quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dilma sai da presidência muito maior do que entrou


Parecia que a melhor hora de Dilma tinha sido seu discurso na véspera do julgamento final do Senado.

Mas não.

Em clareza, grandeza, Dilma se superou na entrevista que concedeu pouco de definido o golpe.

Ela declarou guerra ao golpe.

Não guerra no sentido militar convencional. Ninguém está falando de pegar em armas ou coisa do gênero.

Trata-se de guerra política.

O primeiro e essencial passo é dar às coisas o nome que elas têm, sem lantejoulas e sem metáforas.

Uma amostra do que Dilma disse com a contundência indispensável:

1) É golpe. É golpe parlamentar, mas é golpe. Com exclamação.

2) Por trás do golpe estão as velhas forças conservadoras de sempre, os reacionários que conspiraram contra Getúlio, JK, Jango, Lula e, finalmente, a próprio Dilma.

3) Os golpistas tiveram uma contribuição milionária da “imprensa facciosa”. De novo, é uma repetição de golpes anteriores, em que a mídia foi invariavelmente protagonista na destruição da democracia.

4) Temer é um usurpador que levou ao núcleo do poder o que existe de mais corrupto e atrasado na política brasileira.

Ficou claro que, daqui por diante, as forças progressistas mostrarão o mar de lama da plutocracia nacional.

Isto tem o poder de mudar a história. A narrativa golpista, de GV a Dilma, sempre se alicercou no combate — farisaico, cínico, mentiroso — à corrupção.

As delações comprovaram que os principais tagarelas anticorrupção são exatamente os homens mais corruptos da vida pública nacional.

O caso mais simbólico é o de Aécio: jamais ele terá condições de falar em corrupção, como fez a carreira toda, sem provocar gargalhadas ao redor.

Aécio se tornou um ícone da corrupção plutocrata das mesmas dimensões de Eduardo Cunha.

Ele roubava, só que ninguém noticiava na mídia plutocrata.

Aécio parece ainda viver numa realidade paralela. Numa entrevista nesta quarta aos amigos da Globonews, citou o eminente senador Cássio Cunha Lima como um expoente do universo político brasileiro.

Ora, ora, ora.

Cunha Lima é um corrupto notório. Foi cassado como governador da Paraíba e só conseguiu concorrer a senador porque a lei da Ficha Limpa só passou a valer depois da eleição. Não bastasse isso, um homem de sua equipe teve que jogar dinheiro do alto de um prédio para evitar um flagrante de compra de votos. Pobres paraibanos ganhavam dinheiro de Cunha Lima para votarem nele. O episódio passou à história como o caso do Dinheiro Voador.

Esta é a probidade dos plutocratas.

Sabe-se agora quem são os reais corruptos, os parasitas que tomam dinheiro público para montar patrimônios bilionários e deixar o Brasil eternamente na condição de um inferno da desigualdade.

Dilma jogou luzes onde sempre houve sombras. Os ladrões são aqueles que todos nós conhecemos, e que se fazem de paladinos da moral para enganar a sociedade e assim poder roubar cada vez mais.

Para a democracia brasileira, a fala de Dilma como ex-presidente é algo que traz esperanças em doses colossais para que deixemos um dia de ser a republiqueta das bananas a que os plutocratas querem nos sujeitar pela eternidade.

PRONUNCIAMENTO DA PRESIDENTE DILMA ROUSSEFF
31/08/2016

"Ao cumprimentar o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, cumprimento todas as senadoras e senadores, deputadas e deputados, presidentes de partido, as lideranças dos movimentos sociais. Mulheres e homens de meu País.

Hoje, o Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Decidiram pela interrupção do mandato de uma Presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar.

Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado.

É o segundo golpe de Estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo.

É uma inequívoca eleição indireta, em que 61 senadores substituem a vontade expressa por 54,5 milhões de votos. É uma fraude, contra a qual ainda vamos recorrer em todas as instâncias possíveis.

Causa espanto que a maior ação contra a corrupção da nossa história, propiciada por ações desenvolvidas e leis criadas a partir de 2003 e aprofundadas em meu governo, leve justamente ao poder um grupo de corruptos investigados.

O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal. Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social.

Acabam de derrubar a primeira mulher presidenta do Brasil, sem que haja qualquer justificativa constitucional para este impeachment.

Mas o golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido. Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática.

O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido.

O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência.

Peço às brasileiras e aos brasileiros que me ouçam. Falo aos mais de 54 milhões que votaram em mim em 2014. Falo aos 110 milhões que avalizaram a eleição direta como forma de escolha dos presidentes.

Falo principalmente aos brasileiros que, durante meu governo, superaram a miséria, realizaram o sonho da casa própria, começaram a receber atendimento médico, entraram na universidade e deixaram de ser invisíveis aos olhos da Nação, passando a ter direitos que sempre lhes foram negados.

A descrença e a mágoa que nos atingem em momentos como esse são péssimas conselheiras. Não desistam da luta.

Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados.

Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer.

Quando o Presidente Lula foi eleito pela primeira vez, em 2003, chegamos ao governo cantando juntos que ninguém devia ter medo de ser feliz. Por mais de 13 anos, realizamos com sucesso um projeto que promoveu a maior inclusão social e redução de desigualdades da história de nosso País.

Esta história não acaba assim. Estou certa que a interrupção deste processo pelo golpe de estado não é definitiva. Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano.

Espero que saibamos nos unir em defesa de causas comuns a todos os progressistas, independentemente de filiação partidária ou posição política. Proponho que lutemos, todos juntos, contra o retrocesso, contra a agenda conservadora, contra a extinção de direitos, pela soberania nacional e pelo restabelecimento pleno da democracia.

Saio da Presidência como entrei: sem ter incorrido em qualquer ato ilícito; sem ter traído qualquer de meus compromissos; com dignidade e carregando no peito o mesmo amor e admiração pelas brasileiras e brasileiros e a mesma vontade de continuar lutando pelo Brasil.

Eu vivi a minha verdade. Dei o melhor de minha capacidade. Não fugi de minhas responsabilidades. Me emocionei com o sofrimento humano, me comovi na luta contra a miséria e a fome, combati a desigualdade.

Travei bons combates. Perdi alguns, venci muitos e, neste momento, me inspiro em Darcy Ribeiro para dizer: não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles.

Às mulheres brasileiras, que me cobriram de flores e de carinho, peço que acreditem que vocês podem. As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez que uma mulher assumiu a Presidência do Brasil, a machismo e a misoginia mostraram suas feias faces.

Abrimos um caminho de mão única em direção à igualdade de gênero.

Nada nos fará recuar.

Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer “até daqui a pouco”.

Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakovski:

”Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta.“

Um carinhoso abraço a todo povo brasileiro, que compartilha comigo a crença na democracia e o sonho da justiça."

Consummatum est


Estadão: golpista em 1964, golpista em 2016

Guilherme Boulos

Hoje o Estadão soltou um Editorial pedindo a criminalização dos movimentos sociais, notadamente o MTST, dizendo que "já é mais do que tempo de detê-los". Não surpreende, principalmente vindo do jornal que estampou no dia 2 de abril de 64, após o golpe, a seguinte manchete: "Vitorioso o movimento democrático". Estadão, eterno lacaio de golpistas.

Fodam-se os pobres e foda-se o Brasil

Allan Sieber

Instantâneo da vergonha nacional. Parabéns a todos envolvidos. Tudo vai piorar. Como vocês queriam. Fodam-se os pobres e foda-se o Brasil. E, principalmente, foda-se a porra da democracia.

Durmam em paz.

Mais um golpe para a história


Acossado pela direita raivosa, acusado de acobertar a lama da corrupção do seu governo, Getúlio Vargas, com um tiro mortal, em 24 de agosto de 1954, saiu da vida para entrar no mito. Perseguido pela oposição, suspeito de querer implantar o comunismo no Brasil e de enriquecer às custas do patrimônio público, Jango, em abril de 1964, saiu do país para entrar na história. Destituída da presidência da República, supostamente por ter cometido crimes de responsabilidade, Dilma Rousseff sai do poder para, ao lado de Getúlio e de Jango, compor a tríade dos presidentes sacrificados pelas elites ressentidas e incapazes de chegar ao poder pelo voto e nele permanecer. Fim.

Getúlio, o pai da legislação trabalhista ainda em vigor, caiu em desgraça por ter aumentado o salário mínimo em cem por cento e por ter criado a Petrobras. Jango começou a desabar ao abraçar as reformas de base, entre as quais a agrária, a educacional e a habitacional. Depois da queda de Dilma, os velhos novos donos do poder tentarão, mais uma vez, acabar com a Era Vargas. Vem aí o desmonte da CLT. O que une Getúlio, Jango e Dilma? O Rio Grande do Sul, embora Dilma seja mineira, o trabalhismo, ainda que a presidente tenha sido eleita pelo PT, a ira da direita e da mídia e as acusações não comprovadas. Jango e Dilma teriam sido presidentes incompetentes. Nada se provou contra Jango. Nenhuma acusação direta de desonestidade pesa contra Dilma. Getúlio terminou menos rico do que quando chegou ao poder. Três presidentes, três destinos, três golpes fatídicos.

Getúlio fez a escolha trágica. Jango sofreu o golpe clássico. Dilma experimenta o golpe brando. Vargas preferiu o silêncio da morte. Jango optou pela solidão do exílio. Dilma foi ao Senado defender-se com um discurso consistente, claro e convincente. Falou para ouvidos moucos. Questionada pelos senadores, resistiu por três turnos, serena e esclarecedora. Getúlio, Jango e Dilma foram vítimas da mídia e de um conluio de elites. O multipremiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald disparou: “Uma presidente eleita duas vezes está sendo tirada de seu cargo por uma gangue de criminosos para pôr no lugar uma facção de direita não eleita e inelegível”. O jornal francês Le Monde, em editorial, classificou o impeachment de Dilma Rousseff como golpe de Estado ou farsa. Uma tragicomédia devastadora.

Caberá ao Supremo Tribunal Federal responder a uma questão simples: houve, nos termos da lei, crime de responsabilidade? É sua atribuição dirimir dúvidas e ser última instância de litígios. Os golpistas pretendem que o STF não tem direito de se pronunciar sobre essa questão. Por que não? Por que não lhes é conveniente. Em 1964, o STF avalizou o golpe. Agora, tenta ser um tribunal antropológico, só cuidando de rituais. A história não o poupará. Também não poupará a Câmara dos Deputados se Eduardo Cunha não for cassado. O próximo capítulo mais provável é a condenação de Lula para que ele não possa ser candidato em 2018. Dilma volta para casa. O seu nome agora vai figurar sempre ao lado dos nomes de Getúlio e Jango. Em certas noites, ele ouvirá a sentença sempre injusta, autoritária e expedita da Rainha de Copas, de Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas:

– Cortem a cabeça!

Votação encerrada, veja os números


Vale a pena perder amigos ou se afastar de familiares por causa de política?

Reinaldo Del Dotore

"Não vale a pena perder amigos ou se afastar de familiares por causa de política".

Desculpem-me pela frieza, mas vale a pena, sim. Mais do que isso: é fundamental perder amigos e se afastar de parentes.

Se o "por causa de política" se refere ao fato de esses amigos ou parentes fazerem apologia (ainda que de forma velada) à desigualdade, ao racismo, à concentração de renda, ao sexismo, à xenofobia, à discriminação, à humilhação simbólica de classes desfavorecidas, à regressão do país à condição de colônia ou a estupidezes semelhantes (a lista é longa), faço questão absoluta de tomar providências para nunca mais ver pela frente esses "amigos" e para só encontrar esses parentes em inevitáveis eventos familiares (interagindo o mínimo possível).

Cansei da eterna concertação, do "deixa disso", do "vamos conversar".

Se é a sociedade e o país nos quais terão que viver os meus filhos e os filhos dos (estes sim) efetivos amigos e lúcidos parentes que estão sendo sacrificados, digo com muito gosto: sumam da minha frente. Tenho muita gente fantástica com quem interagir.

Democracia não é viável no Brasil

Gustavo Castañon

FAREWELL, POPPER

Não sou mais democrata aqui. Democracia é coisa para a Europa.

Não que eu ache que algum dia verei qualquer coisa parecida, mas é inevitável hoje sonhar com uma revolução e com uns anos de terror revolucionário no Brasil.

Não importaria muito o resultado se grande parte dessa burguesia e classe política fosse executada em praça pública (não coleguinha de infância bolsonete, isso não inclui você. Não te informaram mas você é proletário, não burguês. No máximo, pequeno-burguês).

Guilhotinas são belas, mas tiro na nuca servia.

Você acha que estou brincando? Se isso te ajudar a manter relação comigo, acredite no que quiser.
Não estou fazendo bravata, não digo que faria parte disso hoje.

Nem vou com mascarado enfrentar a polícia porque de revolução não se brinca, ou se faz, ou não se faz.

Não é por Popper ou Cristo, mas por minha filha.

Mas é um sonho lindo. Acalenta o coração.

TV Senado ao vivo: o golpe está sendo televisionado

Folha de S. Paulo: um jornal a serviço do Brazil



Não fique de luto


Não ponham preto. Vistam-se de luzes.
A verdade é sempre progressista,
a ilusão o manto que a esconde
e o desejo o mestre do pecado.
Olhem a verdade e, se ela é feia,
cuidem de saber que essa feiura
é a face de um todo dialético.
Exibam a verdade o mais que possam
para que a vejam todos os drogados.
Ponham em nuvem o arquivo da beleza
que se corrompe à falta de esperança.
E, como a mulher de Ulisses,
comecem a tecer tudo de novo.

Jornal golpista se esconde atrás dos bandidos fardados de Alckmin

Folha: das Diretas Já à proteção policial
Jornal da família Frias, que cresceu na década de 80, depois da campanha das Diretas Já, teve que ter sua sede protegida pela PM nesta madrugada; o motivo: manifestantes planejavam um escracho contra o jornal por seu apoio ao golpe de 2016, mas foi duramente reprimido; na campanha pelo golpe, a Folha de S. Paulo chegou até a falsear uma pesquisa Datafolha e hoje enfrenta sua maior crise de credibilidade

247 - O jornal Folha de S. Paulo, da família Frias, que cresceu na campanha das Diretas Já, teve que ter sua sede protegida pela Polícia Militar na madrugada desta quarta-feira 31, dia da votação final do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O motivo: manifestantes planejavam um escracho contra o jornal por seu apoio ao golpe de 2016. O ato foi duramente reprimido pela PM, que protegeu o prédio localizado na região central de São Paulo.

Por volta de 21h, um grupo guiado pelo coletivo Democracia Corinthiana negociava com a PM a passagem sentido Folha de S. Paulo, a fim de realizar o escracho.

Na campanha pelo golpe contra Dilma, a Folha chegou até a falsear uma pesquisa Datafolha e hoje enfrenta sua maior crise de credibilidade.

Apertem os cintos, o avião está caindo

Gustavo Castañon
O ÓDIO CRESCE

O ódio é tão grande que você sente no ar. Transborda para as relações pessoais e profissionais. E os resultados desse golpe de bandidos ainda nem foram sentidos pela população.

Apertem os cintos, o avião está caindo.

Hoje à noite, os golpistas estarão comemorando

Luis Felipe Miguel 

Hoje à noite, os golpistas estarão comemorando.

Vão comemorar as petroleiras estadunidenses e seus amigos, vai comemorar a burguesia paulista, vão comemorar os políticos venais e seus apadrinhados, vão comemorar os desprovidos de voto e de caráter, vão comemorar os chefes dos grupos religiosos fundamentalistas, vão comemorar aqueles que esperam escapar das investigações por corrupção, vão comemorar os comandantes do crime organizado, vai comemorar a mídia burguesa (uma expressão que soa antiquada, mas que indica uma realidade muito atual). Eu entendo que comemorem: são os vitoriosos do dia.

Mas o que dói mais é saber que também vai comemorar uma larga fatia dos derrotados. Assalariados, funcionários públicos, gente tão imbecilizada que se deixa cegar por um ódio que eles nem sabem direito de onde surgiu. Um ódio ao "PT", que vai entre aspas, porque pouco tem a ver com o partido de verdade, com seus erros e seus acertos. Um ódio instilado contra o progresso social, contra a igualdade, contra a própria democracia.

É triste, esse Brasil.

Três coisinhas

Gente, três coisinhas:

1.Não há Lei do Retorno, esqueçam.
2.Não há vantagem em ficar bem na fita nos livros de história.
3.Tamos fodidos.

Maufalavigna

O jornal a serviço das ditaduras de 1964 e 2016

À Meia-Noite Levarei Seu Mandato, diz Janaína Belzebu

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Janaína Paschoal não é louca nem possuída por Satanás


Janaína não é louca, como muitos dizem, mas 'apenas' mais uma reacionária e fascista.

Os Mortadelas

Para quem acredita que Janaína Paschoal surgiu do nada nesta história, veja esta sua defesa da racista Mayara Petruso, em 2010, que fez aquele comentário racista e violento sobre os nordestinos por ocasião da primeira eleição de Dilma.

Nelson Barbosa

O simbolismo dos trajes da senadora Ana Amélia


O verde que ela veste simboliza o pasto que come e o amarelo é da covardia que a caracteriza.
Gilmar Basso

Ditadura: Vice-procuradora-geral da República pede exoneração após chamar impeachment de GOLPE

Vice-procuradora pede exoneração após divulgação de vídeo sobre impeachment
André Richter - Repórter da Agência Brasil

A vice-procuradora-geral da República, Ela Wiecko, pediu exoneração do cargo. A decisão foi tomada hoje (30), após a divulgação de imagens de um evento realizado em junho, em Portugal, onde a procuradora apoiou estudantes que fizeram uma manifestação contra o impeachment da presidenta afastada Dilma Rousseff.

Ela continuará na PGR, onde exerce cargo vitalício de subprocuradora.

Nas imagens, postadas no canal de sindicatos de São Paulo no YouTube, Ela Wiecko aparece segurando uma faixa com os dizeres “Contra o Golpe".

No início do mês, Manoel Lauro Volkmer de Castilho, marido de Ela Wiecko, pediu exoneração do gabinete do ministro Teori Zavaski  relator da Operação Lava Jato no Supremo, depois de assinar uma petição na qual advogados defenderam o recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Número 2 da PGR: é golpe e Temer está sendo delatado"

247 – O golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff foi reconhecido abertamente nesta terça-feira 30 pela vice-procuradora da República, Ela Wiecko, em entrevista ao site da revista de esgoto Veja. O veículo conversou com ela após uma polêmica sobre a participação de Ela em uma manifestação a favor de Dilma.

"Eu acho que, do ponto de vista político, é um golpe, é um golpe bem feito, dentro daquelas regras", opinou. "Isso a gente vê todo dia, é parte da política", acrescentou. Questionada se era então um golpe com a participação do Supremo Tribunal Federal e da Procuradoria Geral da República, da qual ela faz parte, respondeu: "Aí tem que ser uma conversa muito mais comprida".

"Tem muita gente que pensa como eu dentro da instituição", disse ainda Ela Wiecko. "Eu estou incomodada com essas coisas que estão acontecendo no Brasil. Acho que não foi da melhor forma possível", comentou.

Sobre Michel Temer, a número 2 de Rodrigo Janot declarou: "Pelas coisas que a gente sabe do Temer, não me agrada ter o Temer como presidente. Não me agrada mesmo. Ele não está sendo delatado? Eu sei que está. Eu não sei todas as coisas a respeito das delações, mas eu sei que tem delação contra ele. Então, não quero. Mas as coisas estão indo".

A respeito do protesto a favor de Dilma, disse não se arrepender de ter participado. "Eu estava de férias, em um curso como estudante. É isso", disse. Questionado sobre a dificuldade em se separar a cidadão de sua atividade na PGR, se irritou: "Eu não posso falar nada? Não posso ter nenhuma liberdade de manifestação? (Isso) é um pouco exagerado, né?"

Para onde vão os ustras, os moros e os canalhas?



A coragem de Dilma aniquilou os torturadores de hoje

Se a vida quer é coragem, a vida não pode reclamar de Dilma Rousseff

Na hora do adeus, coragem de Dilma engrandece sua biografia 
Mário Magalhães 

Quase no fim do interrogatório de 13 horas e 54 minutos, pertinho da meia-noite de 29 de agosto de 2016, Zezé Perrella disparou perguntas duras a Dilma Rousseff.

A presidente constitucional poderia ter indagado se o senador tem viajado de helicóptero, mas se limitou a responder com objetividade ao interrogador.

Pouco antes, tinha sido a vez de Flexa Ribeiro.

A interrogada não mencionou a cana que ele amargara por ocasião da Operação Pororoca. Tratou dos assuntos que o tucano abordara.

Diante de velhos companheiros de refregas contra a ditadura, agora transformados em algozes, poderia ter cantarolado ♪quem te viu, quem te vê♫''.

E piscado para Chico Buarque, o compositor daqueles versos, que assistia no Senado à cerimônia do adeus.

Em vez da atitude catártica, que talvez fizesse bem para espanar um pouco da poeira da hipocrisia que assola o país, Dilma se conteve.

Nem por isso deixou de lutar. Peleou até o fim, na sessão em que começou a falar às 9h53, em seu discurso de 45 minutos, e pronunciou a última palavra às 23h47.

Consciente do cadafalso que a aguardava em algumas horas, na noite de hoje ou na madrugada de amanhã, a presidente poderia ter denunciado de longe o golpe de Estado e as cartas marcadas, sem comparecer à arena em que provavelmente a devorarão.

Preferiu encarar seus carrascos.

Tá pensando que é moleza?

Michel Temer, o missivista ressentido que conspirou com gente mais suja que pau de galinheiro para depor uma cidadã honesta, acovardou-se até de vaia no Maracanã. Fez forfait na cerimônia de encerramento da Olimpíada.

O senador Romero Jucá, desenvolto em armações pelo impeachment e pela impunidade, não interpelou Dilma. É ele o autor da frase-síntese "tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria''.

Em vez da pusilanimidade alheia, Dilma ofereceu coragem, aquela que a vida quer da gente, conforme o Guimarães Rosa apreciado por ela.

Seus melhores momentos foram ao defender a soberania do voto popular e a própria inocência. O impeachment está previsto em lei. Mas sem crime de responsabilidade do governante constitui golpe de Estado.

Os argumentos pró-deposição foram sendo respondidos com tamanha clareza que os opositores passaram a versar sobre temas estranhos ao processo _e olha que clareza não é o forte da presidente na iminência de ser deposta. Queriam debate eleitoral. A advogada Janaina Paschoal não elaborou uma só pergunta sobre o que poderia ser crime de responsabilidade. Preocupou-se com crescimento econômico de países latino-americanos.

Os pior de Dilma foi seu silêncio sobre o que não se pode silenciar. Mostrou combatividade ao proclamar a Petrobras e o pré-sal patrimônios nacionais. Calou, contudo, sobre a roubalheira na companhia. É certo que a gatunagem já existia nos anos Fernando Henrique Cardoso. Mas no mínimo se manteve e possivelmente se expandiu na era petista. A rejeição à liquidação do pré-sal e o combate escrupuloso à corrupção não são contraditórios. Combinam-se. Uma ação exige a outra.

A presidente não explicou, quem sabe o porvir explique, por que sacrificou os mais pobres no arrocho dito ajuste que se seguiu à eleição de 2014. Os gráficos que exibiu sobre a degringolada do cenário econômico internacional impressionam. Mas a decisão de cobrar a conta daqueles que a elegeram permanece como mistério.

Nada disso configura crime de responsabilidade. Subsídio não é crédito, como outro dia ensinou o professor Luiz Gonzaga Belluzzo no plenário do Senado. Pedaladas fiscais são pretextos para expulsar quem colheu 54.501.118 votos.

Se governo desastroso, como o segundo mandato de Dilma, justificasse afastamento, os governadores Pezão-Dornelles deveriam ter recebido cartão vermelho muito antes.

Na democracia, presidente se elege na urna, e não no tapetão.

A presidente defendeu-se no processo e depôs para a história.

A sessão de ontem, e não apenas o seu discurso, equivale a uma carta testamento.

Querer a mesma dramaticidade da carta de Getúlio Vargas em 1954 é desconsiderar que um era cadáver, saíra da vida e entrara na história. Dilma tem muita vida pela frente, embora também já seja história.

É preciso ser muito insensível ou cultivar o ódio para não perceber o contraste entre uma mulher batalhando com altivez, concorde-se ou não com ela, e o novo governo que expurgou as mulheres do Ministério.

Entre a mulher que deu a cara para bater no Senado hostil e o sucessor sem voto que se esconde em meio às brumas da intriga.

Entre a mulher que dá nome aos bois, a começar por Eduardo Cunha, o patrono do impeachment, e quem trama para proteger o deputado correntista.

Beira a desonestidade intelectual fazer o balanço de ontem com base exclusivamente em votos mudados. O jogo já estava jogado. Nem por isso a presidente se acovardou.

Se a vida quer é coragem, a vida não pode reclamar de Dilma Rousseff.

TV Senado ao vivo

Motivos e trama não se sustentam. O que se busca é, com um golpe parlamentar, derrubar a presidente eleita.

O desempenho impressionante de Dilma no Senado

Luis Felipe Miguel

O desempenho de Dilma no Senado foi impressionante. Os chatos de plantão podem estar reclamando que não perfeito - mas o que é perfeito nesse mundo, fora os concertos para violoncelo de Bach e algumas gravações do quinteto de Miles Davis nos anos 1950? O que importa é que ela foi firme, foi inteligente, foi clara, desmontou os pretextos do golpe e expôs sua trama para qualquer um que a tenha ouvido. Enfrentou uma maratona que eu não sei quem mais aguentaria.

Acima de tudo, Dilma esbanjou uma qualidade que não apenas é rara, mas causa desconforto na elite política brasileira: dignidade. E foi emocionante ver como, diante de seus inquisidores, muitos deles cínicos e desqualificados, essa qualidade não deixou de brilhar.

Dilma não chutou a pau da barraca, não fez o circo pegar fogo. Não seria mesmo do feitio dela. Mas se credenciou como referência central da luta ao golpe. Deixou claro que não podemos aceitar o governo do usurpador como algo natural: sua ilegitimidade contamina todo o sistema político brasileiro e destrói nossa democracia. É um recado que deveria ser ouvido por tantos candidatos do PT ou de seus partidos satélites que estão julgando que, para melhorar suas chances nas eleições municipais, é talvez conveniente calar sobre o golpe.

Wyllys: Aécio, mimado pelo pai e avô, é “mau perdedor e mau caráter”

247 – Em vídeo postado nas redes sociais, o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) responsabilizou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pela atual crise política e econômica.

Ao não aceitar a derrota eleitoral de 2014, Aécio se aliou a Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ajudou a paralisar o País e o Congresso com a pauta-bomba e, agora, a democracia brasileira está por um fio.

Leia, aqui, sobre o embate entre a presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio.

Abaixo, o vídeo de Jean Wyllys:

 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O papel criminoso de parte da esquerda no golpe

Vinícius Augusto Pontes

Não se pode perder de vista a perspectiva histórica: a esquerda acadêmica, aquela que vale apenas 0,20 centavos, um curso de ciranda na FFLCH, no bosque da UFSC e um bondinho de Santa Teresa, é tão culpada por este golpe e pelo clima fascistoide que tomou conta da sociedade quanto os setores conservadores da mesma.

Não se esqueçam que enquanto o país atingia o pleno emprego, era retirado do mapa da fome, tinha uma taxa de juros de 7%, 1 trilhão de reais de reservas cambiais e se dava ao luxo de baixar a conta de energia em 17% para consumo residencial, essa esquerda acusava o "lulopetismo" de "peleguismo", e exaltava o FHC como grande ícone cult por defender a legalização da maconha.

Lindbergh Farias: eu acuso


O que a classe média brasileira gosta

Mariana Patrício

Aécio Neves, homem branco, ligado ao tráfico de drogas, com sei lá quantas citações na lava jato é o que a classe média brasileira gosta. O patrão, o patão, aquele que tem direito a roubar, porque tudo lhe pertence, aquele a quem devemos servir, aquele de quem devemos apanhar. A ele sim, devemos tudo. Viva os políticos corruptos, homens ricos e brancos desse país, nossos donos, nossos patrões, a eles tudo!

TV Senado ao vivo: Dilma enfrenta a escória golpista

Senadora gaúcha Ana Amélia se destaca e é considerada a mais ridícula entre os golpistas



A escolha do traje da senadora Ana Amélia (blazer amarelo, camisa verde), além de esteticamente lastimável, é sintomática.

Desde o início do presente processo golpista, milhões de "cidadãos-indignados" (que, na verdade, jamais se conformaram com o resultado das urnas) adotaram o verde-amarelo como se tivessem eles a exclusividade do amor ao Brasil.

Não. Nem a senadora nem os indefectíveis cidadãos "verde-amarelos" têm essa exclusividade. No fundo, aliás, é provável que muitos sejam indiferentes ao Brasil contanto que seus próprios interesses (ou interesses que acham que são seus) sejam atendidos.

Esta apropriação do verde-amarelo por parte do golpismo é atitude escancaradamente arrogante. Até porque, se alguma exclusividade fosse haver, ela seria, a bem da razão, de quem hoje, ao contrário, denuncia o processo golpista.

Não sejam cínicos: vocês plantaram o ódio, não queiram, agora, cordialidade


Não sejam cínicos.

- Votei em Dilma e votaria a fazê-lo se os seus oponentes fossem os mesmos.

- Não me agradou o fato de ela ter adotado a agenda neoliberal, mas isso não justifica impeachment. 

Afastar uma presidente, eleita legitimamente, sem provas concretas de sua culpabilidade é golpe. Não sejam cínicos.

- A situação econômica do país não é justificativa para remoção de uma mulher, que pode ter mil defeitos, mas é honesta. Lembrem-se que foi o esgotamento da política neoliberal de FHC que levou Lula a assumir a presidência da República, em eleições limpas, no já distante ano de 2002. Se estavam descontentes com o governo atual que esperassem 2018. Não sejam cínicos.

- Alegar que quem votou em Dilma votou em Temer não revela apenas analfabetismo político. É atestado de canalhice de quem quer se ver absolvido dos crimes que serão perpetrados pela besta fera que pariu. O PT se aliou ao PMDB e não cabia ao partido qualquer veto sobre a indicação do vice-presidente. Ninguém vota em vice e vocês sabem disso. Ou alguém imagina que votamos em um governo que teria José Serra como chanceler, entregando Pré-Sal e desmontando patrimônio público para entregá-lo a corporações transnacionais? Isso era o projeto de governo do candidato que vocês escolheram. Não sejam cínicos.

- Se não houver reforma política, qualquer presidente será refém do PMDB de Jucá e Renan. Mas discutir reforma não lhes interessa. Onde estão suas panelas, quando a democracia representativa está sendo jogada na lata do lixo? Não sejam cínicos.

- Por fim, concluo dizendo que não aceitarei argumentos dos “puros”. Daquele tipo de esquerda que encanta estudantes, mas se omitiu quando a Constituição de 1988 estava, com anuência do STF e narrativa da mídia corporativa, sendo rasgada. Não sejam cínicos.

- Não venham com discursos de conciliação ou tentativas de “serenar os ânimos”. Vocês plantaram o ódio, não queiram, agora, cordialidade. Não sejam cínicos.

Juristas classificam discurso de Dilma como "histórico"

Vermelho
Pelas redes sociais, os juristas de diversas áreas comentaram o discurso da presidenta Dilma Rousseff em sua defesa no processo de impeachment no Senado, nesta segunda-feira (29).

“Discurso histórico. A história tratará de julgar Michel Temer e seus asseclas. Aliás, o nome de Michel Temer desonra a PUC-SP, símbolo de luta pela democracia, e seu nome deve ser devidamente varrido de sua história”, afirma professor da PUC e especialista em Direito Constitucional pela Universidad Castilla-La Mancha, da Espanha, Rafael Valim.

Para ele, o interino Michel Temer “será sempre, para além de um doutrinador medíocre, um golpista, traidor da Constituição que jurou respeitar”.

O também professor de Direito Constitucional da PUC, Pedro Serrano, afirmou que, se confirmado o impeachment, o pacto da democracia estará rompido.

“A parte o absurdo jurídico e o grave ataque a democracia que, em meu entender, o impeachment significa, tenho muito receio do que pode nos reservar o futuro. A ausência de consenso social consistente quanto a sua legitimidade e adequação, abre uma ferida histórica. A democracia depende de pactos procedimentais sólidos. O nosso será, definitivamente, rompido hoje”, advertiu Serrano.

E completa: “Espero, sinceramente, que tudo se resolva bem. Mas tenho receio que essa crise política não termine aqui. Aliás, que ela se agrave doravante, em especial se a economia não recuperar e o novo governo insistir em soluções contrarias aos direitos sociais”.

Brenno Tardelli, editor do site Justificando, especializado em questões jurídicas, também classificou o discurso como “histórico”. “Mulher de fibra... A consciência de quem lutou contra o golpe está limpa”, enfatizou.

O advogado e ativista de direitos humanos Renan Quinalha destacou: “Mesóclises e "português impecável" ficam no chão com um discurso de quem sente o peso da injustiça, tem a lucidez de quem está do lado certo e ostenta dignidade de sobra para se defender. Depois desse pronunciamento histórico, quem votar a favor desse impeachment no Senado não merece nada além da alcunha de canalha golpista”.

Dilma denuncia o golpe sem poupar elite, políticos e grande mídia


Jornal GGN - No Senado, durante a fase final do julgamento do impeachment, a presidente Dilma Rousseff fez um discurso firme, claro e por vezes emocionado, endereçado principalmente aos senadores indecisos, aos traidores de ocasião e aos que articularam o seu afastamento.

Denunciando o "golpe de Estado" decorrente de um impeachment sem crime fiscal comprovado, ela não poupou citações aos responsáveis pela atual ameaça de ruptura democrática: a elite econômica, a classe política derrotada nas urnas e perseguida pela Lava Jato e setores da mídia que vergonhosamente silenciaram diante das irregularidades do processo. 

O discurso começou próximo das 10h desta segunda-feira (29), com Dilma pedindo desculpas por erros que cometeu em sua gestão. "Acolho essas criticas com humildade, até porque como todos eu também cometo erros e tenho defeitos. Mas entre meus defeitos não está a covardia", disparou Dilma.

"Na luta contra a ditadura, recebi no meu corpo as marcas da tortura. Amarguei por anos a prisão. Vi companheiros sendo violentados e sendo assassinados. Na época, eu era jovem, tinha muito a esperar da vida, e tinha medo da morte e das sequelas da tortura na minha alma e no corpo. Mas não cedi. Resisti. Não mudei de lado. Apesar de receber o peso da injustiça nos meus ombros, continuei lutando pela democracia", disse, numa tentativa de atingir os senadores que a abandonaram ou "sucumbiram às benesses" oferecidas pelo governo interino em meio ao processo.

Em outra passagem, ela disse que "se alguns rasgam o seu passado e se rendem às benesses do presente, que respondam à sua consciência. A mim, resta lamentar pelo que se tornaram. E resistir. Finquemos o pé no lado certo da história, mesmo que o chão trema e ameace, de novo, nos engolir."

OS AGENTES DO GOLPE

Dilma disse que fez questão de ir ao Senado, olhar cada um de seus juízes nos olhos, porque tem a "serenidade" de quem não cometeu nenhum crime de responsabilidade fiscal. Ela afirmou, contudo, que não poderia deixar de fazer um paralelo com o julgamento que sofreu durante a ditadura. Ambos teriam um ponto em comum: ao seu lado, no banco dos réus, sentou-se a democracia.

Para Dilma, o impeachment é desdobramento de um atentado à soberania popular. "Sempre que o interesse da elite econômica e politica é ferido nas urnas, conspirações são tramadas resultando em golpe de Estado", pontuou. "Trata-se de ação deliberada que conta com o silêncio cúmplice de setores da grande mídia brasileira."

A presidente lembrou que a instabilidade gerada em seu governo nasceu no dia em que o PSDB de Aécio Neves foi derrotado nas urnas. Desde então, inúmeras ações para impedir que Dilma tivesse governabilidade foram deflagradas, de contagem de votos a pedidos de investigação nas contas de campanha. Até que os derrotados nas urnas encontraram nos alvos da Lava Jato um grande aliado para encampar o impeachment. 

Citando a inércia e a pauta-bomba criada pela maioria oposicionista que se forjou no Congresso, que só passou a analisar matérias econômicas quando o impeachment já caminhava para o Senado, Dilma disse que "foi criado assim o desejado ambiente de instabilidade propício ao impeachment sem crime de responsabilidade.”

Ela também citou as chantagens de Eduardo Cunha (PMDB), que deflagrou o impeachment após não prosperar sua exigência para que o PT o ajudasse a impedir a cassação do mandato no Conselho de Ética. "Nunca aceitei na minha vida ameaças e chantagens. Se não o fiz antes, não o faria sendo presidente", disse Dilma. Ela também disparou, indiretamente, contra o governo do interino Michel Temer (PMDB), que ajuda Cunha a adiar ao máximo sua cassação em plenário. "Quem age para poupar ou adiar a condenação de uma pessoa que é acusada de corrupção, cedo ou tarde pagará o preço de sua falta de compromisso com a ética."

OS MOTIVOS PARA O GOLPE

Dilma afirmou que ficou claro ao longo do processo que querem tirá-la do poder pelo "conjunto da obra", algo que é conferido apenas ao povo e apenas durante as eleições. 

Os alegados crimes fiscais guardam controvérsias, inclusive porque o Ministério Público Federal concluiu, após uma investigação sobre seis tipos de pedaladas fiscais, que não houve dolo, nem afronta à Lei de Responsabilidade Fiscal, nem desrespeito ao Congresso. Sobre os créditos suplementares, Dilma apontou que o Tribunal de Contas da União convenientemente classificou como irregulares meses após o seu uso por Dilma, que seguiu os passos de seus antecessores no Planalto.

Além disso, a presidente citou a revelação, no primeiro dia do julgamento no Senado, de que o procurador do MP junto ao TCU que arquitetou o pedido de impeachment com base em crime fiscal foi considerado "suspeito" pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, por militar contra o PT. Além disso, ele foi assessorado por técnico do TCU que, posteriormente, foi o responsável por dar um parecer alegando irregularidades nos atos de Dilma. "Fica claro a parcialidade na construção das teses por eles defendidas", disse a presidente.

O QUE ESTÁ EM JOGO

Dilma citou que "o que está em jogo no impeachment não é o meu mandato, é o respeito às urnas, à soberania do povo, à Constituição, às conquistas sociais dos últimos 13 anos". O que está em jogo com a sua saída do governo é a entrega do pré-sal, o desmonte de programas federais, a inserção do Brasil no contexto internacional.

Dilma se emocionou pela primeira vez ao dizer que a auto-estima do brasileiro, que resistiu, em 2014, "aos pessimistas de plantão", também estava em jogo, assim como a auto-estima daqueles que acreditaram na capacidade do Brasil realizar "com sucesso" a Copa do Mundo e as Olimpíadas. 

Tudo isso está em jogo, disse Dilma, desde o momento em que Michel Temer assumiu o comando do País e adotou um programa de governo que não foi aprovado nas urnas.

A APARÊNCIA DE LEGALIDADE

Dilma também rebateu o argumento de que o processo de impeachment é legal porque o STF ditou as regras e acompanha desde o início. "Esse processo está marcado do início ao fim por absoluto desvio de poder. Tem se afirmado que o processo é legítimo, porque ritos e prazos foram respeitamos. Mas para que seja feito justiça, a forma não basta. É preciso que o conteúdo seja justo, e jamais haverá justiça nessa condenação. Não há respeito ao devido processo legal quando a opinião dos julgadores é registrado e divulgado na imprensa sem que a defesa tenha sido exercido. O direito de defesa é exercido formalmente, mas não é apreciado em sua essência."

AS ACUSAÇÕES

Nos minutos finais, Dilma dedicou-se a desmontar as teses de que cometeu crime de responsabilidade fiscal. Citou decisão do Ministério Público Federal, que se negou a dar continuidade a uma investigação por entender que não houve dolo, nem crime e tampouco desrespeito ao Congresso nas pedaladas fiscais. Também recordou que outros presidentes editaram a abertura de créditos suplementares e nada foi feito. O Tribunal de Contas da União só considerou essa atitude irregular meses após Dilma já ter seguido os passos de presidentes que a antecederam.

Para a presidente, as alegações da acusação são frágeis e por isso mesmo configuram um golpe.

RENÚNCIA E MORTE

Dilma comentou que não renunciou apesar de toda a especulação sobre isso porque tem compromisso com a democracia. Ela fez uma fala endereçada às mulheres, que a ajudaram a atravessar os dias de isolamento no Alvorada. "Elas me cobriram de flores e solidariedade."

Ao final, Dilma disse que "cassar meu mandato é me condenar à morte política." Ainda sobre morte, ela comentou que "por duas vezes, vi de perto a face da morte: quando fui torturada por dias seguidos, submetida a coisas que me faziam duvidar da humanidade, e quando uma doença grave podia encurtar minha existencia. Hoje, eu só temo a morte da democracia."

Aos indecisos, Dilma disse ainda que no presidencialismo, condenação política exige crime de responsabilidade cometido "dolosamente e comprovado de forma cabal". "Lembre-se que esse precedente pode prejudicar outros governantes. Condenar sem provas, condenar um inocente, esse é o precedente."

Ao final de sua fala, o senador Aloysio Nunes (PSDB), líder do governo Temer no Senado, tentou obter direito de resposta pelas citações aos "derrotados nas urnas", mas Lewandowski não permitiu, alegando que Dilma não fez ataques pessoais.

Dilma demole golpistas no senado

PRESIDENTA DILMA, DEMOLIDORA

"Este foi um discurso muito poderoso. Ela foi extremamente emocional e, ao mesmo tempo clara, cristalina. Diga-se, uma façanha para alguém que não é mestre em retórica. Fatos irrefutáveis foram apresentados em todos os detalhes. As - farsescas - acusações foram totalmente desacreditadas."

"Meu único medo é a morte da democracia" (Dilma Rousseff); esta foi a linha trabalhada para ser lembrada pela História em caso de cassação.

- Jornalista internacional Pepe Escobar (especializado em geopolítica)

Fonte

Poemas inéditos de Temer revelam novas facetas do interino

Gregorio Duvivier 

POÉTICA

Chamar-me-ão de vampiro
De golpista ou morto-vivo
Chamar-me-ão de mordomo
Ou de vice decorativo
Alguns me chamam de Drácula
Outros usam Nosferatu
Alçaram-me à presidência
Pra acabar com a Lava Jato
Confessar-vos-ei meu nome
Antes que eu me vá embora
Meu segundo nome é Temer
Meu primeiro nome é Fora

O CASAL MAIS SHIPPADO

Como é bom se apaixonar
Somos feito carne e unha
Dos crimes que cometeu
Sou parceiro e testemunha
Sempre soube aceitar
tudo aquilo que eu propunha
Qualquer dia vou mudar
Meu nome pra Michel Cunha

O INVERNO NO JABURU É QUASE GLACIAL

A Marcela não gosta desse lar
Como é duro morar no Jaburu
Michelzinho não posso mais buscar
Como é duro morar no Jaburu
Tiraram de perto de mim Jucá
Como é duro morar no Jaburu
Como é duro
como é duro
Como é duro e triste
morar no Jaburu
Se tristeza tem um nome
O teu nome é Jaburu

ROUBA, MAS NÃO ERRA CONCORDÂNCIA

Tirar-vos-ei os direitos
Roubar-vos-ei com afeto
Matar-vos-ei pelas costas
Foder-vos-ei pelo reto
Bandido bom é bandido
que tem português correto

CONFISSÃO

Preciso contar um segredo
depois saio de fininho
Quem escreveu esse livro
não fui eu, foi Michelzinho

Íntegra do discurso de Dilma Rousseff perante os golpistas do senado em defesa da Democracia

Ouça aqui:


Excelentíssimo Senhor Presidente do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski
Excelentíssimo Senhor Presidente do Senado Federal Renan Calheiros,
Excelentíssimas Senhoras Senadoras e Excelentíssimos Senhores Senadores,
Cidadãs e Cidadãos de meu amado Brasil,

No dia 1° de janeiro de 2015 assumi meu segundo mandato à Presidência da República Federativa do Brasil. Fui eleita por mais de 54 milhões de votos.

Na minha posse, assumi o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, bem como o de observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil.

Ao exercer a Presidência da República respeitei fielmente o compromisso que assumi perante a nação e aos que me elegeram. E me orgulho disso. Sempre acreditei na democracia e no Estado de direito, e sempre vi na Constituição de 1988 uma das grandes conquistas do nosso povo.

Jamais atentaria contra o que acredito ou praticaria atos contrários aos interesses daqueles que me elegeram.

Nesta jornada para me defender do impeachment me aproximei mais do povo, tive oportunidade de ouvir seu reconhecimento, de receber seu carinho. Ouvi também críticas duras ao meu governo, a erros que foram cometidos e a medidas e políticas que não foram adotadas. Acolho essas críticas com humildade.

Até porque, como todos, tenho defeitos e cometo erros.

Entre os meus defeitos não está a deslealdade e a covardia. Não traio os compromissos que assumo, os princípios que defendo ou os que lutam ao meu lado. Na luta contra a ditadura, recebi no meu corpo as marcas da tortura. Amarguei por anos o sofrimento da prisão. Vi companheiros e companheiras sendo violentados, e até assassinados.

Na época, eu era muito jovem. Tinha muito a esperar da vida. Tinha medo da morte, das sequelas da tortura no meu corpo e na minha alma. Mas não cedi. Resisti. Resisti à tempestade de terror que começava a me engolir, na escuridão dos tempos amargos em que o país vivia. Não mudei de lado. Apesar de receber o peso da injustiça nos meus ombros, continuei lutando pela democracia.

Dediquei todos esses anos da minha vida à luta por uma sociedade sem ódios e intolerância. Lutei por uma sociedade livre de preconceitos e de discriminações. Lutei por uma sociedade onde não houvesse miséria ou excluídos. Lutei por um Brasil soberano, mais igual e onde houvesse justiça.

Disso tenho orgulho. Quem acredita, luta.

Aos quase setenta anos de idade, não seria agora, após ser mãe e avó, que abdicaria dos princípios que sempre me guiaram.

Exercendo a Presidência da República tenho honrado o compromisso com o meu país, com a Democracia, com o Estado de Direito. Tenho sido intransigente na defesa da honestidade na gestão da coisa pública.

Por isso, diante das acusações que contra mim são dirigidas neste processo, não posso deixar de sentir, na boca, novamente, o gosto áspero e amargo da injustiça e do arbítrio.

E por isso, como no passado, resisto.

Não esperem de mim o obsequioso silêncio dos covardes. No passado, com as armas, e hoje, com a retórica jurídica, pretendem novamente atentar contra a democracia e contra o Estado do Direito.

Se alguns rasgam o seu passado e negociam as benesses do presente, que respondam perante a sua consciência e perante a história pelos atos que praticam. A mim cabe lamentar pelo que foram e pelo que se tornaram.

E resistir. Resistir sempre. Resistir para acordar as consciências ainda adormecidas para que, juntos, finquemos o pé no terreno que está do lado certo da história, mesmo que o chão trema e ameace de novo nos engolir.

Não luto pelo meu mandato por vaidade ou por apego ao poder, como é próprio dos que não tem caráter, princípios ou utopias a conquistar. Luto pela democracia, pela verdade e pela justiça. Luto pelo povo do meu País, pelo seu bem-estar.

Muitos hoje me perguntam de onde vem a minha energia para prosseguir. Vem do que acredito. Posso olhar para trás e ver tudo o que fizemos. Olhar para a frente e ver tudo o que ainda precisamos e podemos fazer. O mais importante é que posso olhar para mim mesma e ver a face de alguém que, mesmo marcada pelo tempo, tem forças para defender suas ideias e seus direitos.

Sei que, em breve, e mais uma vez na vida, serei julgada. E é por ter a minha consciência absolutamente tranquila em relação ao que fiz, no exercício da Presidência da República que venho pessoalmente à presença dos que me julgarão. Venho para olhar diretamente nos olhos de Vossas Excelências, e dizer, com a serenidade dos que nada tem a esconder que não cometi nenhum crime de responsabilidade. Não cometi os crimes dos quais sou acusada injusta e arbitrariamente.

Hoje o Brasil, o mundo e a história nos observam e aguardam o desfecho deste processo de impeachment.

No passado da América Latina e do Brasil, sempre que interesses de setores da elite econômica e política foram feridos pelas urnas, e não existiam razões jurídicas para uma destituição legítima, conspirações eram tramadas resultando em golpes de estado.

O Presidente Getúlio Vargas, que nos legou a CLT e a defesa do patrimônio nacional, sofreu uma implacável perseguição; a hedionda trama orquestrada pela chamada "República do Galeão, que o levou ao suicídio.

O Presidente Juscelino Kubitscheck, que contruiu essa cidade, foi vítima de constantes e fracassadas tentativas de golpe, como ocorreu no episódio de Aragarças.

O presidente João Goulart, defensor da democracia, dos direitos dos trabalhadores e das Reformas de Base, superou o golpe do parlamentarismo mas foi deposto e instaurou-se a ditadura militar, em 1964. Durante 20 anos, vivemos o silêncio imposto pelo arbítrio e a democracia foi varrida de nosso País. Milhões de brasileiros lutaram e reconquistaram o direito a eleições diretas.

Hoje, mais uma vez, ao serem contrariados e feridos nas urnas os interesses de setores da elite econômica e política nos vemos diante do risco de uma ruptura democrática. Os padrões políticos dominantes no mundo repelem a violência explícita. Agora, a ruptura democrática se dá por meio da violência moral e de pretextos constitucionais para que se empreste aparência de legitimidade ao governo que assume sem o amparo das urnas. Invoca-se a Constituição para que o mundo das aparências encubra hipocritamente o mundo dos fatos.

As provas produzidas deixam claro e inconteste que as acusações contra mim dirigidas são meros pretextos, embasados por uma frágil retórica jurídica.

Nos últimos dias, novos fatos evidenciaram outro aspecto da trama que caracteriza este processo de impeachment. O autor da representação junto ao Tribunal de Contas da União que motivou as acusações discutidas nesse processo, foi reconhecido como suspeito pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal. Soube-se ainda, pelo depoimento do auditor responsável pelo parecer técnico, que ele havia ajudado a elaborar a própria representação que auditou. Fica claro o vício da parcialidade, a trama, na construção das teses por eles defendidas.

São pretextos, apenas pretextos, para derrubar, por meio de um processo de impeachment sem crime de responsabilidade, um governo legítimo, escolhido em eleição direta com a participação de 110 milhões de brasileiros e brasileiras. O governo de uma mulher que ousou ganhar duas eleições presidenciais consecutivas.

São pretextos para viabilizar um golpe na Constituição. Um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador.

A eleição indireta de um governo que, já na sua interinidade, não tem mulheres comandando seus ministérios, quando o povo, nas urnas, escolheu uma mulher para comandar o país. Um governo que dispensa os negros na sua composição ministerial e já revelou um profundo desprezo pelo programa escolhido pelo povo em 2014.

Fui eleita presidenta por 54 milhões e meio de votos para cumprir um programa cuja síntese está gravada nas palavras "nenhum direito a menos".

O que está em jogo no processo de impeachment não é apenas o meu mandato. O que está em jogo é o respeito às urnas, à vontade soberana do povo brasileiro e à Constituição.

O que está em jogo são as conquistas dos últimos 13 anos: os ganhos da população, das pessoas mais pobres e da classe média; a proteção às crianças; os jovens chegando às universidades e às escolas técnicas; a valorização do salário mínimo; os médicos atendendo a população; a realização do sonho da casa própria.

O que está em jogo é o investimento em obras para garantir a convivência com a seca no semiárido, é a conclusão do sonhado e esperado projeto de integração do São Francisco. O que está em jogo é, também, a grande descoberta do Brasil, o pré-sal. O que está em jogo é a inserção soberana de nosso País no cenário internacional, pautada pela ética e pela busca de interesses comuns.

O que está em jogo é a auto-estima dos brasileiros e brasileiras, que resistiram aos ataques dos pessimistas de plantão à capacidade do País de realizar, com sucesso, a Copa do Mundo e as Olimpíadas e Paraolimpíadas.

O que está em jogo é a conquista da estabilidade, que busca o equilíbrio fiscal mas não abre mão de programas sociais para a nossa população.

O que está em jogo é o futuro do País, a oportunidade e a esperança de avançar sempre mais.
Senhoras e senhores senadores,

No presidencialismo previsto em nossa Constituição, não basta a eventual perda de maioria parlamentar para afastar um Presidente. Há que se configurar crime de responsabilidade. E está claro que não houve tal crime.

Não é legítimo, como querem os meus acusadores, afastar o chefe de Estado e de governo pelo "conjunto da obra". Quem afasta o Presidente pelo "conjunto da obra" é o povo e, só o povo, nas eleições. E nas eleições o programa de governo vencedor não foi este agora ensaiado e desenhado pelo Governo interino e defendido pelos meus acusadores.

O que pretende o governo interino, se transmudado em efetivo, é um verdadeiro ataque às conquistas dos últimos anos.

Desvincular o piso das aposentadorias e pensões do salário mínimo será a destruição do maior instrumento de distribuição de renda do país, que é a Previdência Social. O resultado será mais pobreza, mais mortalidade infantil e a decadência dos pequenos municípios.

A revisão dos direitos e garantias sociais previstos na CLT e a proibição do saque do FGTS na demissão do trabalhador são ameaças que pairam sobre a população brasileira caso prospere o impeachment sem crime de responsabilidade.

Conquistas importantes para as mulheres, os negros e as populações LGBT estarão comprometidas pela submissão a princípios ultraconservadores.

O nosso patrimônio estará em questão, com os recursos do pré-sal, as riquezas naturais e minerárias sendo privatizadas.

A ameaça mais assustadora desse processo de impeachment sem crime de responsabilidade é congelar por inacreditáveis 20 anos todas as despesas com saúde, educação, saneamento, habitação. É impedir que, por 20 anos, mais crianças e jovens tenham acesso às escolas; que, por 20 anos, as pessoas possam ter melhor atendimento à saúde; que, por 20 anos, as famílias possam sonhar com casa própria.

Senhor Presidente Ricardo Lewandowski, Sras. e Srs. Senadores,

A verdade é que o resultado eleitoral de 2014 foi um rude golpe em setores da elite conservadora brasileira.

Desde a proclamação dos resultados eleitorais, os partidos que apoiavam o candidato derrotado nas eleições fizeram de tudo para impedir a minha posse e a estabilidade do meu governo. Disseram que as eleições haviam sido fraudadas, pediram auditoria nas urnas, impugnaram minhas contas eleitorais, e após a minha posse, buscaram de forma desmedida quaisquer fatos que pudessem justificar retoricamente um processo de impeachment.

Como é próprio das elites conservadoras e autoritárias, não viam na vontade do povo o elemento legitimador de um governo. Queriam o poder a qualquer preço.

Tudo fizeram para desestabilizar a mim e ao meu governo.

Só é possível compreender a gravidade da crise que assola o Brasil desde 2015, levando-se em consideração a instabilidade política aguda que, desde a minha reeleição, tem caracterizado o ambiente em que ocorrem o investimento e a produção de bens e serviços.

Não se procurou discutir e aprovar uma melhor proposta para o País. O que se pretendeu permanentemente foi a afirmação do "quanto pior melhor", na busca obsessiva de se desgastar o governo, pouco importando os resultados danosos desta questionável ação política para toda a população.

A possibilidade de impeachment tornou-se assunto central da pauta política e jornalística apenas dois meses após minha reeleição, apesar da evidente improcedência dos motivos para justificar esse movimento radical.

Nesse ambiente de turbulências e incertezas, o risco político permanente provocado pelo ativismo de parcela considerável da oposição acabou sendo um elemento central para a retração do investimento e para o aprofundamento da crise econômica.

Deve ser também ressaltado que a busca do reequilíbrio fiscal, desde 2015, encontrou uma forte resistência na Câmara dos Deputados, à época presidida pelo Deputado Eduardo Cunha. Os projetos enviados pelo governo foram rejeitados, parcial ou integralmente. Pautas bombas foram apresentadas e algumas aprovadas.

As comissões permanentes da Câmara, em 2016, só funcionaram a partir do dia 5 de maio, ou seja, uma semana antes da aceitação do processo de impeachment pela Comissão do Senado Federal. Os Srs. e as Sras. Senadores sabem que o funcionamento dessas Comissões era e é absolutamente indispensável para a aprovação de matérias que interferem no cenário fiscal e encaminhar a saída da crise.

Foi criado assim o desejado ambiente de instabilidade política, propício a abertura do processo de impeachment sem crime de responsabilidade.

Sem essas ações, o Brasil certamente estaria hoje em outra situação política, econômica e fiscal.
Muitos articularam e votaram contra propostas que durante toda a vida defenderam, sem pensar nas consequências que seus gestos trariam para o país e para o povo brasileiro. Queriam aproveitar a crise econômica, porque sabiam que assim que o meu governo viesse a superá-la, sua aspiração de acesso ao poder haveria de ficar sepultada por mais um longo período.

Mas, a bem da verdade, as forças oposicionistas somente conseguiram levar adiante o seu intento quando outra poderosa força política a elas se agregou: a força política dos que queriam evitar a continuidade da "sangria" de setores da classe política brasileira, motivada pelas investigações sobre a corrupção e o desvio de dinheiro público.

É notório que durante o meu governo e o do Pr Lula foram dadas todas as condições para que estas investigações fossem realizadas. Propusemos importantes leis que dotaram os órgãos competentes de condições para investigar e punir os culpados.

Assegurei a autonomia do Ministério Público, nomeando como Procurador Geral da República o primeiro nome da lista indicado pelos próprios membros da instituição. Não permiti qualquer interferência política na atuação da Polícia Federal.

Contrariei, com essa minha postura, muitos interesses. Por isso, paguei e pago um elevado preço pessoal pela postura que tive.

Arquitetaram a minha destituição, independentemente da existência de quaisquer fatos que pudesse justificá-la perante a nossa Constituição.

Encontraram, na pessoa do ex-Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha o vértice da sua aliança golpista.

Articularam e viabilizaram a perda da maioria parlamentar do governo. Situações foram criadas, com apoio escancarado de setores da mídia, para construir o clima político necessário para a desconstituição do resultado eleitoral de 2014.

Todos sabem que este processo de impeachment foi aberto por uma "chantagem explícita" do ex-Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, como chegou a reconhecer em declarações à imprensa um dos próprios denunciantes. Exigia aquele parlamentar que eu intercedesse para que deputados do meu partido não votassem pela abertura do seu processo de cassação.​

Nunca aceitei na minha vida ameaças ou chantagens. Se não o fiz antes, não o faria na condição de Presidenta da República. É fato, porém, que não ter me curvado a esta chantagem motivou o recebimento da denúncia por crime de responsabilidade e a abertura deste d processo, sob o aplauso dos derrotados em 2014 e dos temerosos pelas investigações.

Se eu tivesse me acumpliciado com a improbidade e com o que há de pior na política brasileira, como muitos até hoje parecem não ter o menor pudor em fazê-lo, eu não correria o risco de ser condenada injustamente.

Quem se acumplicia ao imoral e ao ilícito, não tem respeitabilidade para governar o Brasil. Quem age para poupar ou adiar o julgamento de uma pessoa que é acusada de enriquecer às custas do Estado brasileiro e do povo que paga impostos, cedo ou tarde, acabará pagando perante a sociedade e a história o preço do seu descompromisso com a ética.

Todos sabem que não enriqueci no exercício de cargos públicos, que não desviei dinheiro público em meu proveito próprio, nem de meus familiares, e que não possuo contas ou imóveis no exterior. Sempre agi com absoluta probidade nos cargos públicos que ocupei ao longo da minha vida.

Curiosamente, serei julgada, por crimes que não cometi, antes do julgamento do ex-presidente da Câmara, acusado de ter praticado gravíssimos atos ilícitos e que liderou as tramas e os ardis que alavancaram as ações voltadas à minha destituição.

Ironia da história? Não, de forma nenhuma. Trata-se de uma ação deliberada que conta com o silêncio cúmplice de setores da grande mídia brasileira.

Viola-se a democracia e pune-se uma inocente. Este é o pano de fundo que marca o julgamento que será realizado pela vontade dos que lançam contra mim pretextos acusatórios infundados.

Estamos a um passo da consumação de uma grave ruptura institucional. Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de Estado.

Senhoras e Senhores Senadores,

Vamos aos autos deste processo. Do que sou acusada? Quais foram os atentados à Constituição que cometi? Quais foram os crimes hediondos que pratiquei?

A primeira acusação refere-se à edição de três decretos de crédito suplementar sem autorização legislativa. Ao longo de todo o processo, mostramos que a edição desses decretos seguiu todas as regras legais. Respeitamos a previsão contida na Constituição, a meta definida na LDO e as autorizações estabelecidas no artigo 4° da Lei Orçamentária de 2015, aprovadas pelo Congresso Nacional.

Todas essas previsões legais foram respeitadas em relação aos 3 decretos. Eles apenas ofereceram alternativas para alocação dos mesmos limites, de empenho e financeiro, estabelecidos pelo decreto de contingenciamento, que não foram alterados. Por isso, não afetaram em nada a meta fiscal.

Ademais, desde 2014, por iniciativa do Executivo, o Congresso aprovou a inclusão, na LDO, da obrigatoriedade que qualquer crédito aberto deve ter sua execução subordinada ao decreto de contingenciamento, editado segundo as normas estabelecidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal. E isso foi precisamente respeitado.

Não sei se por incompreensão ou por estratégia, as acusações feitas neste processo buscam atribuir a esses decretos nossos problemas fiscais. Ignoram ou escondem que os resultados fiscais negativos são consequência da desaceleração econômica e não a sua causa.

Escondem que, em 2015, com o agravamento da crise, tivemos uma expressiva queda da receita ao longo do ano – foram R$ 180 bilhões a menos que o previsto na Lei Orçamentária.

Fazem questão de ignorar que realizamos, em 2015, o maior contingenciamento de nossa história. Cobram que, quando enviei ao Congresso Nacional, em julho de 2015, o pedido de autorização para reduzir a meta fiscal, deveria ter imediatamente realizado um novo contingenciamento. Não o fiz porque segui o procedimento que não foi questionado pelo Tribunal de Contas da União ou pelo Congresso Nacional na análise das contas de 2009.

Além disso, a responsabilidade com a população justifica também nossa decisão. Se aplicássemos, em julho, o contingenciamento proposto pelos nossos acusadores cortaríamos 96% do total de recursos disponíveis para as despesas da União. Isto representaria um corte radical em todas as dotações orçamentárias dos órgãos federais. Ministérios seriam paralisados, universidades fechariam suas portas, o Mais Médicos seria interrompido, a compra de medicamentos seria prejudicada, as agências reguladoras deixariam de funcionar. Na verdade, o ano de 2015 teria, orçamentariamente, acabado em julho.

Volto a dizer: ao editar estes decretos de crédito suplementar, agi em conformidade plena com a legislação vigente. Em nenhum desses atos, o Congresso Nacional foi desrespeitado. Aliás, este foi o comportamento que adotei em meus dois mandatos.

Somente depois que assinei estes decretos é que o Tribunal de Contas da União mudou a posição que sempre teve a respeito da matéria. É importante que a população brasileira seja esclarecida sobre este ponto: os decretos foram editados em julho e agosto de 2015 e somente em outubro de 2015 o TCU aprovou a nova interpretação.

O TCU recomendou a aprovação das contas de todos os presidentes que editaram decretos idênticos aos que editei. Nunca levantaram qualquer problema técnico ou apresentaram a interpretação que passaram a ter depois que assinei estes atos.

Querem me condenar por ter assinado decretos que atendiam a demandas de diversos órgãos, inclusive do próprio Poder Judiciário, com base no mesmo procedimento adotado desde a entrada em vigor da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2001?

Por ter assinado decretos que somados, não implicaram, como provado nos autos, em nenhum centavo de gastos a mais para prejudicar a meta fiscal?

A segunda denúncia dirigida contra mim neste processo também é injusta e frágil. Afirma-se que o alegado atraso nos pagamentos das subvenções econômicas devidas ao Banco do Brasil, no âmbito da execução do programa de crédito rural Plano Safra, equivale a uma "operação de crédito", o que estaria vedado pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Como minha defesa e várias testemunhas já relataram, a execução do Plano Safra é regida por uma lei de 1992, que atribui ao Ministério da Fazenda a competência de sua normatização, inclusive em relação à atuação do Banco do Brasil. A Presidenta da República não pratica nenhum ato em relação à execução do Plano Safra. Parece óbvio, além de juridicamente justo, que eu não seja acusada por um ato inexistente.

A controvérsia quanto a existência de operação de crédito surgiu de uma mudança de interpretação do TCU, cuja decisão definitiva foi emitida em dezembro de 2015. Novamente, há uma tentativa de dizer que cometi um crime antes da definição da tese de que haveria um crime. Uma tese que nunca havia surgido antes e que, como todas as senhoras e senhores senadores souberam em dias recentes, foi urdida especialmente para esta ocasião.

Lembro ainda a decisão recente do Ministério Público Federal, que arquivou inquérito exatamente sobre esta questão. Afirmou não caber falar em ofensa à lei de responsabilidade fiscal porque eventuais atrasos de pagamento em contratos de prestação de serviços entre a União e instituições financeiras públicas não são operações de crédito.

Insisto, senhoras senadoras e senhores senadores: não sou eu nem tampouco minha defesa que fazemos estas alegações. É o Ministério Público Federal que se recusou a dar sequência ao processo, pela inexistência de crime.

Sobre a mudança de interpretação do TCU, lembro que, ainda antes da decisão final, agi de forma preventiva. Solicitei ao Congresso Nacional a autorização para pagamento dos passivos e defini em decreto prazos de pagamento para as subvenções devidas. Em dezembro de 2015, após a decisão definitiva do TCU e com a autorização do Congresso, saldamos todos os débitos existentes.

Não é possível que não se veja aqui também o arbítrio deste processo e a injustiça também desta acusação.

Este processo de impeachment não é legítimo. Eu não atentei, em nada, em absolutamente nada contra qualquer dos dispositivos da Constituição que, como Presidenta da República, jurei cumprir. Não pratiquei ato ilícito. Está provado que não agi dolosamente em nada. Os atos praticados estavam inteiramente voltados aos interesses da sociedade. Nenhuma lesão trouxeram ao erário ou ao patrimônio público.

Volto a afirmar, como o fez a minha defesa durante todo o tempo, que este processo está marcado, do início ao fim, por um clamoroso desvio de poder.

É isto que explica a absoluta fragilidade das acusações que contra mim são dirigidas.

Tem-se afirmado que este processo de impeachment seria legítimo porque os ritos e prazos teriam sido respeitados. No entanto, para que seja feita justiça e a democracia se imponha, a forma só não basta. É necessário que o conteúdo de uma sentença também seja justo. E no caso, jamais haverá justiça na minha condenação.

Ouso dizer que em vários momentos este processo se desviou, clamorosamente, daquilo que a Constituição e os juristas denominam de "devido processo legal".

Não há respeito ao devido processo legal quando a opinião condenatória de grande parte dos julgadores é divulgada e registrada pela grande imprensa, antes do exercício final do direito de defesa.

Não há respeito ao devido processo legal quando julgadores afirmam que a condenação não passa de uma questão de tempo, porque votarão contra mim de qualquer jeito.

Nesse caso, o direito de defesa será exercido apenas formalmente, mas não será apreciado substantivamente nos seus argumentos e nas suas provas. A forma existirá apenas para dar aparência de legitimidade ao que é ilegítimo na essência.

Senhoras e senhores senadores,

Nesses meses, me perguntaram inúmeras vezes porque eu não renunciava, para encurtar este capítulo tão difícil de minha vida.

Jamais o faria porque tenho compromisso inarredável com o Estado Democrático de Direito.
Jamais o faria porque nunca renuncio à luta.

Confesso a Vossas Excelências, no entanto, que a traição, as agressões verbais e a violência do preconceito me assombraram e, em alguns momentos, até me magoaram. Mas foram sempre superados, em muito, pela solidariedade, pelo apoio e pela disposição de luta de milhões de brasileiras e brasileiros pelo País afora. Por meio de manifestações de rua, reuniões, seminários, livros, shows, mobilizações na internet, nosso povo esbanjou criatividade e disposição para a luta contra o golpe.

As mulheres brasileiras têm sido, neste período, um esteio fundamental para minha resistência. Me cobriram de flores e me protegeram com sua solidariedade. Parceiras incansáveis de uma batalha em que a misoginia e o preconceito mostraram suas garras, as brasileiras expressaram, neste combate pela democracia e pelos direitos, sua força e resiliência. Bravas mulheres brasileiras, que tenho a honra e o dever de representar como primeira mulher Presidenta do Brasil.

Chego à última etapa desse processo comprometida com a realização de uma demanda da maioria dos brasileiros: convocá-los a decidir, nas urnas, sobre o futuro de nosso País. Diálogo, participação e voto direto e livre são as melhores armas que temos para a preservação da democracia.

Confio que as senhoras senadoras e os senhores senadores farão justiça. Tenho a consciência tranquila. Não pratiquei nenhum crime de responsabilidade. As acusações dirigidas contra mim são injustas e descabidas. Cassar em definitivo meu mandato é como me submeter a uma pena de morte política.

Este é o segundo julgamento a que sou submetida em que a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus. Na primeira vez, fui condenada por um tribunal de exceção. Daquela época, além das marcas dolorosas da tortura, ficou o registro, em uma foto, da minha presença diante de meus algozes, num momento em que eu os olhava de cabeça erguida enquanto eles escondiam os rostos, com medo de serem reconhecidos e julgados pela história.

Hoje, quatro décadas depois, não há prisão ilegal, não há tortura, meus julgadores chegaram aqui pelo mesmo voto popular que me conduziu à Presidência. Tenho por todos o maior respeito, mas continuo de cabeça erguida, olhando nos olhos dos meus julgadores.

Apesar das diferenças, sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo. E não tenho dúvida que, também desta vez, todos nós seremos julgados pela história.

Por duas vezes vi de perto a face da morte: quando fui torturada por dias seguidos, submetida a sevícias que nos fazem duvidar da humanidade e do próprio sentido da vida; e quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia ter abreviado minha existência.

Hoje eu só temo a morte da democracia, pela qual muitos de nós, aqui neste plenário, lutamos com o melhor dos nossos esforços.

Reitero: respeito os meus julgadores.

Não nutro rancor por aqueles que votarão pela minha destituição.

Respeito e tenho especial apreço por aqueles que têm lutado bravamente pela minha absolvição, aos quais serei eternamente grata.

Neste momento, quero me dirigir aos senadores que, mesmo sendo de oposição a mim e ao meu governo, estão indecisos.

Lembrem-se que, no regime presidencialista e sob a égide da nossa Constituição, uma condenação política exige obrigatoriamente a ocorrência de um crime de responsabilidade, cometido dolosamente e comprovado de forma cabal.

Lembrem-se do terrível precedente que a decisão pode abrir para outros presidentes, governadores e prefeitos. Condenar sem provas substantivas. Condenar um inocente.

Faço um apelo final a todos os senadores: não aceitem um golpe que, em vez de solucionar, agravará a crise brasileira.

Peço que façam justiça a uma presidenta honesta, que jamais cometeu qualquer ato ilegal, na vida pessoal ou nas funções públicas que exerceu. Votem sem ressentimento. O que cada senador sente por mim e o que nós sentimos uns pelos outros importa menos, neste momento, do que aquilo que todos sentimos pelo país e pelo povo brasileiro.

Peço: votem contra o impeachment. Votem pela democracia.

Muito obrigada.
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