sábado, 31 de janeiro de 2015

Saiam de São Paulo porque aqui não vai ter água!!

“Saiam de São Paulo porque aqui não vai ter água”: a espantosa sinceridade de um diretor da Sabesp

Kiko Nogueira

O diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato Yoshimoto, é um espécie de grilo falante de uma empresa cheia de segredos. Foi ele quem admitiu, nesta semana, a adoção de um rodízio “muito drástico” na região metropolitana e a formulação dos dois dias com água para cinco dias sem.

Esta seria a solução “no limite”. No ritmo atual, o volume disponível para captação no Sistema Cantareira deve se esgotar em março e a terceira cota de 41 bilhões de litros do volume morto termina em maio.

Massato está há cerca de dez anos nesse cargo (entrou na Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano, Emplasa, em 1975). Foi assessor de um irmão de Alberto Goldman, ex-governador. Entre 1996 e 2003, segundo o site da estatal, gerenciou “programas de redução e controle de perdas, entre outras coisas”.

Em fevereiro, falou publicamente em racionamento para em seguida recuar, sob o argumento de que seria prejudicial aos mais pobres. Três meses depois, na CPI na Câmara Municipal, advertiu os presentes de que, se a crise piorasse, iria distribuir água com uma canequinha.

Massato é um quadro importante na companhia. Foi cotado para suceder a presidente Dilma Pena, que saiu em dezembro. Perdeu a corrida para Jerson Kelman.

Numa reunião da diretoria da Sabesp do ano passado, cujo áudio vazou, ele deu sua declaração mais sincera sobre o caos que se avizinha em São Paulo.

“Essa é uma agonia, uma preocupação”, começou. “Alguém brincou aqui, mas é uma brincadeira séria. Vamos dar férias. Saiam de São Paulo porque aqui não tem água, não vai ter água para banho, para limpeza da casa, quem puder compra garrafa, água mineral. Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe lá em Santos, Ubatuba, Águas de São Pedro, sei lá, aqui não vai ter”.

Com seus atos falhos, Paulo Massato é, provavelmente, a única pessoa a contar a verdade nessa tragicomédia. A questão é que sua fidelidade ao governo é maior do que o dever de atender a necessidade da população. Mas algo sempre escapa.

O Governo desaprendeu a travar a batalha da comunicação

Antonio Lassance

Carta Maior - O Portal da Esquerda
Um governo despreparado para a batalha

Em sua primeira reunião ministerial (27/1), Dilma exortou seus ministros a travarem a batalha da comunicação. Falou, repetiu, insistiu. Quase perguntou se precisava desenhar.

A ordem é a seguinte:

"Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente. Vou repetir: sempre e permanentemente. Nós não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre.

Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação, levem a posição do governo à opinião pública, a posição do ministério, a posição do governo à opinião pública. Sejam claros, sejam precisos, se façam entender. Nós não podemos deixar dúvidas."

No fundo, Dilma sabe que ela não é a melhor comunicadora do governo e pede ajuda a todos de sua equipe para uma tarefa que, de qualquer forma, nenhum presidente, sozinho, é capaz de realizar: dizer ao público o que está acontecendo e o que o governo tem feito.

Até aí, tudo bem. A maioria dos governos anteriores tinha ministros mais desenvoltos para a comunicação do que o presidente. Lula foi uma das exceções. Ele era, sem sombra de dúvida, o melhor comunicador de seu próprio governo.

Com Dilma é diferente e a constatação pode ser perfeitamente administrada. Mas há uma pedra no meio do caminho.

Se o pedido da presidenta não significar uma completa reorientação na concepção, nas práticas e nas mensagens do governo, o tiro irá sair pela culatra. Vai estar aberto o caminho para uma sucessão de trapalhadas.

De todo modo, não se deve, em hipótese alguma, tentar esconder um presidente da República. Não há como tirar um assunto do colo da presidenta quando o assunto é o Brasil.

Um presidente da República jamais pode fingir que alguns grandes problemas não são seus.

Toda semana a presidenta precisa mostrar que existe, que está trabalhando, que está fazendo.

Mesmo que não queira, Dilma precisa aparecer regularmente, dar sua opinião e orientação, ainda que os detalhes e as piores partes do tratamento de algum problema fiquem por conta de outra pessoa.

Ao invés de aparecer pouco e, quando aparece, falar muito (Dilma é a primeira a se cansar de seu próprio discurso), é melhor a presidenta aparecer mais vezes e falar menos, fazendo discursos mais curtos e diretos.

Se não for pedir demais, em nome da clareza na comunicação com o público, Dilma poderia usar mais metáforas e analogias. Alguns não vão gostar, mas a maioria vai.

Fazer comunicação com o quê e com quem?

O atual governo gasta muito e gasta mal em comunicação. E conseguiu a façanha de desmontar boa parte dos bons instrumentos próprios que haviam sido construídos no primeiro mandato do governo Lula.

É bom fazer o registro: a situação já estava assim antes do atual ministro Thomas Traumann assumir o posto. O problema é que, até agora, nada mudou e Traumann não tem qualquer controle sobre a área de publicidade.

O governo faz regularmente uma pesquisa para aferir os hábitos de consumo da população.

Para quê? Não se sabe. A pesquisa mostra que o rádio é quase tão presente como fonte de informação quanto a tevê. Em seguida, vem a internet. Por último, bem atrás, a mídia impressa.

Apesar disso, o governo prefere gastar em tevê valores estratosféricos, extraordinariamente maiores do que gasta em rádio.

Ainda mais absurdo é que jornais e revistas impressos recebam bem mais que a internet e até que o rádio. Isso não é e nunca foi mídia técnica. É um escândalo de compadrio da publicidade com os grandes veículos.

O governo tem um gosto todo especial em financiar a concentração da mídia.

Sem contar que o Ibope e a vendagem de muitos veículos são alimentadas por informações de dirigentes e gestores governamentais que dão a alguns veículos um tratamento privilegiado. Esquecem-se que informação oficial é um bem público, e não um produto a ser barganhado na troca de favores do mercado da notícia.

Comunicação estatal, considerada um palavrão, foi quase reduzida a zero

A grande maioria dos ministros não sabe o que é o governo, seus números, seus planos, suas metas, suas dificuldades.

O governo já teve, mas extinguiu, um boletim informativo regular, chamado Em Questão.

O Em Questão era o principal veículo diário de informação sobre as ações, números e argumentos em defesa do governo.

Deveria ser ressuscitado pela presidenta, isso se ela quiser pautar pelo menos a fala de seus ministros.

Em 2008, o próprio gabinete pessoal do Presidente Lula começou a produzir um informativo, chamado Destaques, com dados e outras informações sobre as ações de governo.

O último caderno Destaques data de julho de 2013.

O último programa de rádio Café com a Presidenta foi ao ar em 30 de junho do ano passado.

O cargo de porta-voz está vago há mais de um ano.


Falar em comunicação estatal virou palavrão, desde que extinguiram a Radiobrás e surgiu a EBC.

A fusão da Radiobrás com a TV e rádios educativas do Rio de Janeiro gerou uma grande bagunça entre o que era a comunicação pública, feita pela Acerp (que controlava a TV e Rádio Educativa do Rio de Janeiro) e a comunicação estatal (feita pelo sistema Radiobrás, em Brasília).


A antiga e extinta Radiobras ensinou Câmara, Senado e Justiça a implantarem seus veículos. Hoje, a comunicação do Executivo está longe do padrão de excelência alcançado pela comunicação dos outros Poderes.

A comunicação governamental se resume a um canal de tevê a cabo, a NBR, para o qual o próprio governo não dá a mínima importância. A NBR já deveria ser tirada da EBC e estar sob o comando direto da Secom faz tempo.

Da forma como está, com a EBC agindo como mera empresa de prestação de serviços, é mais barato para o governo contratar a empresa da esquina que filma aniversários e casamentos.

É na rua que se anda pra frente

O governo vai realmente travar a batalha da comunicação? Para falar o quê? E com quem?

O principal alvo para uma batalha da comunicação, antes dos veículos de imprensa, é o público.

O governo vai para a rua? Se não for, não vai poder dizer que está travando a batalha da comunicação.

Ministros e suas equipes vão por o pé na estrada, visitar capitais e cidades do interior, dar entrevistas aos veículos locais e blogueiros de cada cidade?

O governo poderia gastar um pouco menos em propaganda e um pouco mais em sola de sapato, telefonemas, e-mails, interação em mensagens pelas redes sociais e vídeos no Youtube.

A principal forma de comunicação que falta ao governo chama-se conversa. É preciso pegar o telefone para ligar e conversar com prefeitos, dirigentes sindicais, entidades estudantis, movimentos agrários e de luta pela moradia e ativistas das redes sociais.

Ativistas das redes sociais? Sim, é uma categoria nova, influente na formação de opinião e, a não ser no caso dos direitosos, ainda é absolutamente desconhecida e desprezada pela maioria dos que fazem comunicação governamental.

Não custa também perguntar: quantos ministérios já estão chamando suas conferências nacionais? Quantos já implantaram conselhos e comitês para discutir políticas públicas.

Talvez muitos ministros não saibam, mas o decreto que instituiu a Política Nacional de Participação Social continua valendo.

Seria bom alguém se dedicar a informá-los.


(*) Antonio Lassance é cientista político.


© Copyleft - Carta Maior - O Portal da Esquerda

A burrice é invencível

"A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdiçá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível."

Mário Quintana (Alegrete-RS, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre-RS, 5 de maio de 1994) foi poeta, tradutor e jornalista.


Economizar água, sim; ser estúpido, não

Marco Antonio Araujo

Há um ano, de forma sistemática, a mídia nativa vem insistindo na necessidade de cada um de nós economizar água. E dá-lhe reportagens ufanistas, comentários policialescos e âncoras exaltando a turma do autoflagelo. Tudo pra livrar a cara dos governantes, desviar o foco da calamidade anunciada (vulgo "crise hídrica") - e transferir a responsabilidade para o cidadão, como sempre.

Esse "espírito cívico" estimulou o surgimento dos fiscais de torneira, sommeliers de cisterna e sociopatas que fazem de tudo para aparecer na TV como exemplo de sacrifício e abnegação. Já vemos sinais perigosos de que os ânimos vão se exaltar.

Antes que gente morra ou se esfaqueie no sertão paulistano, é bom espalhar com responsabilidade uma informação básica: o consumo doméstico de água responde (grosso modo) por modestos 10% do total. Pois é.

A agricultura predatória escoa 70%, e a indústria sucateada, 20%. Isso sem contar os estimados 38% que, de saída, são desperdiçados por absoluta incompetência e ganância das "empresas" que especulam com nosso precioso líquido na Bolsa de Nova Iorque.

Quem tem que ser cobrado pra valer (e não está sendo) é a turma da pesada. Não vai ser com baldes e canequinhas que impediremos São Paulo de se transformar numa caatinga. Está na hora de menos histeria e mais informação: economizar, sim; ser estúpido, não.

Mudando de assunto

Charge de João Montanaro

Haddad vai estatizar garagens de viações para ampliar concorrência

Prefeitura pretende reorganizar sistema de ônibus de São Paulo e abrir licitação internacional

Desapropriação de áreas, que serão cedidas a vencedores, visa atrair mais empresas, reduzindo os custos


A Prefeitura de São Paulo vai desapropriar todas as garagens de ônibus das empresas que exploram o transporte público municipal.

Os decretos que declaram essas propriedades áreas de utilidade pública foram encaminhados ao gabinete do prefeito Fernando Haddad (PT) e são o passo inicial do rito de estatização que tem prazo de cinco anos para ser consumado, com o pagamento do valor correspondente.

A medida antecipa o início do processo de licitação que deverá fazer uma reorganização radical no sistema de ônibus, com mudanças no serviço ao usuário e também no modelo de administração.

Em lugar da atual divisão da cidade em cinco áreas exploradas por empresas e cooperativas, o novo processo prevê serviços diferentes operados apenas por companhias em todas as regiões (as atuais cooperativas vão se converter em empresas).

O transporte público será dividido em três redes, licitadas separadamente:

a) Estrutural: corredores e grandes vias, onde ônibus articulados circulam "como se fosse em trilho", como diz Haddad, com frequência, velocidade e regularidade;

b) Coletores: veículos de tamanho médio, que levam passageiros das áreas de grande fluxo dos bairros para os corredores;

c) Intra-bairro: linhas circulares de veículos pequenos que levam das áreas residenciais e de pequeno comércio às áreas mais densas da região e aos corredores.

Para o prefeito, a concorrência vai completar o projeto iniciado em 2004 com o Bilhete Único, na gestão Marta Suplicy (PT): "Fizemos uma primeira grande licitação e, com o aprendizado de dez anos, vamos fazer outra grande mudança. Nesses anos, o transporte melhorou e agora vai melhorar ainda mais".

Segundo o secretário dos Transportes, Jilmar Tatto, a estatização das garagens é condição prévia para permitir que mais empresas entrem na concorrência, aumentando o capital disponível e pressionando custos para baixo.

Numa cidade que tem um dos metros quadrados mais caros do planeta e onde faltam áreas para as mais diversas atividades (de creches a praças), a falta de garagem é o principal obstáculo para que mais empresas possam explorar o sistema.

A prefeitura vai se apropriar das garagens e depois disponibilizá-las aos ganhadores da nova concorrência, cujo processo terá início em fevereiro ou março.

Na avaliação de Tatto, diversos grupos empresariais que não operam na cidade poderão entrar na licitação.

Batalha decisiva na Câmara


Batalha decisiva

Ao contrário de dois anos atrás, quando a eleição do deputado Henrique Alves (PMDB-RN) para a Presidência da Câmara foi um passeio, o pleito de amanhã para o mesmo cargo será objeto de intensa disputa. Explica-se. Haverá uma espada de Dâmocles sobre Dilma Rousseff caso Eduardo Cunha (PMDB-RJ) confirme o favoritismo que construiu no último biênio. Para evitá-la, o PT lançou candidato próprio, Arlindo Chinaglia (PT-SP).

A guerra entre o parlamentar carioca e a presidente da República remonta pelo menos ao início de 2011, época em que a mandatária tinha força para fazer faxina. Naquela circunstância, Dilma tirou da direção de Furnas o indicado por Cunha. A estatal tem orçamento bilionário e o controle da mesma é disputado a tapa, por motivos não propriamente republicanos. O legislador parece nunca ter perdoado o gesto.

De lá para cá, houve sucessão de conflitos. Convertido em líder peemedebista no começo de 2013, Cunha comandou rebeliões da segunda maior bancada contra o governo. O mais espetacular dos levantes ocorreu em 11 de março passado, quando por 267 votos a 28, os parlamentares decidiram criar comissão externa para investigar denúncias contra a Petrobras na Holanda. A Operação Lava Jato seria deflagrada uma semana depois.

Este é o ponto crucial. O escândalo em curso constitui exceção à regra nas denúncias, investigações e intrigas que acompanham a política. Na esteira da Ação Penal 470, o caso agora em pauta tem potencial para abalar todo o establishment e ninguém sabe ao certo até que camadas vai perfurar.

Em primeiro lugar, pelo volume de dinheiro envolvido. Embora seja imprecisa a quantia mobilizada, fala-se em cifras astronômicas. Em segundo, pelo fato inédito de ter-se detido altos executivos de enormes empreiteiras. Empresas de construção são personagens de negócios questionáveis com o Estado desde sempre, mas dirigentes detidos é raro ver.

And last, but not least, as construtoras podem enredar figuras dos três maiores partidos (PT, PMDB e PSDB), sobretudo se também for investigado o cartel dos trens em São Paulo. Num clima social marcado pelo que "se vayan todos" --recessão, falta de água, falta de energia etc.-- as notícias geram clima de "se gritar 'pega ladrão' não sobra um, meu irmão".

A vantagem de Dilma no contexto confuso e instável é a reconhecida honestidade pessoal, atestada até pela oposição. Ainda assim, ter na chefia da Câmara inimigo declarado e pertinaz é problema para qualquer ocupante do Planalto. Segundo na linha sucessória, o comandante da Casa do Povo tem o poder de arquivar --ou não-- qualquer eventual e, mesmo que por completo descabido, pedido de impeachment.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Negócio de ocasião

Alemanha e Grécia: faça o que digo, não faça o que faço


A Alemanha, grande credora de muitos países europeus e locomotiva econômica da Europa, é a principal propugnadora política das medidas de austeridade que a chamada Troika impõe implacavelmente ao continente.

Na Grécia, principal vítima desse "austericídio" econômico, as coisas só pioram. Com efeito, mesmo cumprindo rigorosamente as medidas impostas pela Troika, à custa de sofrimento indizível de sua população, a relação entre dívida e PIB na Grécia subiu de 105%, em 2008, ano em que a crise se iniciou, para 175%, em 2014. Com a economia encolhida em 20%, não há como melhorar essa relação. Quanto mais a Grécia paga, mais ela deve.

Os ortodoxos, no entanto, defendem as medidas contraproducentes, com o argumento, entre outros, de que os contratos, inclusive os relativos às dívidas soberanas, devem ser escrupulosa e estritamente cumpridos, sob pena de se criar instabilidade e insegurança no "mercado", as quais impediriam a suposta recuperação dos investimentos e do crescimento.

Alguns até argumentam que a Alemanha, terra de gente séria e trabalhadora, sempre cumpriu escrupulosamente seus contratos e honrou suas dívidas até o último centavo. A Grécia e outros países "irresponsáveis" e "gastadores" deveriam se inspirar nesse exemplo edificante.

Não é bem assim. Na posição de devedora, a Alemanha do primeiro ministro Konrad Adenauer, uma das lendas da reconstrução européia do pós-Guerra, teve um comportamento bem diferente daquele exibido por Angela Merkel, a principal responsável pelo sufoco da população grega.

Além de ter entrado em "default" várias vezes ao longo da década de 1930, em virtude da crise mundial e das imposições draconianas impostas pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha acabou se beneficiando, no pós-guerra, de uma profunda e generosa reestruturação de suas dívidas.

No início da década de 1950, a Alemanha Ocidental, desejosa de se reintegrar ao sistema econômico mundial, iniciou uma série de negociações com os EUA, a França e a Grã-Bretanha para resolver o problema de suas pesadas dívidas.

O quadro não era fácil. Em virtude de seus vários "defaults", da suspensão definitiva de muitos pagamentos pelo governo nazista e da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha era vista, pela maior parte dos credores externos, como um país "irresponsável" no tratamento de suas dívidas e "hostil" à propriedade de estrangeiros. Na realidade, havia 20 anos que a Alemanha tinha reduzido ou suspendido os pagamentos da dívida, em franca violação aos contratos firmados.

Os britânicos, em particular, queriam impor o pagamento total das dívidas contraídas no pré-guerra e no pós-guerra e exigiam o respeito estrito aos contratos assinados.

Entretanto, o chanceler alemão da época, Konrad Adenauer deixou claro, desde o início, que as negociações deveriam ter como objetivo principal a "normalização" das relações econômicas e financeiras da Alemanha com os outros países e que elas deveriam levar em consideração o fato de que o país passava por uma redução de sua afluência e riqueza. Em outras palavras, Adenauer reconhecia as dívidas, mas condicionava seus pagamentos à capacidade efetiva da Alemanha Ocidental de realizá-los.

Após negociações muito difíceis, os EUA resolveram "bancar", em linhas gerais, a posição alemã e forçaram os britânicos, franceses e credores de outras nacionalidades, inclusive gregos, a assinarem o famoso Acordo de Londres sobre a Dívida, de 1953.

Tal acordo se baseava em três princípios essenciais.

Em primeiro lugar, ele reduzia substancialmente tanto a divida alemã do pré-guerra, quanto a do pós-guerra. Em 1953, a dívida da Alemanha contraída no pré-guerra ascendia a 13,5 bilhões de marcos, ao passo que a dívida contraída no pós-guerra totalizava 16,2 bilhões de marcos. Pois bem, o acordo as reduziu para 7,5 bilhões de marcos e 7 bilhões de marcos, respectivamente. Assim, com uma canetada, a dívida total da Alemanha foi reduzida a menos da metade.

Em segundo lugar, os prazos para pagamentos foram consideravelmente dilatados. O acordo previa até mesmo que, no período de 1953 até 1958, a Alemanha Ocidental ficava isenta de amortizar o principal da dívida, restringindo-se aos pagamentos de juros, os quais também foram reduzidos pelo acordo.

Em terceiro lugar, e muito mais importante, o montante dos pagamentos da dívida ficava condicionado à capacidade da Alemanha Ocidental de realizar transferências para o exterior. Assim, os pagamentos anuais não podiam exceder, em valor, 5% do total das exportações germânicas. Tal cláusula assegurava que o pagamento da dívida não se faria à custa de uma redução do consumo doméstico alemão e, por consequência, dos empregos e dos salários dos trabalhadores germânicos. A Alemanha pagaria apenas uma fração daquilo que conseguisse exportar.

Com isso, criava-se também um incentivo para que os países credores da Alemanha importassem produtos Made in Germany, o que estimularia a recuperação alemã.

Além desses três princípios, o acordo continha outros dispositivos que beneficiavam a Alemanha devedora. Por exemplo, os contratos da dívida do pré-guerra possuíam cláusulas que atrelavam à dívida ao preço do ouro, como forma de defender os credores da inflação alemã. Contudo, o Acordo de Londres acabou o usando o dólar como referência de valor. Como os EUA tinham desvalorizado a sua moeda em relação ao ouro, esse dispositivo reduziu adicionalmente a dívida alemã.

O Acordo de Londres também permitia que parte dos pagamentos fosse feita em marcos alemães, em vez das moedas dos credores, como dólares, francos ou libras esterlinas. Isso permitia que parte da dívida pudesse ser paga com a emissão de moeda nacional. Embora Alemanha não tenha abusado dessa cláusula, ela possibilitava, eventualmente, uma válvula de escape.

O resumo dessa generosa ópera londrina é que a Alemanha, beneficiada pela racional reestruturação de suas pesadas dívidas e estimulada também pelos aportes do Plano Marshall conseguiu, em pouco tempo, se transformar, de novo, numa das principais economias do mundo.

Entre 1953 e 1963, a Alemanha Ocidental simplesmente mais que duplicou o seu PIB, transformando-se numa grande exportadora de produtos industrializados para toda a Europa. Os pagamentos da dívida, que se tornaram fixos em 765 milhões de marcos a partir de 1958, ficaram cada vez mais insignificantes, em proporção às enormes e crescentes exportações alemãs.

Em meados da década de 1960, a maior parte dos empréstimos já havia sido quitada e, em 1970, a dívida alemã era residual.

Em retrospectiva, não há quem não reconheça que, além da competitividade industrial e tecnológica alemã, o Acordo de Londres teve papel significativo no "milagre alemão do pós-guerra".

Um acordo desse tipo, que racionalmente condiciona os pagamentos da dívida à capacidade efetiva de honrá-los, sem levar o país devedor à recessão destruidora e inútil, é tudo que a Grécia e outros países europeus necessitam. Afinal, a Grécia generosamente assinou o Acordo de Londres, na condição de credor de uma Alemanha então financeiramente "irresponsável".

Tsipras e o Syriza querem, democraticamente, levar essa discussão para o seio da União Europeia, visando não apenas salvar a Grécia, mas também a própria integração europeia.

As circunstâncias internacionais e nacionais são, é óbvio, inteiramente diferentes, mas o princípio básico consagrado no Acordo de Londres permanece: contratos e acordos só funcionam se forem sustentáveis. Contratos que reduzem a capacidade de pagamento de países devedores e arruínam suas economias são, ao contrário, insustentáveis e irracionais.

Tsipras, engenheiro de profissão, homem cartesiano, quer injetar um pouco de racionalidade na ortodoxia cega.

O Acordo de Londres foi elaborado porque os EUA tinham um objetivo estratégico de longo prazo: fazer a Alemanha Federal e a Europa Ocidental se reerguerem, de modo a enfrentar o "perigo soviético".

Resta ver se a Alemanha ainda aposta no objetivo estratégico de manter a União Europeia unida na prosperidade, da qual tanto se beneficia. Caso ainda persiga tal objetivo, será necessário dar ao devedor grego tratamento semelhante ao recebido pelo devedor alemão.

Médicos brasileiros


Proibido comer crianças


Refinaria de Pasadena não causou prejuízo à Petrobras

O voto político do ministro José Jorge

Em seu voto, o ministro José Jorge, do Tribunal de Contas da União, faz malabarismos para defender a tese política de prejuízo na compra da refinaria de Pasadena (EUA) pela Petrobras, em 2006, quando eu presidia a companhia.

Somente tal motivação é capaz de explicar uma série de erros de interpretação cometidos por um ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso e candidato a vice de Geraldo Alckmin na dobradinha PSDB-PFL na eleição presidencial de 2006. O erro fundamental é tratar a compra da refinaria como se fosse uma obra a ser construída do zero.

Ele toma uma determinada avaliação feita por uma consultoria contratada pela Petrobras que fez 27 avaliações de cenários futuros sobre o Valor Presente Líquido (VPL) da refinaria –variando de US$ 84 milhões a US$ 1,16 bilhão– como se fosse o orçamento "correto" de uma obra. Compara o valor com o preço pago, depois de quatro anos de conflitos arbitrais e judiciais, e batiza o resultado como prejuízo.

A aquisição de empresas, diferentemente das obras, não se mede pelo seu custo histórico, mas, sim, pelo que se espera de geração de receitas e lucros no futuro. O VPL calcula, portanto, quanto o fluxo de caixa futuro supera o valor investido.

O ministro José Jorge não leva em consideração que o Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) feito pela Petrobras, e endossado por pareceres externos, apresentava um VPL positivo para a aquisição de Pasadena. Não leva em conta ainda que a consultoria fora contratada para desenhar vários cenários possíveis, e não para determinar um preço-alvo para a compra.

Esses cenários levaram em consideração diferentes hipóteses sobre o futuro e sobre os investimentos e serviram de insumo para o estudo preparado pela Petrobras.

O voto do ministro relator também não considera a métrica mais usada para comparação de compra de refinarias, que é o valor em dólar de cada barril de capacidade diária de destilação. Em 2006, ocorreram cinco grandes transações de compra de refinarias nos EUA, com outras seis transações no Canadá, na Colômbia, na Alemanha, na Índia, em Israel e na Lituânia.

A média dessas 11 transações foi de US$ 10,4 mil por capacidade de destilação diária, sendo de US$ 9,3 mil nas transações nos EUA. Os primeiros 50% de Pasadena foram adquiridos, incluindo as operações de comercialização, por US$ 7,4 mil nessa métrica, ou seja, abaixo do preço de mercado. Assim, também não se pode falar em prejuízo.

Depois de adquirida a empresa há de se comparar o seu desempenho com o esperado na época da aquisição. Os estudos da aquisição projetavam margens para a refinaria de 2006 a 2014 que, somente em 2006 e 2008, foram superiores às efetivamente realizadas, sendo mais pessimistas do que a realidade em todos os outros anos até 2012.

Portanto a Petrobras foi conservadora nas suas avaliações do futuro da refinaria, contrariamente à conclusão equivocada de José Jorge. A origem do erro do ministro é comparar margens líquidas com margens brutas e afirmar o inverso do que efetivamente ocorreu na avaliação conservadora feita pela Petrobras. Prova disso é que os resultados operacionais de Pasadena foram muito melhores do que os projetados em 2006, somando quase US$ 800 milhões entre 2006 e 2012.

Por isso, a compra da refinaria de Pasadena, vista sob vários aspectos, não resultou em prejuízo à Petrobras, sendo correta a decisão tomada pelo Conselho de Administração da empresa em 2006 ao validar a transação. Essa é a explicação que faço em minha defesa no TCU.

Não há como se falar em erro na aquisição porque toda a negociação seguiu as regras de governança da empresa e a proposta se sustentou em pareceres independentes de consultorias especializadas.

O voto do ministro José Jorge, inexplicavelmente, também ignora a conclusão da primeira equipe de fiscalização do tribunal que se debruçou sobre o negócio durante três meses e concluiu que não houve qualquer prejuízo. Ignora também a extensa defesa feita pela Petrobras, em janeiro de 2014, na qual os erros de interpretação sobre o cálculo do Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica são minuciosamente corrigidos.

Por que, então, o voto do ministro relator se cala sobre as conclusões da equipe que mais tempo analisou os dados de Pasadena ou ainda sobre a defesa da Petrobras? Onde está o prejuízo que o ex-ministro de FHC insiste em afirmar?

Na lógica cartesiana, somente a motivação política explicaria a supressão da verdade –incontestável diante dos números– e a insistência, por parte do ministro, em uma leitura enviesada de um prejuízo que nunca existiu.

JOSÉ SERGIO GABRIELLI DE AZEVEDO, 65, economista, foi presidente da Petrobras (2005-2012)

Congressistas indignados


Anais da política

Eduardo Cunha é um líder sindical do submundo político brasileiro


Desde Célio Borja em 1975, um representante do Rio de Janeiro não se elege presidente da Câmara dos Deputados. O tabu de 40 anos pode ser quebrado no domingo com a vitória de Eduardo Cunha. Que legal, não?

Resposta de quem acompanha um pouquinho a política do Rio, dominada há 12 anos pelo partido-empresa de Cunha, o PMDB: não.

O resultado poderá coroar aberrações que passaram a ser aceitas como verdades. Exemplos:

1) ser político é um ofício da iniciativa privada, tão bem-sucedido quanto maior for a ingerência sobre o destino de recursos públicos --que deixam de ter destino público;

2) a função primeira do Legislativo é chantagear o Executivo para conseguir o máximo de cargos e verbas. É um jogo que zera após cada votação importante, o que o torna interminável e de rentabilidade segura. Não se discutem projetos para o país, mas oportunidades de negócio;

3) em sendo uma categoria profissional, os políticos precisam ser representados por associações de classe, que organizam suas reivindicações. Eduardo Cunha é um líder sindical, um Lech Walesa do submundo político brasileiro.

Em fevereiro de 2005, Severino Cavalcanti foi eleito pela maioria fisiológica da Câmara, desafiando o governo Lula. Em maio, anunciou seu preço: indicar um nome para "aquela diretoria que fura poço e acha petróleo" na então forte Petrobras. Caiu em setembro acusado de receber um mensalinho de R$ 10 mil do concessionário do restaurante da Câmara.

Saudades de Severino. Era um amador, praticante do fisiologismo-arte. Cunha joga o fisiologismo-força.

Firme em sua milionária campanha, indica se sentir inalcançável pela Operação Lava Jato. O juiz Sergio Moro vai ficar devendo essa ao Brasil.

Se vencer, Eduardo Cunha entrará nos anais do Rio. E de todos os brasileiros.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A indecência de alguns decentes

O brasileiro sente-se inseguro na sua pele. Uma de suas formas de se sentir seguro é afirmar-se decente, muito decente, e mais que isso: só ele é ético, os outros não.


Um dia, no tempo da grande inflação, tomei um táxi, para uma distância relativamente curta. O motorista falou mal de toda a desonestidade que campeava no Brasil. Tinha plena consciência do que acontecia de errado. Todas as suas palavras respiravam uma intensa preocupação com a ética. Quando chegamos a nosso destino, ele pegou a tabela – naquela época o custo era expresso em URVs, ORTNs, unidades de valor que nem mesmo eram a moeda corrente – e fez a conversão num preço que, notei, estava errado. Ele tinha puxado para cima o que eu lhe devia. Não reagi, porque era mais tímido do que hoje, na época havia alguns motoristas agressivos e, afinal, não era tanto dinheiro. Mas fiquei matutando. Por que tanta ênfase na ética, a ponto de ser seu único assunto – e, depois disso, uma conduta tão antiética? Eram dois extremos convivendo na mesma pessoa, ao mesmo tempo.

Penso que aí está uma das chaves para entender nosso país. Vivemos desta contradição.

Não foi à toa que em 1989 o Brasil elegeu um presidente com base só na pregação contra a corrupção – o qual depois seria afastado como corrupto. Na sua campanha não falou em política econômica, mas apenas no combate intransigente aos marajás, funcionários que ganhavam salários excessivamente altos em sua Alagoas. Fernando Collor de Mello se tornou em 1992 o único presidente da República processado e condenado por corrupção, no tribunal competente, no caso o Senado – do qual, ironicamente, ele hoje é membro. Passam-se anos, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, constrói forte fama junto à direita brasileira como paladino da ética. Dá várias capas à revista Veja, que o celebra como exemplo de homem público – até que se descobre que está envolvido em questões eticamente condenáveis e é cassado por seus pares, em 2012, embora ainda hoje não tenha sido condenado na Justiça comum.

A pergunta fica: por que tanta mentira? Explica-se isso apenas por uma propensão pessoal, ou é uma máscara escolhida de propósito?

Minha hipótese é que a identidade brasileira é frágil. O brasileiro sente-se inseguro na sua pele. Uma de suas formas de se sentir seguro é afirmar-se decente, muito decente, e mais que isso: só ele é ético, os outros não. O país não dá certo porque sou o único direito no meio de bandidos.

Talvez seja hora de tomarmos mais cuidado com todos os que se proclamam campeões da decência ou da luta contra a corrupção e o crime. Afinal, sabemos desde Freud que muitas vezes, quando alguém insiste demais num tema, é porque afirma o contrário do que é ou do que acredita. Na verdade, desde o Tartufo de Molière, sabemos que muito puritano é na verdade um devasso enrustido. Da mesma forma, pregadores da decência podem apenas estar mascarando sua desonestidade. Alguns deles não hesitam em mentir – o que, na cena pública, é uma das ações mais antiéticas que se possa cometer. Prestar atenção nos exageros do autoelogio reduz nossas chances de nos enganarmos. Ética não é brincadeira.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve quinzenalmente no caderno PrOA

Economize água!

Gustavo Gindre

Segundo a própria indústria (portanto, esses números devem ser ainda maiores), para produzir um litro de cerveja gasta-se 4,5 litros de água. Para produzir um quilo de alumínio, gasta 250 litros de água. Para produzir um quilo de papel branco (daqueles que usamos em nossas impressoras) são necessários cerca de 500 litros de água. E para produzir um quilo de carne bovina, gasta-se cerca de 15 mil litros de água.

Tá aí todo ensaboado com o chuveiro desligado e se achando um patriota? Trouxa!!!!

O poder da ideologia


Não concordo com a tese de que a direita é sempre mais responsável economicamente - até porque para ela a economia é crucial - e a esquerda, irresponsável. As melhores provas temos no agora defunto governo que destruiu a Grécia, e no em breve expelido governo português, que tem se empenhado em fazer o mesmo com Portugal.

Isso é o poder da ideologia!! Os caras veem que estão acabando com a economia do País, mas a crença no ideário (neo?)liberal os paralisa a tal ponto que não conseguem agir de outro modo.

Por isso, não critico os dois governos de direita apenas pelo desastre social que causaram. Mas também pelo desastre econômico.

As sombras de Auschwitz

Mauro Santayana

O mundo comemorou, ontem, na Polônia, os 70 anos da libertação (foto), por soldados da antiga União Soviética, do campo de extermínio de Auschwitz,  talvez o mais terrível exemplo do exercício da discriminação e do mal, na história humana,  e da máquina de genocídio nazista.

Auschwitz destacou-se, entre os outros e numerosos campos de concentração e de extermínio. 

Não pela perversidade de seus oficiais, dos guardas e dos kappos, prisioneiros que controlavam as barracas em que se amontoavam, às centenas, seres humanos esquálidos e  sub-alimentados, doentes e torturados pelas ameaças, as pancadas, o frio e assombrados pela perda de seus pais, mulheres e filhos, assassinados, muitas vezes, na sua frente,  comuns a outras sucursais do inferno, como Sobibor, Maidanek, Belsen e Treblinka.

Mas, principalmente, por sua escala inimaginável, gigantesca, da qual tomava parte o campo vizinho de Birkenau, e pela organização metódica, planejada, de suas instalações. Elas foram planejadas para o roubo dos pertences, a exploração e a morte de milhares de pessoas por dia, da recepção dos prisioneiros, em sua dantesca estação ferroviária, até sua execução a tiros, por extenuação, espancamento ou em câmaras de gás, com a posterior destruição do corpo em fornos crematórios, em uma especie de matadouro tão bem organizado, que tudo era aproveitado, do ouro das jóias e dos dentes, ao cabelo dos prisioneiros, usado para forrar botas de inverno.

O fato de o presidente Vladimir Putin, líder do país herdeiro da URSS, potência que libertou Auschwitz, e venceu a batalha de Berlim, derrotando a Alemanha Nazista e levando Hitler ao suicídio, não ter sido convidado, é significativo.

Principalmente, quando se leva em consideração, que, na cerimônia,  como convidado, esteve presente Petro Poroshenko, presidente da Ucrânia, país de origem de muitos dos guardas que trabalhavam em Auschwitz, e em outros campos, auxiliando prazeirozamente os SS nazistas, na vigilância, tortura e morte de milhares de homens, mulheres e crianças das mais diferentes origens.

Na Ucrânia de hoje, desfilam orgulhosamente neonazistas, e cresceram, vertiginosamente, depois da derrubada do governo que estava no poder anteriormente,  os ataques a judeus, ciganos - dos quais milhares também morreram em Auschwitz - e outras minorias.   

Por mais que os revisionistas e deturpadores da história - extremamente ativos nos últimos tempos -  insistam em equiparar russos e nazistas, a verdade é que quando um criminoso nazista era capturado pelos soviéticos, ele era julgado, e na maioria das vezes, condenado  à morte ou a pesadas penas de prisão, enquanto a maioria dos que foram apanhados pelos norte-americanos e pelos alemães ocidentais, mais tarde, permaneceram impunes, ou se tornaram colaboradores de organizações como a CIA durante a Guerra Fria -  morrendo gordos e velhos, na cama, como não mereciam.

Sessão da tarde


Tudo que você precisa saber sobre a crise hídrica

Palmério Dória

Do Carlos Brickmann:

"Las Vegas, no meio de um deserto, nunca teve problemas de falta dágua. Israel, com muito menos chuva do que qualquer região brasileira, dispõe de água para a população e exporta verduras e frutas. Na Espanha, é nas regiões mais secas que se produzem os melhores melões - e alguém já ouviu falar em "restrição hídrica" (apelido tecnocrático de falta d'água), na Espanha?"

Dislexia política


Numa notícia sobre o aumento de 80% nas diárias de viagem dos ministros que o STF se autoconcedeu, centenas de pessoas nos comentários reclamam da Dilma, do PT e do "governo". Osso.

O STF, qualquer pessoa deveria saber, pertence ao Poder Judiciário (na minha opinião, o mais nefasto dos três pilares da República, data venia). 

Essa dislexia política é algo que ultrapassa a ignorância e se aproxima de alguma sociopatia.

Assim fica difícil discutir esse país...


Dilma, Vargas e o zepelim


A Geni de Chico Buarque acostumou-se em ser atacada a pedradas por onde quer que passasse. Até que um dia, com a chegada do zepelim, teve a oportunidade de enfrentar seus agressores, mas preferiu ceder. Talvez com a esperança de apaziguá-los ao fazer sua vontade. Mal foi embora o zepelim, as pedradas vieram em dobro e com fúria ainda maior.

Dilma apanhou da direita durante todo o ano de 2014. Teve dificuldades para aprovar qualquer coisa no Congresso, viu o ministro Gilmar Mendes acusar o bolivarianismo e boa parte de sua base aliada migrar para a candidatura de Aécio Neves (PSDB). Sofreu um massacre midiático escandaloso durante a campanha eleitoral. E, mais que tudo, viu parte da elite econômica que tanto ganhou nos governos petistas segurar investimentos e fazer a bolsa oscilar a cada pesquisa de intenção de voto.

Ganhou as eleições, num clima de mobilização social e com um discurso mais à esquerda. Os comícios do segundo turno mobilizaram uma base social e militante em defesa de mudanças e contra o retrocesso. Dilma, ao invés de apoiar-se nesta base para propor mudanças progressivas, decidiu fazer a vontade dos derrotados e encarnar o retrocesso.

Acreditou que apaziguaria a direita dando-lhe boa parte dos ministérios e entregando a gestão da economia ao Bradesco. Caiu no conto da Geni. A posição da maior parte da mídia contra seu governo permanece intacta e o Congresso Nacional irá extorqui-la a cada votação até o limite. Sem contar a ameaça real de eleger o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) presidente da Câmara na próxima semana, o que tornará sua "governabilidade" ainda mais conservadora.

Deveria ter aprendido com o trágico fim de Getúlio Vargas. Vargas retornou à presidência em 1951 após eleições com grande mobilização popular no ano anterior. Mas diante de um parlamento hostil –como Dilma– optou por desmobilizar as forças que o elegeram e compor um ministério ao agrado das elites mais atrasadas.

A pretensão de apaziguamento fracassou. Carlos Lacerda tramava um golpe por dia, usando a imprensa a seu favor. O parlamento é seu próprio ministério inviabilizaram o programa de governo.

E quando decidiu, em 1953, romper o cerco com medidas populares –criação da Petrobras e Eletrobras, limitação da remessa de lucros e aumento de 100% no salário mínimo– já não podia mais contar com sua base de apoio, desmobilizada por ele próprio. Atacado por todos os lados, restou-lhe o suicídio em 24 de agosto de 1954.

O que esteve em questão, tanto em 1950 quanto em 2014, foi a atuação de uma elite que não tolera concessões e quer sempre mais. Não aceita regulamentar seus privilégios, mesmo que os mantenha. Não aceita mobilidade social, mesmo permanecendo no topo. Não aceita que alguém governe por ela, mesmo que em nome de seus interesses. A denúncia lacerdista do "mar de lama" é sua política, ontem e hoje. O monopólio da mídia e a chantagem parlamentar são seus instrumentos.

Pontuemos bem os fatos. Dilma não deu uma guinada da esquerda para a direita. Os governos petistas, de Lula a Dilma, nunca foram propriamente de esquerda. "Menas", disse ela na campanha quando confrontada com palavras de ordem socialistas de seus apoiadores. Em momento algum dos últimos doze anos foram pautadas as reformas necessárias para combater as desigualdades estruturais da sociedade brasileira.

Mas mesmo uma tímida política social e algumas pitadas de desenvolvimentismo na economia são inaceitáveis para esta elite financeira e seus aliados. Querem mais. Querem neoliberalismo puro sangue, aumento da taxa Selic todo mês e superavits estratosféricos para pagar os credores da dívida, diga-se de passagem, eles próprios.

Querem um plano para privatizar a Caixa Econômica Federal e reduzir direitos trabalhistas. Querem também um ajuste fiscal rigoroso que corte investimentos sociais.

Em três meses pós-eleições, Dilma fez ou anunciou tudo isso. Se pretendeu com isso buscar um ponto de Arquimedes e ganhar segurança para alavancar futuros avanços políticos, faltou-lhe a memória da tragédia de Vargas. A elite brasileira vai querer sempre mais. Sempre haverá um novo direito a atacar, um novo corte a fazer e 0,5% de juros a aumentar. Sempre haverá um Eduardo Cunha e ameaças de CPIs como chantagem.

O cerco permanecerá firme e forte, insaciável. Na história política brasileira, um passo atrás não costuma ser seguido de dois à frente, mas sim de novos recuos. Que o diga Geni com suas pedradas.

Desajustes dos discursos


O pronunciamento de Dilma foi a adesão à velha lenga-lenga dos apertos agora para as benesses sociais depois

A CUT, lembra-se?, a CUT vive. Trazê-la de volta à vida, ainda que logo mostre ser apenas um momento nostalgia, foi a única novidade da associação Joaquim Levy/Dilma Rousseff que não feriu direitos de quem trabalha ou trabalhou. E pode até servir aos trabalhadores, nesta e nas previsíveis horas futuras de novos arrochos e outras "medidas corretivas", assim tucanamente batizadas por Dilma.

É dispensável entrar na divergência sobre quantos milhares atenderam à convocação da CUT, para manifestar-se na av. Paulista já na manhã seguinte ao pronunciamento de Dilma. O sentido do ato vale mais.

O pronunciamento de Dilma Rousseff, na abertura da primeira reunião ministerial, foi a adesão à velha lenga-lenga dos apertos agora para as benesses sociais depois. A doutrina FMI, que retardou o Brasil e massacrou a maioria dos brasileiros por 40 anos, da década de 1960 à entrada nos anos 2000, e há pouco desgraçou Portugal, Espanha, Itália e Grécia.

Além das contradições entre atos e palavras, as contradições entre palavras e palavras expõem a encenação do discurso. Diz Dilma que "o equilíbrio fiscal" vai "recuperar o crescimento da economia o mais rápido possível". Joaquim Levy tem repetido que "o ajuste" vai ser "longo, há muito a fazer". Já foram mencionados dois anos de "ajuste". E o que está em questão não é produzir crescimento econômico, é criar distribuição de renda, que o crescimento não traz por si mesmo. Crescer e concentrar em 10% da população, se tanto, a riqueza produzida e os benefícios do crescimento é o que faz o enredo da história do Brasil no século passado.

Vão nessa direção as medidas que introduzem a ação de Joaquim Levy na Fazenda. E assim serão as seguintes, porque a base teórica da sua linhagem em economia o antecipa. Pedro Malan, Gustavo Franco, Armínio Fraga, Luiz Carlos Mendonça de Barros, Alexandre Schwartsman e tantos outros da mesma linhagem que passaram pelo governo jamais permitiram que se ouvisse deles uma só palavra que não se ajustasse ao conservadorismo econômico, logo, também social. Levy, em situação delicada, talvez fale, mas não age.

Disse Dilma que o "ajuste" criará "condições para a queda da inflação e da taxa de juros a médio prazo". E, não mencionou, queda de outras coisas também, como emprego, valor do salário, vários direitos, investimentos com alcance social e mais. Joaquim Levy a contraria e diz que a inflação deste ano será maior que a de 2014. Os juros, idem. Os do cheque especial, que castigam quem trabalha e por falta de reserva cai nessa masmorra bancária, já chegam a 206%. Acima dos 204% que alcançaram naquele ano, o 1999 de Fernando Henrique, em que Gustavo Franco, Francisco Lopes e Pedro Malan se uniram no besteirol que quase destrói o real.

Mas Dilma se refere a "médio prazo". Qual seria? Metade do seu governo, pode ser. Então, como o seu é "um governo dos trabalhadores", os dois últimos anos seriam para a tentativa de recuperação do perdido nos dois anteriores. Ao final, na mais generosa das hipóteses, zero a zero. Para os trabalhadores da CUT, o mesmo que outro 7 a 1.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O êxodo paulista

Charge de João Montanaro

A coxinha da serpente


Novas regras do rodízio são divulgadas


Bomba: Alckmin é petista desde criancinha!


Governo Alckmin toma medicais radicais para combater crise hídrica


Tô nem aí


No primeiro dia, governo grego cancela privatizações

Carta Maior

O novo ministro da Energia da Grécia, Panagiotis Lafazanis, anunciou esta quarta-feira que vão ser cancelados os planos de privatização da Empresa Pública de Energia (DEH, sigla em grego), da qual o Estado grego ainda é o acionista maioritário.

Energia gratuita a 300 mil lares

A chamada “liberalização do mercado energético” foi uma das condições impostas pela troika à Grécia. O governo anterior tinha aprovado legislação para vender 30% da empresa aos grupos privados, mas o Syriza prometera durante a campanha cancelar esse e outros planos de privatização. A promessa está assim a ser cumprida no primeiro dia do governo liderado por Alexis Tsipras.

Lafazanis disse ainda que a eletricidade e o gás natural são muito caros na Grécia e não ajudam os cidadãos, anunciando que o governo vai preparar um novo plano para a energética. Para já, disse o ministro, o governo irá fornecer energia gratuita a 300 mil lares de famílias que viram o fornecimento cortado por não conseguirem pagar as contas.

Porto do Pireu também não será privatizado

Também a privatização do porto do Pireu, o maior da Grécia, foi suspensa. O governo anterior estava a vender 67% da Autoridade Portuária do Pireu ao Grupo Cosco (chinês). “O negócio com o Cosco será revisto em benefício do povo grego”, disse o vice-ministro Thodoris Dritsas, esclarecendo que o caráter público do porto do Pireu será mantido.

Também o ministro adjunto para a Infraestrutura, Christos Spirtzis, anunciou o cancelamento da privatização de infraestruturas, como os aeroportos. Entre outras medidas, o governo anterior previra a privatização de 14 aeroportos regionais e a venda de milhares de hectares do antigo aeroporto de Atenas.


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Profissão: Perigo

Globo não ataca o Governo, ataca o Estado nacional

J. Carlos de Assis*

O noticiário da Globo é tendencioso. Ninguém que seja medianamente informado pensará diferente. Entretanto, não sei se as vítimas desse noticiário perceberam que no afã de denegrir o Governo, o que está perfeitamente dentro de suas prerrogativas de imprensa livre, a Tevê Globo, sobretudo nas pessoas dos comentaristas William Wack e Carlos Sardenberg, passaram a atacar o Estado brasileiro, o que sugere crime de lesa-pátria.

O Jornal da Globo de ontem, terça-feira, ultrapassou todos os limites da manipulação no sentido de execrar com a Petrobras através de uma análise distorcida de fatos e estatísticas. Os dois comentaristas tomaram por base valor de mercado, comparando-o com dívidas, para sugerir que a empresa está quebrada. É puro charlatanismo, economia de botequim, violação das mais elementares regras de jornalismo sério.

Valor de mercado não mede valor de empresa; é simplesmente um indicador de solvência de ações num dia no ambiente ultra-especulativo de bolsas de valores. O que mede o valor real de uma empresa é seu patrimônio comparado com seu endividamento. As dívidas que a Petrobras contraiu para suas atividades produtivas, notadamente do pré-sal, são muitíssimo inferiores a seu patrimônio, no qual se incluem bilhões de barris medidos de óleo do pré-sal.

Evidentemente que os dois comentaristas da Globo torcem para que o petróleo fique por tempo indefinido abaixo dos 45 dólares para inviabilizar o pré-sal brasileiro. Esqueçam isso. É uma idiotice imaginar que a baixa do petróleo durará eternamente: a própria imprensa norte-americana deu conta de que os poços em desenvolvimento do óleo e do gás de xisto, os vilões dos preços baixos, tem um tempo de vida muito inferior ao que se pensava antes.

É claro que o preço baixo do petróleo tem um forte componente geopolítico a fim de debilitar, de uma tacada, a economia russa, a economia venezuelana e a economia iraniana – e muito especialmente a primeira. Mas o fato é que atinge também empresas americanas que entraram de cabeça no xisto, assim como países “aliados” que produzem petróleo. No caso do pré-sal, ele só se tornaria inviável no mercado internacional com o barril abaixo de 45 dólares.

Os ataques dos dois comentaristas da Globo à Petrobras têm endereço certo: é parte de uma campanha contra o modelo de partilha de produção  do pré-sal sob controle único da Petrobras, contra a política de conteúdo nacional nas encomendas da empresa e contra a contratação das grandes construtoras brasileiras para os serviços de construção de plataformas e outras obras civis, principalmente de refinarias.

Esses três pontos foram assinalados no discurso de Dilma como inegociáveis. É uma decisão de Estado, não apenas de Governo. Sintomaticamente, os dois comentaristas da Globo sequer mencionaram esses pontos. Preferiram dar destaque maior ao noticiário pingado da Lava Jato, que, cá pra nós, já está ficando chato na medida em que não tem nada realmente novo, mas simples repetição à exaustão de denúncias anteriores.

P.S. Talvez os dois comentaristas teriam maior simpatia pela Petrobras se parassem para dar uma olhada nos anúncios televisivos sobre a performance vitoriosa da empresa,  e que ela está pagando para serem exibidos na Globo, para mim de forma absurda e injustificável.

J. Carlos de Assis - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.


Empresários


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Com Billings, Alckmin pode levar água tóxica à população

Maior parte da represa é contaminada por esgoto, metais pesados e poluentes orgânicos permanentes

por Julio Gardesani, do ABCD Maior

A última proposta do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que pretende utilizar água da represa Billings para conter emergencialmente a crise de abastecimento no estado de São Paulo, pode trazer uma solução perigosa: repassar água contaminada diretamente à população. Isso porque as estações de tratamento dos sistemas Guarapiranga e Alto Tietê – responsáveis pelo abastecimento de quase 10 milhões de pessoas e que passarão a receber água poluída da Billings (medida já anunciada pelo governador) – não têm condições imediatas de ampliar a capacidade de purificação da água.

A maior parte da Billings é infectada por esgoto, metais pesados e Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), consideradas as substâncias mais perigosas e tóxicas do mundo. Uma parte menor está livre desses poluentes. O uso da parcela contaminada da represa implicaria distribuir água imprópria para o consumo, sem tratamento específico, o que pode comprometer a saúde da população.

O alerta é do geógrafo, pesquisador e professor da Unicamp Antônio Carlos Zuffo. “Os reservatórios (Guarapiranga e Alto Tietê) não vão dar conta de fazer o tratamento de água poluída da Billings para atender toda a demanda. Por isso, se quiserem utilizar a água da represa agora, farão apenas a desinfecção com cloro e a mandarão para as residências. Mas essa água não poderá ser consumida sob nenhuma hipótese. A cor será escura e o cheiro tão forte que dará náusea”, afirmou o professor.

Até o momento, nenhuma explicação foi apresentada pelo governador ou pelo presidente da Sabesp (Companhia Estadual de Saneamento Básico), Jerson Kelman, sobre como será realizada a distribuição da água contaminada da Billings. A única proposta apresentada, que pretende interligar o Rio Pequeno ao Sistema Rio Grande (ambos braços da Billings), permitindo a entrada de mais 2,2 metros cúbicos de água por segundo, só vai ficar pronta em 2018. O mesmo ocorre com a ampliação da capacidade de tratamento do Guarapiranga e do Alto Tietê.

O próprio governo do Estado é um dos poluidores da represa Billings. Resolução assinada pelo então governador Mário Covas (PSDB), em 1996, passou a permitir que o rio Pinheiros – dos mais poluídos do país, que recebe diretamente esgoto de milhões de residências da capital, além de detritos industriais – despejasse água contaminada à Billings em caso de chuvas extremas, com o objetivo de impedir alagamentos no centro de São Paulo. O serviço é realizado pela Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A. (Emae).

Se a represa que banha parte do ABC paulista foi “descoberta” pelo governo tucano somente agora, no meio da crise, movimentos e associações de defesa ambiental pedem a despoluição da Billings há mais de 20 anos, como Movimento de Defesa da Vida (MDV), que entrou, em 2010, com ação popular na Justiça contra o bombeamento do rio Pinheiros.

Água tratada

Como insistem em afirmar Alckmin e sua assessoria de imprensa, a água da Billings já é utilizada por meio dos braços Taquacetuba e Rio Grande (que atende a boa parte do ABC). No entanto, diferentemente do volume que seria transferido, a água captada no Braço Rio Grande é purificada para consumo em estações de tratamento. Ou seja: o montante que já é utilizado atualmente da Billings pela população do ABC está chegando à casa da população tratado.

Ainda assim, o ABC já sente o transtorno da falta de água. Isso porque outros sistemas também abastecem as sete cidades, como o próprio Cantareira, que já opera em seu segundo volume morto.

No ABCD, conforme a Sabesp, residências de 88 bairros de São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra passam pela redução de pressão. Contudo, a situação regional é ainda pior, uma vez que a administração de Alckmin não divulga informações sobre municípios que possuem autarquias, como Santo André, São Caetano e Mauá, onde a Sama (Saneamento de Mauá) ampliou o racionamento de água.

Água dá cadeia!


Carta a Stalingrado

Poema de Carlos Drummond de Andrade 

Stalingrado

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.


Do livro Rosa do Povo (1945). In Carlos Drummond de Andrade. Poesia e Prosa. Rio de janeiro, Editora Nova Aguilar, 1983

São Paulo usará nova bandeira devido à crise hídrica


Paulistas poderão ficar sem água cinco dias por semana


Pela primeira vez desde o início da maior crise de abastecimento da Grande São Paulo, a Sabesp apresentou nesta terça-feira (27) um plano de rodízio para a região metropolitana.

Segundo o diretor metropolitano da empresa, Paulo Massato, o esquema funcionaria com cinco dias da cidade sob rodízio e dois dias sem. A declaração foi feita durante a inauguração de uma obra no Alto Tietê, em que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) esteve presente.

O plano seria poupar 15 mil litros por segundo do sistema Cantareira. Massato, no entanto, disse que o cenário só será usado se as chuvas não chegarem e obras feitas pela Sabesp não ficarem prontas antes do esgotamento dos reservatórios. "Se for necessário, para não chegar no zero da represa, sem água nenhuma para distribuir (...) podemos correr esse risco, do rodízio drástico".

Segundo ele, a empresa ainda estuda contratos para viabilizar o plano. Procurada, a Sabesp não detalhou o plano apresentado pelo diretor.

O sistema Cantareira, por exemplo, opera nesta terça-feira (27) com 5,1% de sua capacidade, já contabilizando duas cotas do volume morto, porção de água que fica abaixo das tubulações e que precisa ser bombeada para ser captada.

O Cantareira abastece 6,2 milhões de pessoas na Grande São Paulo e com a chuva desta segunda, o sistema acumulou 21 mm de água. Até agora, o manancial acumula quase a metade do volume esperado para todo o mês de janeiro: 134,2 mm de água –o que equivale a 49,5% da média histórica para o mês (271,1 mm).

Se for levado em conta o ritmo de queda dos reservatórios que abastecem a Grande São Paulo, nas primeiras três semanas de 2015, eles chegariam a zero em cerca de 130 dias.

Luzes, enfim


Uma das propostas do partido grego Syriza, que venceu as eleições gregas neste domingo, consiste em religar a luz das casas que tiveram a eletricidade cortada por falta de pagamento. Só entre janeiro e setembro de 2013, 240 mil residências tiveram sua eletricidade cortada. Hoje, 1 milhão estão com a conta de luz atrasada, ou seja, 10% da população da Grécia.

Esta é uma bela metáfora do que pode significar a vitória do primeiro partido de esquerda radical na história a governar um país da Comunidade Europeia.

A dita racionalidade econômica aplicada na crise grega levou boa parte da população de volta à era das trevas, isto enquanto a banca internacional aplaudia as "reformas" implementadas pelo antigo governo conservador de Antonis Samaras com sua taxa de 25% de desemprego.

Pouco importa se as políticas de "austeridade" e de "responsabilidade fiscal" jogam a população no breu e na fome, desde que as obrigações das dívidas sejam todas corretamente pagas aos bancos internacionais –os mesmos que costumam extorquir seus países quando entram em rota de falência.

Syriza será a primeira expressão, na forma de um governo, de um radical sentimento de recusa a este capitalismo de espoliação e acumulação rentista.

É fruto de um movimento de indignação que apareceu a partir de 2009, que passou pela Primavera Árabe e pelos Occupy.

Trata-se de um partido que não tem nenhuma semelhança com os partidos tradicionais de esquerda. Não é por acaso que o Partido Comunista Grego os odeia.

Sua lógica não é dirigista, nem centralista. Ela é uma frente multipolar composta por múltiplos grupos, de ecologistas a trotskistas, maoístas, nacionalistas e sociais-democratas radicais.

Se há algo na história da esquerda próximo à vitória grega é a experiência chilena de Allende com sua frente de Unidade Popular.

Quarenta anos depois, a história de um socialismo democrático e transformador será jogada novamente. Dessa vez, será aos pés do monte Olimpo.

Representante de uma nova geração política, Syriza tem neste momento a tarefa de sobreviver e ser bem-sucedido contra as tentativas de impedir que o fantasma do descontentamento que assombra a Europa saia de sua forma meramente espectral e ganhe, enfim, corpo político. Um corpo que poderá contaminar outros países e modificar o cenário de inanidade atual.

A favor dos gregos, há o espírito do tempo e o desejo de todos os que cansaram da escuridão, do medo e da miséria, seja miséria econômica, seja miséria de ideias.

Arte

Geso Silva

a arte 
está em toda 
parte
mas
nem tudo é
arte

é arte
apenas aquilo
que 
se produz
contra
o regime geral
da repetição

arte
é
atenção
à
diferença

arte
é
a
diferença
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