para a humanidade, de uma forma filantrópica

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