segunda-feira, 15 de maio de 2017

1964 e 2016: golpes com a mesma matriz ideológica

Nilson Lage 

Em pouco mais de 50 anos, assisti, no Brasil, a dois movimentos políticos com discursos parecidos, conduzidos pela mesma matriz ideológica. Na época do primeiro deles, trabalhei na edição de dois jornais importantes, Jornal do Brasil e Última Hora.

Em ambos os episódios, o processo foi conduzido por entidades civis especialmente criadas e começou com a eleição de parlamentos simpáticos à causa. Nas eleições de 1960, foi o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) que orientou a derrama de dinheiro em campanhas pelo país afora. Em 2010 e 2014, o Instituto Millenium fez o mesmo – e o resultado todo mundo viu no show bizarro da votação da impeachment da Presidente Rousseff na Câmara dos Deputados, em junho do ano passado. O mesmo Millenium conduziu a articulação política até o desfecho; entre 1962 e 1964, essa missão coube ao IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais): o IBAD, muito exposto, terminou sendo extinto em 1963.

Militares, religiosos e magistrados dividiram-se nos dois casos. No entanto, corporações como a Igreja Católica, as forças armadas e a magistratura sabem que a cisão ostensiva é catastrófica porque resulta em perda de poder e credibilidade, com prejuízo de todos; por isso, confrontos, ainda que intensos, são disfarçados para o grande público. Parecem unidos, mesmo não estando.

Em 1964, a nascente teologia da libertação, com base no clero secular, confrontava a hierarquia conservadora, que apoiou o golpe. Em anos recentes, a pregação subversiva coube a líderes de igrejas pentecostais que prosperaram nas últimas décadas: os católicos, indecisos, como que se anularam.

As forças armadas assumiram formalmente o poder em 1964, após um trabalho competente de infiltração e propaganda -- até porque não havia outrem capaz disso; anos depois, mandaram às favas a política econômica liberal e misturaram a forte repressão de dissidentes com uma política de desenvolvimento acelerado por via estatal, o milagre brasileiro. Sem apoio político, tiveram que desistir, em 1985, para quase duas décadas de recessão.

Agora, o papel de liderança ostensiva foi dividido entre bacharéis – procuradores e magistrados – e uma elite política que desmente o discurso da moralização e do combate à corrupção. Foi essa a bandeira ilusória que conseguiu unir, por algum tempo, burocratas justiceiros e as velhas raposas que sempre cuidaram do galinheiro.

Mas o papel decisivo, então e agora, coube à mídia. Foi uma batalha cerrada, antes, porque a imprensa estava dividida por interesses distintos, a televisão era irrelevante a Rádio Nacional, emissora pública, tinha ainda grande credibilidade. Em 2016, com a mídia centralizada em oligopólio e a Rede Globo dando as cartas, foi um passeio.

A novidade tecnológica, em 1964, foram as pesquisas de opinião e mercado; em 2016, a experiência de mobilização de massas experimentada na revolução laranja da Ucrânia e nas primaveras árabes: pôs multidões nas ruas, em 2013.

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