quinta-feira, 18 de maio de 2017

A República de Curitiba ruiu

Moro deve explicações ao país por colocar um pedalinho na frente das perguntas de Cunha a Temer

Por Mauro Donato

Uma coisa não se pode negar. O método do juiz Sérgio Moro para manter Cunha calado foi bem mais barato. Bastou vestir sua capa de paladino da justiça, de Imperador de Curitiba e desqualificar o detento.

Já para Michel Temer e donos da JBS obterem o mesmo resultado era necessário o pagamento de uma mesada ao ex-presidente da Câmara e ao doleiro Lucio Funaro.

Com a bomba que caiu sobre o país ontem, deixou de ser mera desconfiança ou discurso de esquerdista que Moro tenha atuado desde sempre sob orientação. Nunca foi imparcial.

Agora, com a gravação de Joesley Batista que atinge Temer de forma letal, Sergio Moro pode enfim ser acusado de prevaricação?

Afinal, desde dezembro do ano passado, Sergio Moro sabia, via delação de Claudio Mello Filho depois confirmada em depoimento por Marcelo Odebrecht, que Temer tinha pedido R$ 10 milhões para a construtora.

E depois o juiz não quis ouvir Eduardo Cunha. Vetou 21 das 41 perguntas preparadas pelo ex-deputado para a oitiva de Temer. Alegou que era chantagem, extorsão. Que eram perguntas ‘inapropriadas’.

E agora? Está provado que Cunha tem mesmo muita bala na agulha e Temer autorizou a comprar seu silêncio. De onde Sergio Moro tirou que era chantagem sem fundamento?

Por que Cunha foi desqualificado e outros delatores, quando entregam o que Moro quer, ganham liberdade e verniz de estarem arrependidos, dizendo a verdade, ‘colaborando com o Brasil’?

Como tinha certeza de que Cunha nada tinha para mostrar? Por que mantém Cunha – uma verdadeira bomba-relógio – afastado dos holofotes há tanto tempo?

Moro agiu para proteger Michel Temer.

Pouco tempo depois de Moro calar Cunha, Márcio Faria, presidente da Odebrecht Engenharia Industrial, confirmou os depoimentos anteriores. Disse que Michel Temer tratou de doação para sua campanha em troca de favorecimentos à Odebrecht.

À época, o presidente deu aquela escapada clássica entre políticos que apelam para a amnésia: “Pode ser que estive sim, pode ser o referido senhor Marcio Faria, mas não posso garantir.”

O mesmo comportamento que adota agora ao confirmar ter estado com Joesley Batista mas nega ter tratado de mesada-mordaça. Enquanto consegue manter-se minimamente em pé, pelas próximas horas Michel Temer vai repetir o discurso ‘fumei, mas não traguei’.

Se o palácio de Temer caiu, o de Moro também. Fosse em outro lugar veríamos já na noite de ontem um helicóptero saindo do telhado do Alvorada com Temer em fuga e Sergio Moro sendo cercado por imprensa e populares, pedindo explicações por ter se portado como cúmplice.

Embora ainda estejamos longe de saber o desfecho acerca da ocupação da poltrona de presidente, uma coisa é certa: a república de Curitiba ruiu.

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