domingo, 14 de maio de 2017

Moro dispensa o teatro da razão, em nome da verdade da imagem


Bernardo Carvalho

No final do ano passado, saí de férias sob o impacto da imagem de Sergio Moro, ícone da Justiça brasileira e do combate à corrupção, cochichando, num evento público, ao pé do ouvido do senador Aécio Neves (PSDB-MG), objeto de delações premiadas.

Ao voltar de viagem recente, deparei com outra imagem do juiz: sendo condecorado por militares no Dia do Soldado, sorridente, estendia a mão ao presidente Michel Temer (PMDB) –àquela altura também incluído na lista de políticos citados nas delações premiadas.

Moro é um homem cioso de sua imagem, deve saber o que faz e por que faz. Sabe que está enviando uma imagem da Justiça à nação.

Dias antes, o juiz havia intimado o ex-presidente Lula (PT) a comparecer ao depoimento das 87 testemunhas arroladas por seus advogados, deixando tão explícita a retaliação, a antipatia e a irritação pessoal quanto questionável julga ser a estratégia da defesa.

Nesse meio-tempo, pensei em procurar um amigo que não vejo há anos, mas desisti quando, buscando seu contato entre meus e-mails, dei com o título do último que ele tinha me enviado e que ficou sem resposta: "Je suis Moro". Não é preciso dizer que meu amigo abomina a figura de Lula acima de todas as coisas.

É a imagem que está em jogo em todos esses episódios e talvez seja ingênuo ainda me espantar com o uso interessado que a Justiça, em princípio cega, faz dela.

Como a maioria das pessoas, gostaria de acreditar que a um governo bastaria tornar-se objeto de inquérito, depois de ser acusado de corrupção por fontes diversas, para renunciar, nem que fosse pelo que lhe resta de dignidade. Como a maioria das pessoas, acredito que a justiça deva ser levada a cabo sem privilégios nem distinções.

Entretanto, a judicialização da política, acompanhada da obsessão pelas imagens e pela autoexposição, mudou um pouco a percepção das coisas, tornou tudo mais pessoal, dando a entender que juízes também têm estratégias por trás de suas decisões.

Acredito que Lula deva responder por seus atos, mas não pagar pela imagem que, apesar de tudo, ainda faz dele o candidato potencial mais popular nas próximas eleições, segundo as pesquisas. A criminalização dessa imagem se explica como ato político urgente diante da ameaça de uma reeleição. Explica também a disputa entre a defesa e a acusação pelo controle da imagem no depoimento de Lula.

Janet Malcolm argumenta, em "Anatomia de um Julgamento: Ifigênia em Forest Hills" (Companhia das Letras, 2012), que o tribunal é um teatro no qual a ideia de verdade despida de encenação tem pouco ou nenhum efeito, podendo funcionar contra seu próprio campo: "Se as testemunhas se submetessem ao juramento de 'dizer a verdade, toda a verdade, apenas a verdade', não haveria as contradições entre depoimentos que dão à corte a tensão da intriga e ao júri a função de decidir em quem acreditar".

No recente "The Enigma of Reason" (o enigma da razão; Harvard University Press), os cientistas cognitivos Hugo Mercier e Dan Sperber defendem que a razão tampouco garante a verdade; ela seria antes um instrumento de persuasão que o homem desenvolveu, à diferença dos outros animais, para poder trabalhar e cooperar em sociedade.

Se o objetivo da razão é persuadir, muitas vezes a despeito da verdade, que dizer das imagens de um ícone da Justiça que confraterniza com uma banda podre da política enquanto se envolve pessoalmente na condenação de outra? Que mensagem sobre a verdade, a Justiça e as instituições elas podem transmitir?

Num tempo de desautorização da razão e da reflexão, vistas como instrumentos de poder das chamadas "elites educadas", um tempo de desfaçatez política, imposturas, demagogia populista e manipulação, a relação de Moro com a imagem é interessante porque, apesar de cioso de sua projeção, o juiz menos a manipula do que se entrega a ela.

Moro dispensa o teatro da razão, em nome da verdade da imagem. Em vez de se preservar (como seria razoável na posição de um juiz), ele se expõe. As duas imagens citadas revelam algo de suas afinidades, de sua estratégia e de sua personalidade. Moro é um homem fiel aos seus desejos e objetivos, a ponto de se expor com eles.

A imagem que Moro passa da Justiça já não precisa do teatro da razão (ou da persuasão), porque nela a verdade está atrelada a um cabo de guerra; sua imagem associa a condição de possibilidade da verdade à força e à autoridade do árbitro. É uma verdade política, personalizada. E, se não precisa de teatro para disfarçar essa relação, talvez seja porque já conta com a miséria racional da plateia.

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