sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Os zeladores da nova moral

Ana de Hollanda

Não costumo postar comentários sobre o que se fala de Chico, até porque, além de nunca ter agradado a todos – o que é normalíssimo - ele não precisa de mim para defendê-lo. Mas o fato é que vejo gente que acredita estar abraçando uma causa progressista ao fazer coro a oportunistas de sempre que usam a popularidade dele para se projetar midiaticamente, através de qualquer polêmica. 

Há décadas a Folha de São Paulo - na época rompida explicitamente com Chico - costumava contratar garotos recém-formados para escreverem críticas detonando os trabalhos dele, declarando ser um artista ultrapassado, "datado", medíocre etc. etc. etc. Isso repercutia em todos os cantos e o jornalista anônimo, de uma hora para outra, se tornava celebridade entre os "a favor" e "os contra". Repetia a receita com outros artistas consagrados até que, depois de uns dois anos de polêmicas, já desgastado, era substituído por outro que aceitava a mesmíssima tarefa. Hoje, esses cinquentões estão soltos por aí, tentam conquistar alguma credibilidade, chegam a se declarar de esquerda e fazem o possível para que seus artigos na FSP permaneçam esquecidos.

Mas o fato é que agora, em função da canção recentemente lançada, TUA CANTIGA, parceria com Cristovão Bastos, pipocou nas redes uma série de artigos de figuras desconhecidas da quase totalidade dos leitores, com novas polêmicas, sendo mais frequentes as que acusam Chico de, além de velho, decadente, “datado” e ultrapassado, ser machista que não representa as mulheres contemporâneas (como se algum dia ele tivesse reivindicado o direito de representar quem quer que fosse, em relação a qualquer assunto). 

A frase escolhida para detonar a convulsão foi declarar à amada: "largo mulher e filhos", de onde se deduz que o autor cultiva o adultério, coisa e tal. Imagino que as puritanas neo-feministas, nunca ouviram falar em Simone de Beauvoir, o que não deve vir ao caso, porque esta também pertence ao século passado. Mas condenam o autor da frase, sem terem se dado conta de que os personagens das canções de Chico - aliás, de qualquer ficcionista - não costumam ser autobiográficos. Que o compositor descreve situações e sentimentos corriqueiros, e até comuns, concordando ou não com eles. E que a criação artística é livre, ao contrário de uma tese acadêmica. 

Mas, se for pelo caminho dos zeladores da nova moral, vamos nos preparar para a queima de livros clássicos dos séculos anteriores e para a censura aos maiores autores do cancioneiro popular do século XX. Na real, o que esse tipo de gente não admite é o sucesso de compositores que ocupam a mídia há mais de meio século. No caso específico, condena a obra e os autores, sem ter ideia de que o lundu feito por Cristóvão, estilo musical quase extinto, herança dos escravos, serviu de inspiração para Chico criar uma letra condizente, com imagens e expressões raras no linguajar atual.

Mas pelo visto, isso tudo é sutileza demais para tempos em que uma reflexão não pode ocupar mais do que 140 caracteres. Os novos reguladores da moralidade pública, representando a intolerância que vem ganhando adeptos no planeta, mostram sua cara amoldada para os tempos de Temer, de Trump, de Bolsonaro, de Crivella e outros fundamentalistas que ameaçam a liberdade de ideias, de criação e de opção de vida.

Um comentário :

  1. O EU POÉTICO do Chico é uma espécie de ator. Nunca temos a perspectiva do Chico, mas de personagens que o Chico encarna e através dos quais se expressa poeticamente. Aqui é a mãe dum menino de rua, ali é um caminhoneiro em disputa amorosa com um grande amigo , noutro momento é um bebê dirigindo-se edipianamente à sua mãe. Numa obra prima recente ouvimos o lamento de um escravo sendo mortalmente açoitado. A única música que me lembro ser o Chico falando como Chico é Paratodos, mas ali o faz pra falar dos cânones do cancioneiro nacional, suas influências, e não dele mesmo. Acho incrível a capacidade dele em mergulhar na visão subjetiva de um personagem e transmitir isso textualmente. Nos romances ele leva isso às últimas consequências, em jogos de espelho identitários supra pirandelianos. Ninguém é obrigado a se identificar nem a se sentir ou não representado por suas incursões líricas. A fruição de sua obra é, em parte, um passeio pela ótica subjetiva de personagens imaginários. Alguns torpes, outros nobres, ou sob qualquer outra possibilidade de adjetivo. Todos autêntica e invariavelmente humanos.

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