quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O Brasil, o "petrolão" e o Triângulo das Bermudas


Nas ultimas semanas, o Brasil tem vivido sob o impacto das notícias da "Operação lava-Jato", que,  em busca de associar ao Mensalão, muitos chamam de Petrolão, esquecendo-se de que, enquanto se eleva esse novo escândalo ao posto de "o maior da história", outros parecem ter se escafedido em um imenso Triangulo das Bermudas, como se tivessem sido reduzidos a pedacinhos pelas lâminas de Freddy Krueger, ou abduzidos por alienígenas. 

Esse é o caso, por exemplo, do "Mensalão do PSDB" - perpetrado, de forma pioneira, com a ajuda do mesmo Marcos Valério, durante o governo do Sr. Eduardo Azeredo, em Minas Gerais. 

Esse é o caso do "Escândalo do Banestado", de desvio de mais de  100 bilhões de reais para o exterior, no qual foram indiciados vários personagens ligados ao governo FHC, incluído o Sr. Ricardo Sérgio de Oliveira, "arrecadador" de recursos de campanhas do PSDB, perpetrado, entre 1996 e 2002, também no Paraná, com a ajuda do mesmíssimo "doleiro" Alberto Youssef,  do atual escândalo da Petrobras.  

Esse parece ser também o caso, do Trensalão  do PSDB de São Paulo, que, apesar de ter tido mais de 600 milhões de reais das empresas envolvidas bloqueados pela justiça no dia  13 de dezembro, parece ter sido coberto por um Manto da Invisibilidade digno de Harry Potter, do ponto de vista de sua repercussão. 

Seria ótimo se - hipocrisias à parte - o problema do Brasil se resumisse apenas a uma briga entre "bonzinhos" e "malvados". 

Está claro que temos aqui, como ocorre em muitíssimos países, bandidos recebendo propinas no desvio de verbas públicas, atuando como "operadores" e facilitadores no trabalho de tráfico de influência, no superfaturamento e na "lavagem" de dinheiro e no envio de recursos para o exterior.  

E também empresários que se acostumaram, com o tempo, a pagar ou a ser extorquidos, a cada obra, a cada licitação, a cada aditivo de contrato, pelos "intermediários" e oportunistas de sempre, e que já sofrem sucessivas paralisações, atrasos e adiamentos nas grandes obras que executam, que ocorrem devido a razões que muitas vezes escondem interesses políticos que nem sempre correspondem aos do próprio país e da população.  

E padecemos, finalmente, ainda, da falta de coordenação e entendimento, entre os Três Poderes da República, em torno dos grandes problemas nacionais. 

Leis, projetos e obras que são essenciais para o futuro do País, não são discutidas previamente entre Executivo, Legislativo e Judiciário, antes de serem encaminhadas para aprovação e execução, o que acaba levando, nos dois primeiros casos, a relações de pressão e contrapressão que acabam descambando no fisiologismo e na chantagem e que afetam, historicamente, a própria governabilidade.        

Na contramão do que imagina a maioria das pessoas, com algumas exceções, ao contrário dos corruptos e dos "atravessadores", os homens públicos - incluindo aqueles que trabalham abnegadamente pelo bem comum - estão muito mais preocupados com o poder, para executar suas teses, ideias e projetos, ou apenas exercê-lo, simplesmente , do que com o dinheiro.  

No embate político, ter recursos - que às vezes chegam de origem nem sempre claramente identificada, pelas mãos de "atravessadores" que se oferecem para "ajudar" -  é essencial, para conquistar o poder, na disputa eleitoral, e nele manter-se, depois, ao longo do tempo.  

Esse é o elemento mais importante da equação. Mas ele só começará a ser resolvido se houver uma reforma política que proíba, definitivamente, a doação de dinheiro privado a agremiações políticas e candidatos a cargos eletivos, promova a cassação automática de quem usar Caixa 2 e aumente a fiscalização do uso dos recursos partidários ainda durante o período de campanha.  



Por mais que sejam importantes, e impactantes, as prisões dos corruptos envolvidos no escândalo da Petrobras e a recuperação dos recursos desviados, se não for feita uma reforma política, de fato, elas não impedirão que mais escândalos ocorram, no financiamento de novas campanhas, já nas próximas eleições. 

Novas propostas do PSDB


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O PT no poder: nossa Bastilha sem revolução e sem guilhotina


Seremos capazes de construir uma nova ordem social sem confronto?
Em exatos 15 dias, entre os dias 15 e 30 de dezembro de 2014, quatro grandes jornalistas, Luis NassifPaulo NogueiraSaul Leblon e o mestre Janio de Freitas escrevem artigos em que tentam racionalizar a insólita crise do governo petista. Três desses grandes jornalistas fazem duras criticas ao PT, um, pelo menos, vê esperanças em um rearranjo das forças progressistas.

Às vésperas da posse de Dilma Rousseff , vencedora da mais acirrada eleição pós-redemocratização, com o PT iniciando seu quarto mandato consecutivo e sendo tais jornalistas esteios do pensamento progressista na imprensa, tais artigos deveriam soar-nos estranhos. Por que então nos parecem tão sensatos?

O PT não é mais o PT.  O “PT de Lutas”, o grande “PT de Lutas”, com sua poderosa base sindical e movimentos populares, não resistiu ao “PT do Lula Lá” que assumiu o governo em 2002. O “PT do Lula Lá” estará subindo a rampa do Planalto com a vitória de Dilma em 2014, o “PT de Lutas” se debate em dúvidas e desencanto.

O desencanto parece ser patente a ponto dos vencedores das eleições presidenciais de 2014 agirem como perdedores e os perdedores cantarem vitória.

Não sem razão. A união de forças da direita sempre existiu, mas ela levar povo às ruas era coisa inaudita por mim em meus mais de meio século de vida. Acham-se fortes para não precisar respeitar decisões democráticas. Chamam para o confronto. Mas elas mesmas nunca foram confrontadas nos governos petistas.

E talvez seja esse confronto inevitável se deseja se construir uma nova ordem social no Brasil.
Por que, então, foi adiado de 2002 até hoje?

Porque inicialmente não havia força para isso e porque no momento certo não travou-se o bom combate.

Vejamos.

A esquerda havia que endurecer, mas apenas lhe restava a ternura.

O PT só foi forte na oposição, quando assume o poder federal, o faz sem poder contar com um movimento de esquerda robusto para confrontar as forças da direita.

Nesse ponto, na falta de confronto às forças reacionárias, retroagiu-se a um estágio anterior aos anos 80, quando um movimento sindical combativo e organizações sociais atuantes, principalmente organizações da Igreja ligadas a Teologia da Libertação, conquistaram junto à burguesia o respeito pelas classes operárias. Em muito, respeito por medo, respeito ainda assim.

Ocorre que entre essa época, os anos 80, e a chegada do PT à presidência, transformações na organização social do Brasil e do mundo minaram esse poder popular.

No mundo, o pontificado de João Paulo II imobilizou os movimentos da Teologia da Libertação e no seio da Igreja católica no Brasil assumiu o poder sua porção conservadora e reacionária paralisando os movimentos sociais que dela dependiam. A queda do Muro de Berlim simbolizou um momento de baixa para a ideologia de esquerda. No Brasil, os governos FHC, que conquistaram corações e mentes com a bandeira socialdemocrata e o engodo do “real forte”, aliam-se ao conservadorismo do “Consenso de Washington” e protegido pelas mesmas forças que hoje se unem contra os governos petistas promovem com suas crises, através do desemprego e da precarização das relações trabalhistas o desmonte do sindicalismo, base do petismo.

Com os movimentos sociais manietados, com o sindicalismo enfraquecido e com os intelectuais de esquerda repensando a própria ideologia, em 2002, “Lulinha paz e amor” elege-se porque a esperança vencia o medo. O governo FHC cai de podre, literalmente, não é derrubado. As forças reacionárias não estavam acudas por um movimento de esquerda tal quais os que levaram a governos esquerdistas na Venezuela e na Bolívia. Estavam momentaneamente inviabilizadas politicamente.

O governo Lula não assume em uma posição de força, só sua fraqueza poderia explicar Henrique Meirelles no Banco Central como fiador das forças de mercado.

Lula não é nosso Robespierre.

Por enfraquecido que tenha sido o início do governo, houve tempo para fortalecer a musculatura institucional, pois foi apenas em 2005, quando Lula e o PT já haviam se assenhoreado da máquina pública, que as forças reacionárias se sentiram fortes para desafiar-lhe o poder.

Mas Lula não é Robespierre, é um conciliador, quis-se por republicano, jamais confrontou as forças conservadoras. Elas, no entanto, sempre o tiveram como inimigo.

E, a partir do momento em que o presidente do STF em um gesto de atrevimento e audácia chama o presidente da República às falas e este não reage, e mais, em um outro episódio, entrega-lhe a cabeça do diretor geral da Polícia Federal ou quando permite que os principais quadros de seu partido sejam tratados como batedores de carteira por ventanista da oposição sem qualquer reação, perderam dele qualquer receio ou medo. O outrora poderoso PT era, agora, um tigre de papel.

Por que, em qualquer desses momentos, o enorme capital político de que dispunha e fora duramente amealhado, a militância do “PT de Lutas” e as organizações sociais a ele filiadas, não foi posto nas ruas para defender o governo que, em última instância, era o “seu” governo, ainda é coisa para a qual não tenho explicação.

Evitou se o confronto, mas o movimento social de apoio perdeu força de mobilização.

Lula se manteve por dois mandatos no poder por ser um gênio político e porque o país era tão injusto que uma mínima melhoria das condições de vida da população mais pobre – não passavam mais fome, e uma pequena recuperação do poder aquisitivo do proletariado que podia então assumir prestações de até 48 meses, pareceu ser uma revolução social.

De cima desse capital, o PT ganhou mais duas eleições.

Retornamos agora ao início do texto, por que, então, o desencanto parece ser patente a ponto dos vencedores das eleições presidenciais de 2014 agirem como perdedores e os perdedores cantarem vitória?

Porque, se a vitória em 2014 pode evitar que “um personagem medíocre e grotesco desempenhasse o papel de herói”, do mesmo modo, o confronto, talvez necessário para o estabelecimento da autoridade dos vencedores para implantarem seu modelo de governança, foi adiado mais uma vez. E lá se vai doze anos.

Seremos capazes de construir uma nova ordem social sem confronto?

Ônibus de graça para alunos carentes e de escolas públicas alivia orçamento das famílias pobres em SP

Se nada mais fizer nos dois anos de mandato que tem pela frente, o prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad (PT), já terá feito história. Pela primeira vez, será implantada na megalópole paulista a ideia de passe escolar gratuito para 505 mil estudantes (360 mil alunos da rede pública e 145 mil de escolas particulares, mas de baixa renda, incluindo os que fazem cursos superiores).
Dito de outro modo, mais de um milhão de viagens de ônibus por dia (supondo que um aluno realize uma viagem para ir e outra para voltar da escola) serão feitas “na faixa”, ou na base da tarifa zero. Até agora, os estudantes paulistanos pagam meia tarifa por esses trajetos.
Segundo os critérios do IBGE, meio milhão de habitantes é a barreira demográfica para um município ser considerado “grande”. Em todo o país, existem apenas 39 cidades com população desse tamanho ou maior.
O passe escolar gratuito é bem diferente do chamado “passe livre”, que significa dotar os seus portadores do direito de circular gratuitamente pela cidade, indo a baladas, manifestações, festas, museus, passeios, cinema, rolês, bibliotecas, compras, o que for. Mas é um passo enorme nesse sentido.
Agora, some-se a esse mais de milhão de viagens gratuitas aquelas feitas pelos idosos e portadores de deficiência, que são totalmente isentos do pagamento de tarifa e já seria uma revolução em termos de mobilidade e direito de circular pela cidade.
Menos dinheiro gasto para ir à escola = mais dinheiro disponível para outras coisas.
Pela primeira vez, o foco dos investimentos municipais não está no transporte individual, na construção de mais pistas para carros, na lógica irracional da “carrocracia”. Mas sim no fortalecimento do transporte coletivo.
Tem mais.
Para todos os usuários de bilhete único temporário, nas modalidades mensal, semanal e diário (com validade de 24 horas), a tarifa não sofrerá aumento e ficará congelada no valor atual –protegendo o trabalhador sem vínculo empregatício. Custos de viagens feitas com o vale-transporte não impactarão o bolso do trabalhador porque serão absorvidos pelo empregador.
Na prática, o aumento da tarifa anunciado pelo prefeito Haddad (dos atuais R$ 3 para R$ 3,50), o primeiro dos últimos quatro anos, afetará inicialmente aqueles que pagam o ônibus em dinheiro, os que usam o bilhete único comum e os estudantes não-carentes, totalizando metade do total de usuários do sistema. A outra metade ou terá a tarifa congelada, ou gozará da gratuidade. Mas a Prefeitura já espera que parte dos “excluídos” do congelamento e da gratuidade migre para o bilhete temporário a fim de fugir do reajuste.
Estudantes de escolas privadas não-carentes, por exemplo, que passarão a pagar R$ 1,75 por viagem, em vez do R$ 1,50 atual,  terão um incremento em seus gastos diários equivalente a R$ 0,50 ou R$ 15,00 por mês. É menos do que uma refeição no McDonald’s.
Diga-se desde logo que o passe escolar gratuito e o congelamento da tarifa para os usuários do bilhete único temporário só foram possíveis porque o rugir das ruas foi ouvido em junho de 2013, quando centenas de milhares de pessoas protestaram contra o aumento dos ônibus de R$ 3 para R$ 3,20.
A indignação dos usuários do transporte coletivo transformou-se em raiva e explodiu em manifestações violentas, que obrigaram o prefeito a tomar medidas de importância histórica, das quais o congelamento da tarifa em R$ 3, naquele momento, foi só o começo.
Logo se seguiu a contratação de uma auditoria independente, feita pela empresa de consultoria Ernst&Young, para abrir a caixa-preta dos contratos da Prefeitura com as empresas de ônibus.
Uma das reivindicações dos protestos de junho, para quem não se lembra, era que se tornassem públicos os ganhos das empresas que operam os ônibus em São Paulo. Transparência já!
Pois bem. Recém-divulgados, os resultados da auditoria mostraram em detalhes como operam as três famílias que controlam os ônibus de São Paulo, a família Ruas, a Belarmino Marta e a Saraiva. Está tudo no site da SPTrans, a agência reguladora municipal do transporte coletivo.  (Veja no linkhttp://www.sptrans.com.br/verifica/)
Para começo de conversa, verificou-se que o lucro estipulado em 2003 para as concessionárias do serviço de ônibus está absurdamente alto. Hoje, é limitado a 18%, embora o cenário atual considere adequado remunerar o investimento na base de apenas 7,2%.
Depois, a Ernst&Young constatou que uma em cada dez viagens programadas (e pagas) não é realizada pelas empresas, o que faz com que os coletivos rodem mais cheios e o cidadão fique mais tempo no ponto esperando.
Além disso, a consultoria percebeu que o custo de combustível que as empresas computam nas planilhas está acima do preço de mercado, um óbvio superfaturamento.
São problemas sanáveis no curto prazo.
Em 2015, extinguem-se os contratos vigentes com as empresas concessionárias atuais e já no primeiro trimestre serão abertas as licitações para o estabelecimento de novas bases para as concessões. É todo um novo campo de batalha que se abre para a discussão da mobilidade urbana.
Será nesse momento que se verá como fazer para melhorar a qualidade do serviço, a rapidez das viagens, o tamanho dos veículos para acomodar mais confortavelmente os passageiros. Talvez se ampliem as gratuidades, com o objetivo de incluir outros setores sociais, além dos estudantes pobres e das escolas públicas, os idosos e os deficientes.
Uma coisa, porém, é certa. Tratar a questão dos ônibus em dezembro de 2014 como se ainda estivéssemos em junho de 2013, é pior do que miopia política.
Consiste em cegueira sectária não perceber que a caixa-preta dos empresários de ônibus foi arrombada, escancarando seu conteúdo de maldades e malfeitos. Que a vida vai melhorar muito para mais de 500 mil estudantes, que nada mais pagarão para ir estudar (com o consequente alívio dos orçamentos familiares). Que uma quantidade enorme de pessoas poderá ainda manter a tarifa congelada, bastando para tanto comprar um bilhete único temporário.
É hora de festejar as conquistas alcançadas. A São Paulo que sabe tão bem fazer manifestações de massas e quebra-quebras precisa aprender a também comemorar quando empurra seus governantes a fazer o que é certo.

A festa dos desalentos

Janio de Freitas

Os 'governos petistas' esvaziam o PT; Lula conteve os movimentos sociais, Dilma desconheceu-os

O ensaio, na tarde dominical, foi mais autêntico: não tinha povo. Para a posse, o PT providencia a ida de centenas de ônibus, há quem fale em 800 deles, que levem a Brasília forasteiros em milhares suficientes para o que deve ser uma posse presidencial petista. Mas, a poucas horas dessa posse, o PT ainda luta pelo reconhecimento ao seu direito de uma presença menos inadequada ao novo "governo petista".

O PT se esvazia. Os "governos petistas" esvaziam o PT. Os "governos petistas" servem ao PMDB, proporcionam-lhe a nutrição que trouxe de volta o seu predomínio político, perdido quando o governo do PSDB entregou-se ao PFL, o hoje comatoso DEM.

A militância petista míngua, no corpo e no espírito. Com suas bandeiras relegadas e até contestadas pelos "governos petistas", nas eleições a militância exibiu a que está reduzida: no seu território, São Paulo, não foi capaz de mobilizar-se, de ser parte efetiva da disputa. Não para enfrentar as dificuldades paulistas dos candidatos do seu partido à Presidência e ao governo estadual, mas para não ser, como foi, com seu alheamento, a causa fundamental dessas dificuldades.

Os chamados movimentos sociais sentiram os efeitos do desalento petista. Com a recusa a ser petistas nos "governos petistas", mesmo em atitudes tão simples como prestigiar o PT no Congresso, Lula e Dilma fizeram o mesmo por modos e em graus diferentes: Lula conteve os movimentos sociais, Dilma desconheceu-os.

Podem ser 800 ônibus, até mais, é provável que lotados. Mas não será o PT viajando neles. É só aquela lembrança de militância petista, é uma representação da militância que não se moveu nas eleições, porque não foi reconhecida nem reconheceu os "governos petistas". É uma presença simbólica dos movimentos sociais, imagino que saudosos de si mesmos. São pessoas que esperariam ouvir falar, quando a eleita falou do novo governo, em ainda mais empregos, em distribuição da renda subindo, subindo, subindo muito mais, e o Minha Casa, Minha Vida se completando, e os empresários sendo chamados a gastar menos bilhões em casas no exterior e investir mais no seu país.

Não foi o que o PT ouviu. Por certo, grande parte dos petistas e dos componentes de movimentos sociais nem entendeu o que ouviu, nas escolhas ministeriais auspiciosas para a direita e conservadores em geral. Tudo sugere que a massa dos recém-empregados e dos beneficiados pelo assistencialismo entenderá pelo método prático. É o seu método histórico de aprendizado. Mas são muito diferentes o longo não receber e o perder ganhos. Ainda assim, às vezes dão no mesmo. Às vezes, não.

O que não foi dito quando esperado será dito nos discursos, é o que convém aos discursos dos vitoriosos. E Dilma Rousseff é vitoriosa. À qual acrescenta uma explicação, para os que não entendem como lida com sua vitória: "Saber vencer é não ter medo de mudar a si próprio, mesmo que isso lhe cause algum desconforto".

Essa, porém, é a sabedoria conveniente a quem perdeu, não a de quem venceu. O perdedor é que não deve temer a lição da derrota, e aprender com a reprovação o que deve mudar para vencer. A sabedoria do vencedor --e, nela, os valores éticos-- consiste em ser coerente com o que disse e fez para obter o apoio que lhe deu a vitória.

O ponto onde convergem Venina e o MH17 derrubado na Ucrânia

Sabe-se agora, com certeza, que o MH17 foi derrubado por forças de Kiev. Sabe-se agora que Venina, antes de ser denunciante, foi ela própria denunciada.

J. Carlos de Assis*

Há uma coisa em comum entre a denúncia norte-americana de que o voo MH17 da Malásia foi derrubado por insurgentes ucranianos ligados a Moscou e a denúncia de Venina de que a presidente da Petrobras, Graça Foster, não deu ouvidos a suas denúncias de irregularidades na empresa: nos dois casos, a uma campanha maciça da imprensa para validar as denúncias sucedeu, em poucos dias, o mais estrondoso silêncio. No caso de Venina, só falam agora no assunto os que a ridicularizam, com razão. No caso do MH17, o silêncio é total.

Esses dois casos ilustram muito bem o papel que a “liberdade” de imprensa vem exercendo em nosso tempo. É um instrumento sobretudo de manipulação da opinião pública. Os manipuladores contam com a falta de espírito crítico da sociedade, o que, por sua vez, justifica-se exatamente pela ausência de noticiário imparcial sobre acontecimentos com valor político e estratégico. Sabe-se agora, com certeza, que o MH17 foi derrubado por forças de Kiev. Sabe-se agora que Venina, antes de ser denunciante, foi ela própria denunciada.

A ausência recente na imprensa ocidental de notícias sobre o monstruoso ataque ao MH17, um avião civil derrubado provavelmente por um míssil ou por um caça de Kiev sobre o Leste da Ucrânia, é a maior evidência do esgotamento da estratégia de exaustão de uma versão destinada a cobrir os fatos reais com uma máscara favorável. Eu costumava ouvir de um grande manipulador da imprensa brasileira a observação de que “o importante é a versão, não o fato”. Assim, para “plantar uma versão”, era necessário divulgá-la antes dos fatos.

Putin atribuiu formalmente a Kiev a responsabilidade pelo crime numa reunião com personalidades estrangeiras na Rússia, mas a imprensa ocidental praticamente o ignorou. Uma vez estabelecida a versão é extremamente difícil retificá-la. Mesmo porque, no caso do MH17, estão envolvidos aspectos técnicos de difícil aferição por internautas. Os internautas, que são hoje a consciência crítica da grande mídia, não tem como penetrar em alguns de seus segredos, exceto numa situação em que interfere o gênio de um Wikileaks.

O desmascaramento de Venina tem sido uma operação relativamente mais fácil. Os internautas se lançaram a investigações próprias, independentes dos grandes jornais e tevês, para descobrir que a moça estava sendo processada pela Petrobras por incompetência ou má fé no acompanhamento de contratos na construção de Abreu e Lima; que tinha feito contratos sem licitação com o então marido ou namorado, algo que nem o jornal Valor, nem a TV Globo cuidaram de revelar em suas bombásticas entrevistas na versão original.

Sim, houve uma denúncia de Venina fundamentada. Relacionava-se com contratos superfaturados na área de comunicação, mas em 2008. A denúncia gerou uma comissão de inquérito da qual resultou a comprovação do superfaturamento e a demissão do responsável. Na interpretação de um jornalista da Globo, isso lhe dava credibilidade para fazer as outras denúncias. Mas quais denúncias? Tudo o que ela disse no Valor, e repetido na Globo, eram ilações vagas, inclusive a alegação de que exortara Graça Foster das irregularidades.

Se a Lava Jato seguir o curso retilíneo que vem seguindo até aqui, não se admirem se Venina vier a ser condenada por irregularidades na Abreu e Lima, das quais há indícios fortes no relatório da comissão de inquérito da própria Petrobras sobre o assunto, já entregue ao Ministério Público. Ela disse insistentemente que ia “até o fim”.  Estamos aguardando que fim é esse. O fato é que até mesmo os jornalões e a Globo perceberam que deram um tiro na água. Daí seu significativo silêncio. Não é nada diferente do silêncio da imprensa ocidental sobre o avião derrubado no Leste da Ucrânia. E esse é o preço que a gente tem que pagar pelo valor supremo da liberdade de imprensa, agora felizmente vigiado pelos internautas.


*Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

Carta Maior - O Portal da Esquerda

Bandido bom é bandido morto


O silêncio dos políticos

Renato Janine Ribeiro
Valor Econômico

Marina some, Dilma não explica um ministério que não caiu bem e Aécio fala o que não deve: não vamos bem de líderes        

Neste momento deveríamos, como se faz nos balanços otimistas divulgados em dezembro, afirmar que 2014 foi um "grande ano". Mas não dá para dizer isso em política. Se tomarmos os três candidatos que somaram mais de 90% dos votos válidos no primeiro turno presidencial, o que dizer? Dilma Rousseff já indicou metade do ministério, mas começa seu segundo mandato com o gabinete mais criticado desde a democratização de 1985. Nem José Sarney e Fernando Collor, que deixaram a Presidência com péssima imagem, iniciaram seus governos com ministros mais contestados do que os de Dilma 2015. Do lado da oposição, as coisas não vão melhor. No dia mesmo da diplomação da candidata eleita, o PSDB pediu a anulação dos sufrágios de quem não votou em Aécio - o que só não será ridículo se for o preparativo para um golpe judiciário. Finalmente, Marina Silva repete o que fez (ou não fez) na eleição anterior, isto é, em vez de fazer crescer o número notável de seus eleitores, um quinto da população brasileira, some. 

Se os três principais candidatos conseguem se afastar tanto do que seria uma atuação política consequente, como querer que o eleitorado goste da política? Como querer, a situação, que ele defenda o governo? Como querer, a oposição, que ele se mobilize para cobrar mudanças de rumo? Claro, nesta altura cada um procura defender seu candidato. Os tucanos dirão que o pedido insensato de cassação dos votos não tucanos foi só uma formalidade. 

Esquecerão que o próprio Tribunal Superior Eleitoral, que em 2008 cassou os governadores do Maranhão (do PDT) e da Paraíba (do PSDB), substituindo-os pelos candidatos rejeitados pelo povo, na página mais escura da democracia brasileira, se envergonhou disso e desde então evita ofender a essência da democracia, que é respeitar a vontade do povo expressa pela maioria. (De todo modo, seu julgamento de 2008 deu sobrevida de seis anos ao clã Sarney, até que o eleitorado maranhense o derrotou este ano, pela segunda vez). O mínimo a dizer, que já é grave, é que com o recurso-tapetão o PSDB tentou o "se colar, colou". 

No caso de Marina, quatro anos atrás ela teve o apoio só do Partido Verde, que nunca se consolidou no país, não passando às vezes de linha auxiliar do PSDB. A Rede Sustentabilidade é mais forte do que era ou é o PV. Mesmo assim, ao terminar a segunda eleição em que Marina obtém a mesma (alta) porcentagem de votos, a líder sai de cena ao findar a contagem. De novo, cede ao PSDB o papel de oposição - e isso num momento crucial, em que deveria fidelizar os eleitores que mobilizou. Duas vezes, Marina conseguiu um resultado eleitoral notável: com pequena estrutura partidária e pouco tempo na televisão, falou ao idealismo, ao desejo de mudança da sociedade. Lavrou em campo parecido ao do jovem PT.

Os finalistas de 2015 nada dizem ao povo

Parece provável que seu sonho seja o de retomar a trajetória de Lula, valendo-se inclusive de uma história de vida com elementos semelhantes à dele - a origem pobre, a garra, o carisma, a vontade de retirar o país de uma opção entre dois polos talvez superados. Mas, quando perde, entra no vazio. 

Só que na política, como se sabe, qualquer vácuo é prontamente ocupado. 

Na verdade, as mulheres que disputaram a Presidência com chances de se eleger optaram agora pelo silêncio. Marina, derrotada, não procurou manter, nas semanas cruciais após o segundo turno, um lugar na esperança política brasileira. Ela até podia ter apoiado Aécio (embora eu veja nesse apoio um erro político), mas como - para a Rede - ele só era a opção conjuntural por um mal menor, Marina e os seus deveriam logo depois da eleição retomar a bandeira da terceira via. Não o fizeram. 

Marina se cala, mas Dilma, vitoriosa, não fala. Poderia e deveria ter-se explicado aos eleitores. Vejo muitos simpatizantes de Dilma se sentindo obrigados a encontrar, eles próprios, as razões (dela) para nomear um ministério que não os entusiasma. Chega a ser tocante o esforço de alguns para explicar as nomeações - a busca de uma base sólida no Congresso, o apelo a políticos testados nos Executivos estaduais. Tocante, porque esse deveria ser o trabalho da eleita e de seus colaboradores próximos. Ela mesma deveria esclarecer de público por que escolheu uma equipe econômica como esta, e por que, na metade do ministério até agora anunciada, o realismo prevalece sobre o idealismo. Não é impossível explicar isso, mas é preciso fazê-lo. Esse trabalho, um líder não terceiriza. 

Se Marina erra por ter cessado a pregação logo no momento de derrota, que é quando se fortalecem os ânimos para construir o futuro, e Dilma por considerar a vitória como dada, isso depois de vencer nas urnas mas com sérias feridas junto à opinião pública, do outro lado Aécio fala demais. As mulheres se calam, o homem fala. O problema é que ele só fala a radicalização. O risco é falar sem dizer. 

O melhor sinal de que Aécio erra por excesso está numa conversa de que ele nem fez parte, mas que ilustra um exagero oposicionista: quando Miriam Leitão questionou Alckmin por chamar Dilma de "presidenta" e o governador respondeu que trata as pessoas como elas preferem. Uma resposta de mera educação, prosaica até, mas que devolve a política ao chão. Seria preciso levar a birra política a ponto de brigar até por nomes, assunto menor mas que se tornou pomo de discórdia? Talvez as duas formas de fala, a comedida de Alckmin e a exaltada de Aécio, anunciem a disputa interna no PSDB pela indicação para 2018. 

Mas, neste momento, o que precisamos é que os três principais políticos que disputaram a Presidência falem ao povo - e lhe digam algo importante. 

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Iniciante


Texto de Ary Fontoura propaga onda de ódio

Brasil 247: o seu jornal digital 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Postagem do ator global, em que ele pediu que a presidente Dilma Rousseff renuncie ao PT, despertou manifestações no Facebook que fazem apologia ao crime e pregam o assassinato da presidente e do antecessor Luiz Inácio Lula da Silva; a internauta Stella Medina a chamou de "assassina e terrorista"; Luciana Cetrim falou em "cadeia no mínimo"; Cleci Schmitt disse que compraria as balas e Paulo Correia afirmou que puxaria o gatilho.
O texto em que o ator Ary Fontoura prega que a presidente Dilma Rousseff renuncie ao PT (leia aqui) despertou uma onda de ódio na internet, com direito à apologia ao crime. 

A internauta Stella Medina defendeu que a presidente Dilma Rousseff assassinasse o ex-presidente Lula e depois se matasse. Ela também a chamou de "assassina e terrorista". Em seguida, Luciana Cetrim falou em "cadeia no mínimo". Cleci Schmitt disse que compraria as balas e Paulo Correa afirmou que puxaria o gatilho.


Ontem, o 247 publicou respostas de leitores ao texto de Ary Fontoura. Muitos defendem que ele, que decidiu se colocar como reserva moral da nação, renuncie à Globo, que andou de braços dados com os generais e se beneficiou de um regime militar, que transformou os Marinho na família midiática mais rica do planeta, graças à concentração dos meios de comunicação no Brasil (leia aqui).

Tipos de OVNIs


Viva Reinaldo Azevedo!


Reinaldo Azevedo é ótimo e eu não sabia. Descobri ao acaso. Tudo porque na tarde desde domingo me deu a louca de limpar a casa. Pode parecer meio estranho isso de limpar casa num domingo, mas quem leu Histórias de Cronópios e Famas do Julio Cortázar há de me entender.

Quando se esta numa casa, sozinho, pra fazer limpeza nada melhor do que escutar samba, mas como domingo a noite já tem o samba do rancho do Neco, optei pela segunda atividade mais indicada para uma boa faxina: escutar alguém falando besteira.

Como, se o único alguém aqui sou eu e de minhas besteiras não consigo rir o quanto necessário para incentivar esse tipo de trabalho? Lembrei o esquecido aparelho de TV apenas utilizado em fins de noite, para algum filme ou documentário do Netflix, e liguei na Globo News, claro! Acertei na mosca! Olha só o elenco: William Waack, Reinaldo Azevedo, Luiz Felipe Pondé e Bolívar Lamounier.

Conclusão: a casa está um brinco!

Mas afora a eficiência do método, houve entre todo o programa que ouvi inteiro enquanto varria, arrastava móvel, passava pano, torcia, etc. um momento digno de ser comentado aos quatro ventos. Evidente que em todo o restante nada que justifique tomar o tempo de ninguém com comentários sobre o imaginável oco de uma conversa entre estes quatro cavalheiros.

Para não dizer que foi de todo ruim, gostei de ver todos os quatro comemorando efusivamente a pequena diferença que marcou a derrota do candidato Aécio Neves. Algo assim como um fanático rubro negro torcendo pro Mengão perder o campeonato pro Vasco apenas de 5 a 3, porque de 5 a 2 a vergonha é maior!

Essas meninas e meninos da Globo são mesmo impagáveis! Quando o William Waack lembrou ter coberto várias eleições e nunca ter visto outra tão violenta, imaginei que iria citar o caso da família, com criança, agredida dentro do próprio automóvel com cartaz da Dilma no para-brisa traseiro, ou do jovem militante petista assassinado em Curitiba. Mas não, o que indignou Waack e demais foi a violência contida na afirmação de que Aécio suspenderia os programas sociais. Consideram isso uma chantagem, mas todos confirmaram com muita raiva que a única razão da vitória de Dilma foi o Bolsa Família.

Afora essas considerações de amor e ódio aos programas sociais dos governos petistas, exultaram com previsões de falência da Petrobrás, quebra do Brasil, péssimo 2015, inequívoco impeachment da Dilma, etc., etc. , etc., cada qual reivindicando desgraça maior para todos os brasileiros reiteradamente acusados de burros. E ficaram ali, um fazendo escada para o outro se pendurar na lâmpada da auto considerada genialidade quando Reinaldo Azevedo revelou-se gênio de fato ao confessar-se otimista em um ponto.

Causou imediato silêncio nos demais e até eu atentei. Foi então que descobri que esse Reinaldo é mesmo genial.

Sem meias palavras, diz-se otimista porque nas manifestações pré e pós eleições se pode perceber que, enfim, o PSDB e toda a direita do Brasil perdeu o medo do povo. Ainda considerou que o PSDB e a direita antes não reagiam aos governos do PT por receio do povo, mas que demonstra estar perdendo esse medo e enfrentando o povo nas ruas.

Ponderem e vejam se não tenho razão. O cara é ou não é ótimo? Algum outro alguma vez assumiu o povo como inimigo com tamanha clareza?

Pois se o João Ubaldo escreveu Viva o Povo Brasileiro, eu contraponho dizendo: Viva Reinaldo Azevedo!

domingo, 28 de dezembro de 2014

MST quer ocupar cabeça de Danilo Gentili


O bebê e a bacia

Mauro Santayana

O senhor Robson Andrade, presidente da CNI, afirmou nesta semana que as denúncias que envolvem algumas das maiores construtoras do Brasil são pontuais e que a investigação e eventual punição desses atos não pode inviabilizar a continuidade de sua atuação em benefício do país.

Grandes empresas são estratégicas para qualquer nação. Se não fosse o trabalho de construtoras como a Mendes Júnior, na década de 1970, em países como o Iraque e a Mauritânia, com a ida para lá de milhares de técnicos e operários brasileiros, para construir ferrovias, rodovias e obras de irrigação, o Brasil não teria conseguido, naquela ocasião, enfrentar a crise do petróleo.

Não existe grande nação que não tenha grandes empresas e grandes bancos para apoiá-las, dentro e fora de seu território, na disputa com empresas e bancos de outros países.

A Suíça e a Nestlé e os seus bancos; os EUA e a IBM, a Boeing, a Northrop, a Microsoft ou a Monsanto; a Alemanha e a Bayer, a Basf, a Siemens, a Volkswagen; a Itália e a Fiat , a ENI, a Benetton e a Beretta; a Espanha e a Repsol, o Santander e a Telefónica. Nem uns existiriam sem os outros, nem nenhum deles são santos.

A diplomacia e a estrutura pública desses países e suas grandes empresas sempre se ajudaram mutuamente, para a conquista do mundo.

No Brasil ocorre o contrário.

Independentemente das investigações em curso, nos últimos anos parece que é pecado, ou proibido, que nossos bancos públicos, como o BNDES, a exemplo do que fazem os Eximbanks dos EUA e da Coreia do Sul; o Deustche Bank da Alemanha; a JFC e o JBIC do Japão, financiem e apoiem a expansão de empresas como a JBS-Friboi, a BRF, a Vale, a Totus, a Gerdau, e construtoras como a Odebrecht – que atua em dezenas de países do mundo – dentro e fora do Brasil.

Houve corrupção na Petrobras?

Que corruptos e corruptores sejam punidos. O que não se pode é paralisar e quebrar algumas das maiores empresas de capital nacional, porque, nessa hipótese, quem mais perderá será o Brasil.

Arrebentar com a competitividade do país na área de infraestrutura e construção pesada, destruindo alguns dos principais instrumentos estratégicos que temos para aumentar nosso poder e projeção no exterior, e mais particularmente, na África e América Latina – nosso espaço imediato de influência – é o mesmo que jogar pela janela a água suja da bacia, junto com o bebê que estava tomando banho, ou amputar os dois pés para combater uma infecção de unha.

Todos os grandes países do mundo combatem a corrupção de suas empresas. E – não sejamos hipócritas – muito mais a corrupção interna, realizada em seu próprio território, do que a externa, em território alheio.

Mas nenhum desses países deixou de apoiá-las com negociações e financiamento lá fora. Ou de exportar produtos, serviços e mão de obra por meio delas. Ou de usá-las, principalmente dentro e fora de suas fronteiras, para defender sua estratégia e seus interesses.Senador Aécio Neves acaba de obter, na Justiça de São Paulo, importantíssima e histórica vitória, que não é apenas dele, como cidadão, mas da democracia, de modo geral,  em nosso país. 

Shlomo Sand: A invenção da terra de Israel

Viagem a uma nova Bolívia


Como nacionalização dos setores estratégicos, por Evo Morales, permitiu redistribuir riqueza, impulsionar economia, modernizar infraestrutura. Surpresa: empresários já colaboram com governo

Por Ignacio Ramonet | Tradução: Inês Castilho

Para o viajante que volta à Bolívia depois de alguns anos de ausência, e que caminha lentamente pelas ruas estreitas de La Paz – cidade marcada por ravinas escarpadas a quase quatro mil metros de altitude – as transformações saltam aos olhos: não se veem mais pedintes, nem vendedores informais que lotavam as calçadas. As pessoas se vestem melhor, têm um ar mais saudável. E a capital tem uma aparência mais bem tratada, mais limpa, com muitos espaços verdes. Ressalta também o surgimento de novas construções. Despontaram duas dezenas de grandes imóveis e multiplicaram-se os centros comerciais; um deles tem o maior complexo de cinemas (18 salas) da América do Sul.

Mas o mais espetacular são os teleféricos urbanos, de extraordinária tecnologia futurista [1], que mantêm, acima da cidade, um balé permanente de cabines coloridas, elegantes e etéreas como bolhas de sabão. Silenciosas e não poluentes. Duas linhas estão funcionando agora, a vermelha e a amarela; uma terceira, a verde, será inaugurada nas próximas semanas, permitindo assim a criação de uma rede interligada de transporte a cabo de 11 km, a maior do mundo. Isso possibilitará a dezenas de milhares de moradores de La Paz economizar em média duas horas de viagem por dia.

“A Bolívia muda. Evo cumpre suas promessas”, afirmam cartazes nas ruas. E pode-se constatar que o país é de fato outro. Muito diferente daquele que conheci há apenas uma década, quando foi considerado “o Estado mais pobre da América Latina depois do Haiti.” Corruptos e autoritários em sua maioria, seus governos passavam os anos a implorar empréstimos aos organismos financeiros internacionais, às principais potências ocidentais ou às organizações humanitárias. Enquanto isso, as grandes mineradoras estrangeiras pilhavam o subsolo, pagando ao Estado royalties de miséria e prolongando a espoliação colonial.

Relativamente pouco povoada (cerca de dez milhões de habitantes), a Bolívia tem superfície de mais de um milhão de quilômetros quadrados (duas Franças, ou Bahia e Minas Gerais somadas). Suas entranhas transbordam de riquezas: prata (faz lembrar Potosí …), ouro, estanho, ferro, cobre, zinco, tungstênio, manganês etc. O sal de Uyuni tem as maiores reservas no mundo de potássio e lítio – considerado a energia do futuro. Mas hoje, a principal fonte de renda é constituída pelo setor de hidrocarbonetos: gás natural (a segunda maior reserva da América do Sul), e petróleo (em menor quantidade, por volta de 16 milhões de barris ao ano).

No decorrer dos últimos nove anos, após a chegada de Evo Morales ao poder, o crescimento econômico da Bolívia foi sensacional, com uma taxa média anual de 5%. Em 2013, o avanço do PIB atingiu 6,8% [2]; em 2014 e 2015, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), será igualmente superior a 5%… É o percentual mais elevado da América Latina [3]. E tudo isso com uma inflação moderada e controlada, inferior a 6%.

Assim, o nível material de vida dobrou [4]. As contas públicas, embora com importantes investimentos sociais, são igualmente controladas, a tal ponto que a balança comercial oferece resultado positivo com excedente orçamentário de 2,6% (em 2014) [5]. Embora as exportações, principalmente de hidrocarburetos e de produtos de mineração, desempenhem papel importante nessa prosperidade econômica, é a demanda interna (+5,4%) que constitui o principal motor do crescimento. Finalmente, outro sucesso sem precedentes da gestão do ministro da economia, Luis Arce: as reservas monetárias internacionais da Bolívia agora equivalem a 47% do PIB [6], colocando pela primeira vez o país em primeiro lugar na América Latina, bem à frente de Brasil, México e Argentina. Evo Morales indicou que a Bolívia pode deixar de ser um país endividado em nível estrutural para tornar-se um país credor. Ele revelou que “quatro Estados da região”, sem especificar quais, já solicitaram crédito ao governo …

Num país onde mais de metade da população é de origem indígena, Evo Morales, eleito em janeiro de 2006, é o primeiro índio a tornar-se presidente no decorrer dos últimos cinco séculos. E, depois que assumiu o poder, esse presidente diverso rejeitou o “modelo neoliberal” e substituiu-o por um novo “modelo econômico social comunitário produtivo”. A partir de maio de 2006, nacionalizou os setores estratégicos (hidrocarburetos, indústria de mineração, eletricidade, recursos ambientais) geradores de excedentes, e investiu parte desse excedente nos setores geradores de emprego: indústria, produtos manufaturados, artesanato, transporte, agricultura e pecuária, habitação, comércio etc. Consagrou a outra parte do excedente à redução da pobreza por meio de políticas sociais (educação, saúde), aumentos salariais (para funcionários e trabalhadores do setor público), estímulos à integração (os bônus Juancito Pinto [7], a pensão “dignidade” [8], os bônus Juana Azurduy [9]) e subsídios.

Os resultados da aplicação desse modelo não se refletem apenas nas cifras acima, mas também num dado bem explícito: mais de um milhão de bolivianos (10% da população, portanto) saíram da pobreza. A dívida pública, que representava 80% do PIB, diminui e mal chega a 33%. A taxa de desemprego (3,2%) é a mais baixa da América Latina, a tal ponto que milhares de imigrantes bolivianos na Espanha, Argentina e Chile começam a voltar, atraídos pelo pleno emprego e notável aumento do padrão de vida.

Além disso, Evo Morales começou a tornar verdadeiro um Estado que até o presente não era senão virtual. É claro que a vasta e torturada geografia da Bolívia (um terço de altas montanhas andinas, dois terços de planícies tropicais e da Amazônia), assim como a divisão cultural (36 nações etnolinguísticas) nunca facilitaram a integração e a unificação. Mas o que não foi feito em quase dois séculos, o presidente Morales está determinado a colocar em prática, para dar fim ao desmembramento. Isso passa, antes de tudo, pela promulgação de uma nova Constituição, aprovada por referendo, que estabelece pela primeira vez um “Estado plurinacional” e reconhece os direitos de nações diversas que coabitam o território boliviano. Em seguida, passa pelo lançamento de uma série de ambiciosas obras públicas (estradas, pontes, túneis) com o objetivo de conectar, articular, servir áreas dispersas para que seus habitantes sintam que fazem parte de um mesmo conjunto: a Bolívia. Isso nunca havia sido feito. É a razão por que o país teve tantas tentativas de divisão, separatismo e fracionamento.

Hoje, com todos esses êxitos, os bolivianos sentem-se – talvez pela primeira vez – orgulhosos de si. Estão orgulhosos de sua cultura indígena e de suas línguas nativas. Estão orgulhosos de sua moeda, que a cada dia ganha um pouco mais de valor em relação ao dólar. Estão orgulhosos de ter o mais elevado crescimento econômico e as reservas monetárias mais importantes da América Latina.

Orgulhosos de suas realizações tecnológicas como a rede de teleféricos de última geração, de seu satélite de telecomunicações Tupac Katari, de sua cadeia de televisão pública Bolivia TV [10]. Essa cadeia, dirigida por Gustavo Portocarrero, deu em 12 de outubro, dia das eleições presidenciais, uma demonstração notória de sua excelência tecnológica ao conectar-se diretamente – durante 24 horas ininterruptas – com seus enviados especiais em cerca de 40 cidades do mundo (Japão, China, Rússia, Índia, Egito, Irã, Espanha etc.), onde bolivianos que vivem no exterior votaram pela primeira vez. Proeza técnica e humana que poucos canais de TV do mundo seriam capazes de conseguir.

Todas essas realizações – econômicas, sociais, tecnológicas – só explicam em parte a vitória esmagadora de Evo Morales e de seu partido (o Movimiento al Socialismo, MAS) nas eleições de 12 de outubro último [11]. Ícone da luta dos povos indígenas e autóctones de todo o mundo, graças a este novo triunfo, Evo conseguiu romper preconceitos importantes. Ele prova que a permanência no governo não causa, necessariamente, desgastes; e que, depois de nove anos no poder, é possível conseguir uma reeleição esmagadora. Prova também que, ao contrário do que afirmam os racistas e colonialistas, “os índios” sabem como governar e podem ser os melhores líderes que o país já teve. Prova que, sem corrupção, com honestidade e eficácia, o Estado poder ser um excelente administrador, e não uma calamidade sistemática, como pretendem os neoliberais. Finalmente, Evo prova que a esquerda no poder pode ser eficaz; que pode gerir políticas de integração e redistribuição de riquezas sem pôr em perigo a estabilidade da economia.

Mas essa grande vitória eleitoral explica-se também, e talvez sobretudo, por razões políticas. O presidente Evo Morales logrou vencer, ideologicamente, seus principais adversários, agrupados no seio da casta de empresários da província de Santa Cruz, principal motor econômico do país. Esse grupo conservador, que tentou tudo contra o presidente – desde o ensaio de divisão do país até o golpe de Estado –, acabou finalmente por submeter-se e render-se ao projeto presidencial, reconhecendo que o país está em plena fase de desenvolvimento.

É uma vitória considerável, que o vice-presidente Álvaro García Linera explica nestes termos: “Conseguimos integrar o leste da Bolívia e unificar o país, graças à derrota política e ideológica de um núcleo político de empresários ultraconservadores, racistas e fascistas, que conspiraram para dar um golpe de Estado e financiaram grupos armados para organizar uma divisão do território oriental. Além disso, esses nove anos têm mostrado às classes médias urbanas e aos setores populares de Santa Cruz, que estavam cautelosos, que temos melhorado suas condições de vida, que respeitamos o que foi construído em Santa Cruz e suas especificidades. Somos evidentemente um governo socialista, de esquerda, e dirigido por indígenas. Mas desejamos melhorar a vida de todos. Enfrentamos as empresas petrolíferas estrangeiras, da mesma forma que as empresas de energia elétrica, e as fizemos dar sua contribuição para depois, com esses recursos, dar poder ao país, principalmente aos mais pobres – mas sem afetar as posses das classes médias ou do setor empresarial. Esta é a razão por que foi possível um reencontro com o governo de Santa Cruz, e tão frutífero. Nós não mudamos de atitude, seguimos dizendo e fazendo as mesmas coisas que há nove anos. Eles é que mudaram de atitude diante de nós. Desde então, começa esta nova etapa do processo revolucionário boliviano, que é a da irradiação territorial e da hegemonia ideológica e política. Eles começam a compreender que não somos seus inimigos, que é do interesse deles praticar a economia sem entrar na política. Mas se, como empresários, tentarem ocupar as estruturas do Estado e quiserem combinar política e economia, eles não conseguirão. Da mesma forma, não pode ser que um militar assuma também o controle civil, político, uma vez que eles já têm o controle das armas.”

Em seu gabinete do Palacio Quemado (palácio presidencial) o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, explica isso em uma frase: “Vencer e integrar”. “Não se trata – diz ele – de derrotar o adversário e abandoná-lo à sua sorte, correndo o risco de que comece a conspirar com o ressentimento do derrotado e embarque em novas tentativas de golpe. Uma vez vencido, é preciso incorporá-lo, dar-lhe oportunidade de juntar-se ao projeto nacional em que todos estão envolvidos, sob a condição de que admitam e se submetam ao fato de que a direção política, pela decisão democrática das urnas, é exercida por Evo e o MAS.”

E agora? O que fazer com uma vitória assim esmagadora? “Temos um programa [12] – afirma tranquilamente Juan Ramón Quintana – queremos erradicar a pobreza, dar acesso universal aos serviços públicos básicos, garantir uma saúde e uma educação de qualidade para todos, desenvolver a ciência, a tecnologia e a economia do conhecimento, estabelecer uma administração econômica responsável, ter uma gestão pública transparente e eficaz, diversificar nossa produção, industrializar o país, alcançar a soberania alimentar e agrícola, respeitar a mãe Terra, avançar em direção a uma maior integração latino-americana e com nosso parceiros do Sul, integrar-nos ao Mercosul e alcançar nosso objetivo histórico, fechar nossa ferida aberta: recuperar nossa soberania marítima e o acesso ao mar [13].”

Por sua vez, evou Morales exprimiu seu desejo de ver a Bolívia tornar-se o “coração energético da América do Sul”, graças ao enorme potencial em matéria de energias renováveis (hidroelétrica, eólica, solar, geotérmica, biomassa), ao invés dos hidrocarbonetos (petróleo e gás). Isso, com o complemento da energia atômica civil produzida por uma central nuclear cuja aquisição está próxima.

A Bolívia muda. Avança. E sua metamorfose prodigiosa ainda não acabou de surpreender o mundo.


NOTAS


[1] A fabricante é a empresa austríaca Doppelmayr Garaventa.
[2] Ler Economía Plural, La Paz, abril 2014.
[3] Ler Página Siete, La Paz, 12 outubro 2014.
[4] Entre 2005 e 2013, o PIB por habitante mais que dobrou(de 1.182 dólares para 2.757 dólares). A Bolívia não é mais um “país de baixa renda” e foi declarada “país de renda média”. Ler “Bolivia, una mirada a los logros más importantes del nuevo modelo econômico” em Economía Plural, La Paz, junho 2014.
[5] A boa gestão das finanças públicas possibilitou à Bolívia tornar-se o segundo país de maior superávit orçamentário da América Latina no curso dos últimos oito anos.
[6] Em cifras absolutas, as reservas internacionais da Bolívia são de aproximadamente 16 bilhões de dólares. Em 2013, o PIB foi cerca de 31 bilhões de dólares.
[7] Uma quantia de 200 bolivianos anuais (23 euros) é dada a cada aluno do ensino público fundamental e médio que acompanhou todas as aulas regularmente. O objetivo é lutar contra a evasão escolar.
[8] Uma pensão que todos os bolivianos recebem a partir de 60 anos, mesmo aqueles que jamais contribuíram com o sistema de Previdência.
[9] Uma ajuda econômica de 1.820 bolivianos (cerca de 215 euros) é fornecida às mulheres grávidas e por cada menino ou menina de menos de dois anos com o objetivo de reduzir a taxa de mortalidade infantil e materna.
[11] Ler, de Atilio Borón, “Por que Evo Morales venceu outra vez?” Outras Palavras, 13/10/2014.
[12] “Agenda patriótica 2025: la ruta boliviana del vivir bien (Agenda patriótica 2025:o caminho boliviano do bem viver)”. Em 2025 será a festa do bicentenário da independência e da fundação da Bolívia.
[13] A Bolívia fez uma consulta à Corte internacional de justiça de Haia. Leia El libro del mar, ministério de assuntos estrangeiros, La Paz, 2014.


O Espírito de Natal


Que cor usar na virada


As apostas e os micos da revista Veja em 2014

Augusto Ferreira
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A última e melancólica edição da revista Veja em 2014 aposta na burrice de seus fiéis leitores pra convencê-los que quem pagou mico durante o ano foram os outros. Será mesmo?

• Apostou no “não vai ter copa”;
• Apostou na pior das copas;
• Apostou que o 7 a 1 derrotava Dilma;
• Apostou no papa conservador;
• Apostou na disparada da inflação;
• Apostou no fim da Venezuela;
• Apostou no fim de Cuba;
• Apostou no fim da Petrobrás;
• Apostou no delator que fala;
• Apostou na fala que vaza;
• Apostou no Real que salva tucano;
• Apostou na morte que salva revista;
• Apostou que Dilma rompia com Lula;
• Apostou em Aécio;
• Apostou no Joaquim;
• Apostou na Marina;
• Apostou nos indecisos;
• Apostou na virada de véspera;
• Apostou que quem ganhou, perdeu;
• Apostou na burrice de seus fiéis leitores.

Ary Fontoura deveria renunciar à Globo?


Texto do ator Ary Fontoura, em que ele pede que a presidente Dilma Rousseff renuncie ao PT, provoca indignação nas redes sociais; em resposta, leitores defendem que o ator renuncie à Globo; "Em sua carta há uma nebulosa ausência do período pós-1964 e seus Presidentes-Generais (sempre de braços dados com seu patrão, Roberto Marinho). Também omite que a Globo apoiou até o fim o regime de torturas e assassinatos", diz o leitor Reinaldo Luciano; "Ari Fontoura, porventura você pediu a seus patrões para renunciar à SONEGAÇÃO?", questiona Gilson Rasian; "camarada Ary Fontoura, renuncie a Globo, pois a mesma estava de braços dados com a ditadura que assassinou e torturou brasileiros, enquanto você encenava na vida e ainda assim era remunerado, bem remunerado", completa o engenheiro Lino Moura.


Em texto recentemente postado no Facebook, o ator Ary Fontoura tentou se colocar como reserva moral da nação e representante de 200 milhões de brasileiros. Nele, aparentemente inconformado com a vitória da presidente Dilma Rousseff nas eleições, ele pede que ela, ao menos, renuncie ao PT – que seria, na visão do ator, sinônimo de corrupção.

O texto, publicado no 247, provocou uma onda de indignação nas redes sociais. Muitos leitores defendem que o ator renuncie à Globo, que apoiou abertamente o golpe militar de 1964 e dele se beneficiou, fazendo com que os Marinho, sempre de braços dados com generais, se transformassem na família midiática mais próspera do planeta.

Eis o texto postado pelo leitor Reinaldo Luciano, que foi curtido por outros 150 leitores:

Em resposta ao Sr. Ary Fontoura.

Fui ler sua "Carta Aberta" e ela não me pareceu tão aberta assim. Como você entende de "elenco" vou elencar algumas razões:

Curiosamente você mudou-se para o Rio em 31 de Março de 1964. Então deve lembrar-se de que em 1º de Abril as tropas de Minas chegaram ao Rio.

Não foi um movimento espontâneo, mas um acerto entre a poderosa CIA, o Jornal O Globo e coligados, com a anuência de alguns generais (há quem cite malas e mais malas de dólares). 
Você omite que Jango não renunciou, mas foi derrubado do poder por seu patrão (futuro) et caterva. Também é fato que sua carta omite o presente dado ao seu futuro chefe e amigo Roberto Marinho pelos generais que se apossaram do poder: A TV GLOBO onde você construiu esta longa carreira (nenhuma referência a seu candidato).

Em sua carta há uma nebulosa ausência do período pós-1964 e seus Presidentes-Generais (sempre de braços dados com seu patrão, Roberto Marinho). Também omite que a Globo apoiou até o fim o regime de torturas e assassinatos. Omite inclusive que Globo colocou lá Collor de Mello, numa das mais escabrosas manipulações eleitorais da história... e ajudou a apeá-lo quando deixou de ser interessante. Omite que FHC elegeu-se porque sua Globo fez um tácito acordo com uma certa jornalista que teria um filho bastardo com ele.

Continuemos com sua carta fechada e a manipulação da história pela empresa a quem você dedicou anos e anos de sua vida. Seus patrões-herdeiros não são bilionários à custa de seu trabalho como ator. Sua "empresa querida" tentou impedir a eleição de Lula em 2002 e em 2006. Repetiu a façanha (digo: patranha) em 2010 e em 2014, tanto que rendeu a William H(B)omer o prêmio "Mário Lago" por sua "isenção e lisura".

Assim sendo, do alto dos seus 81 anos procure um médico e peça-lhe que lhe prescreva "MEMORIOL". Quem sabe a Globo não lhe dê o comercial para estrelar e você possa fazer uma nova carta em 2018. Mas que esta realmente seja aberta e as verdades sejam realmente ditas: Doa em quem doer!

ReinaldoLuciano©


Leia ainda a mensagem de Gilson Rasian:

Coitado do Ari Fontoura. De ator consagrado a pau mandado dos Marinhos. Ele é leal a seus patrões, mas manda Dilma trair seu seguidores a sugerir que ela governe com a oposição e renuncie ao partido que a elegeu.
Ari Fontoura, porventura você pediu a seus patrões para renunciar à SONEGAÇÃO?

... e a do engenheiro Lino Moura:

CARTA ABERTA A ARY FONTOURA: camarada Ary Fontoura, renuncie a Globo, pois a mesma estava de braços dados com a ditadura que assassinou e torturou brasileiros, enquanto você encenava na vida e ainda assim era remunerado, bem remunerado. 

Dilma montou um paredão


Como um paredão

Nem há no Brasil grandes figuras para compor um ministério de notáveis, nem seria preciso dar encerramento melancólico a um mandato difícil, com o anúncio de uma nova composição ministerial recebida por crítica ou por indiferença. Há uma explicação para isso, que muitos podem considerar suficiente para justificar a cara do novo mandato. Mas não é.

Em vez de escolhas que fizessem esquecer a média lastimável do ministério no primeiro mandato, Dilma Rousseff deu prioridade à montagem de uma estrutura política forte, capaz de se impor em duas frentes. Uma, a do Congresso, que lhe deu quatro anos de problemas ininterruptos e custo político muito alto para cada solução. Outra, a que começa a combinar a hostilidade dos meios de comunicação, também constante e indiscriminada no primeiro mandato, e o despertar feroz da oposição. Este, ainda a se confirmar, porque dá trabalho.

O futuro ministério tem tropas mais firmes no Congresso, atendendo a quase tudo o que ali pesa, e nos Estados mais representativos na opinião pública. Mas a prioridade ao político tem outra face: é sugestiva de que Dilma não pensa no segundo mandato como uma administração de passadas largas e inovadoras, com realizações e ampliações que, por si mesmas, dariam ao governo sustentação para atravessar os quatro anos e chegar sem medo a 2018. O que se insinua é mesmo a concepção do botafoguense Joaquim Levy: investimentos e transformações sociais rebaixados para a segundona.

sábado, 27 de dezembro de 2014

A Revolta Cashmere – o ano em que o brasileiro encarou seus mitos



Em um ano de acontecimentos da ordem de uma Copa do Mundo e de uma eleição antecedida de uma tragédia que vitimou um dos seus principais candidatos, o personagem principal não foi nem um atleta e nem um político, mas sim a figura do revoltoso cashmere.


Revolta Cashmere – assim a “The Economist” chamou o inusitado movimento que tomou as ruas do Brasil em 2014. Pessoas brancas, bem vestidas, daí o designativo de cashmere, bem posicionadas social e financeiramente, de repente saem às ruas no intento de derrubar um governo democraticamente eleito.

Sem a ironia típica dos ingleses, os chamamos de “os coxinhas”.

A “The Economist” foi realmente feliz. Sem dúvida, Revolta Cashmere é um nome adequado para descrever nossa luta de classes unilateral e invertida.

Não nos enganemos, vivemos a última década envolvidos em uma luta de classes como nunca antes neste país. Luta de classes singular, invertida, onde as classes dominantes são protagonistas. Reagem ao avanço das classes populares que marcham inconscientes da própria luta em que estão inseridas.

Em 2014, a luta que até então era surda, frente à eminência de mais quatro anos fora do poder federal, jogou o revoltoso cashmere nas ruas.

Seus gritos de guerra: “não vai ter Copa”, “vai tomar no cu”, “fora Dilma, e leve o PT junto” e o indefectível “vai pra Cuba”.

Basta recordá-los para ver que o revoltoso cashmere é antes de tudo um derrotado. Alguém que luta contra seu próprio país por nele se considerar um estrangeiro jamais vencerá.
Seu inimigo – os bolivarianos. Ainda que de bolivariano mesmo somente a mesma classe média reacionária no Brasil e na Venezuela.

O revoltoso cashmere se recusa a reconhecer que seu inimigo é qualquer ação que venha a reduzir, minimamente que seja, a nossa escandalosa desigualdade. Que reduza as vantagens comparativas com as quais se identifica como superior aos “nativos”. O revoltoso cashmere acusa Lula de jogar pobres contra ricos. E, como o revoltoso cashmere se filia aos ricos, sente-se pessoalmente atacado.

O ano mal havia começado e o combate que deram aos meninos pretos e mulatos dos rolezinhos que ousavam frequentar o mesmo shopping center que seus filhos mostrou o quanto de preconceito e hipocrisia há na nossa “democracia racial”. Os rolezinhos eram tão somente uma apropriação de valores burgueses por uma classe social de proletários que tinha tido seu poder aquisitivo melhorado.  Os burgueses julgavam, no entanto, que essa apropriação era, na verdade, um roubo. Mandaram a polícia bater nos meninos.

Foi também um momento tragicômico para os estamentos superiores da nossa pirâmide social. Juízes dando liminares que cassavam o direito constitucional de ir e vir. Personalidades constrangidas em mostrar todo o seu preconceito social, mas considerando os rolezinhos um perigo. E os garotos só a fim de dançar funk ostentação na praça de alimentação.

Lembrando daquele povo branco nas ruas em junho de 2013 pleiteando escolas e hospitais públicos “padrão FIFA”, perguntei-me: estiveram realmente dispostos a dividir a mesma enfermaria com o porteiro dos seus condomínios? Seus filhos iriam dividir a mesma classe escolar do filho da diarista no advento do tal “padrão FIFA” público e para todos?

Com a reação aos rolezinhos eles responderam: não.

Daí até a Copa, a violência explodiu. Se havia policiais suficientes para sufocar os rolezinhos, pareciam insuficientes e impotentes para controlar os revoltosos cashmeres e sua tropa de choque – os black blocs.

“Não vai ter Copa”.

Não era uma Copa, era uma revolução, tratava-se de derrubar o governo.

Uma campanha de desconstrução conduzida massivamente pela grande mídia tornou-se um fenômeno sociológico. Foi capaz de momentaneamente modificar a auto-imagem do brasileiro. O brasileiro passou de um povo alegre, hospitaleiro, festeiro e laissez faire para um povo capaz de ameaçar turistas estrangeiros como fossemos um terrorista do oriente médio. Carrancudo a ponto de não querer participar da própria festa pela qual esperou mais de meio século. Oportunista a ponto de agredir um símbolo como a seleção brasileira de futebol para chamar atenção para suas reivindicações salariais e intolerante e violento a ponto de linchar meninos carentes e senhoras emocionalmente desajustadas.

"Ei Dilma, vai tomar no cu".

Os jogos, no entanto, foram a primeira derrota dos revoltosos cashmeres. Foram um sucesso de organização e de público. Mas a pressão já havia feito seu estrago no moral da nossa seleção.

Ainda assim, nos setores VIPs dos estádios, lá estavam os revoltosos cashmeres ofendendo a presidente com termos de baixo calão. Mostrando ao mundo que formavam hordas bárbaras em meio a um povo que festejava nas ruas o congraçamento dos povos em torno do esporte.

"Fora Dilma, e leve o PT junto".

Acabada a Copa, a campanha eleitoral foi a grande batalha da Revolta Cashmere. Nela, as forças se dividiram literalmente como dois exércitos em guerra. O PT de um dos lados, todos os demais do outro. E lá estava o revoltoso cashmere exercendo o preconceito contra os pobres que ele chamava, na sua ignorância, de nordestinos. Pleiteando a divisão do Brasil em dois países antagônicos – o do norte e o do sul. O preconceito desavergonhado e a intimidação mais grosseira elevados à condição de manifestação política. Mas toda a violência contida no “Fora Dilma, e leve o PT junto” não bastou. Deu Dilma, deu PT.

"Vai pra Cuba".

Inconformado, o filósofo cashmere ainda ameaçava:
“Precisamos de uma militância de secessão: que os bolivarianos durmam inseguros com o dia seguinte, porque metade do país já sabe que eles não são de confiança. Que fique claro que a batalha foi ganha pelos bolivarianos, mas, a guerra acabou de começar, e começou bem” - Luis Felipe Pondé em “Diálogo ou secessão?”. 

E o revoltoso cashmere foi novamente às ruas, agora para pedir impeachment e a volta da ditadura militar. Chegou ao ridículo de em uma petição em inglês pedir à Casa Branca uma intervenção americana. Sonhava ser salvo pela cavalaria do General Custer.

Em sua batalha final, já uma luta de resistência, aos grupelhos, dirigiu-se à Avenida Paulista. Mas, agora, eram liderados por malucos decadentes. E no último e melancólico ato da Revolta Cashmere, seu eleito faltou à passeata que ele mesmo convocara – havia ido para a praia.  Os revoltosos cashmeres ficaram esperando Godot.

Por fim, mais uma série de derrotas simbólicas. O revoltoso cashmere ainda teve de ver seu cavaleiro vingador politicamente inviabilizado aposentar se precocemente e a pedido, mas com vencimentos integrais e apartamento em Miami. E vê aqueles a quem admira e adula, os diretores de grandes empresas de engenharia, seu símbolo de ascensão profissional, serem presos como corruptores na Operação Lava Jato.

Antes, vira seu Midas-X falir. Fechando o ano, ouviu Obama falar para Fidel Castro: “Somos todos americanos”. Obama foi para Cuba.

E assim, termina 2014 - o ano da Revolta Cashmere. Um ano em que fomos apresentados a nossa face mais hipócrita, preconceituosa, violenta e intolerante. Donde o brasileiro cordial? Foi um ano para confrontarmos nossos mitos.

Começaremos 2015, ansiando por nuvens escuras e tempestades. Até porque, ao lado progressista desta nação em construção, os enfrentamentos à Revolta Cashmere nos ensinaram a não temer tempos feios ou gente cheirosa.


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