quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Forças progressistas têm o dever de apoiar Maduro contra os golpistas

Isto é a alternativa

Luis Felipe Miguel

É difícil falar da Venezuela, tão espessa é a camada de desinformação que envolve a situação por lá.

De minha parte, nunca tive muita simpatia por Hugo Chávez. Houve, sim, esforço para reduzir desigualdades e melhorar a vida dos mais pobres, num país aberrantemente injusto. Houve avanços no reconhecimento dos direitos dos povos indígenas. E o compromisso antiimperialista é digno de nota. Mas nunca vi um projeto socialista coerente. O personalismo, o militarismo, o autoritarismo, o uso manipulador de uma retórica cristã, todas essas características de Chávez, que Maduro reprisa, pesam contra a autodenominada "Revolução Bolivariana".

O chavismo leva a um saldo ambíguo. Já a oposição venezuelana - falo aqui de seu setor hegemônico, alinhado aos Estados Unidos, que tem Capriles como seu porta-voz mais vistoso - é um horror sem meios termos. É a imagem da elite tradicional da América Latina: entreguista, voltada a si mesma, incapaz da menor solidariedade ou empatia, predatória.

Manifestação típica da direita venezuelana
O embate político é cada vez mais duro. De lado a lado. É fácil criticar Maduro pelas medidas que tem tomado, que violam as regras da ordem democrática liberal, mas é preciso ver também como a direita tem emparedado o governo com uso de formas bem pouco legítimas de sabotagem, financiadas amplamente pelo imperialismo estadunidense. Sua estratégia parece ser colocar o país à beira de uma guerra civil para forçar o governo a recuar, a fim de evitar o banho de sangue. Não seria a primeira vez, aliás, que a direita latino-americana seguiria esse caminho.

Uma vez que são essas as alternativas, creio que as forças progressistas da América Latina e do mundo têm o dever de apoiar Maduro contra a tentativa de golpe em curso e, ao mesmo tempo, pressionar o governo venezuelano a ampliar seu compromisso democrático. Pode ser tentador lavar as mãos, escandalizar-se com a ruptura de tal ou qual regra (como se o jogo político pudesse ser purificado por um ato de vontade unilateral), recusar aproximação com um governo que se mostra bastante inepto e corrupto. Com o bônus de que recusar apoio ao governo venezuelano é a maneira mais segura de conquistar o selo "sou de esquerda mas sou limpinho". Ocorre que, por pior que Maduro possa ser, a derrubada de seu governo e a entronização de uma administração reacionária e alinhada aos Estados Unidos em Caracas (que será, sem dúvida nenhuma, uma ditadura disfarçada, voltada a perseguir os chavistas e a reverter qualquer política de cunho popular) seria uma tragédia, não só para o povo venezuelano, mas para toda a América Latina.

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Web Analytics