quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Isto vai dar uma tremenda confusão


Fernando Horta

Todo cientista de humanas, seja sociólogo, politólogo, antropólogo, historiador e etc. está se unindo aos doutores em direito para dizerem em uníssono que o judiciário está se tornando ditatorial. 

Escrevemos textos, livros, fazem-se pesquisas a respeito, estamos avisando.

O que fazem os "11 ungidos"?

Emendam a constituição ao vivo, e gravado para todos.

Não importa se você acha o foro algo bom ou ruim (existe uma enorme discussão com bons argumentos dos dois lados neste assunto), o que importa é que "11 ungidos" que você não escolheu, que têm mandatos vitalícios estão fazendo as leis, julgando as leis, decidindo quem pode ou não se candidatar, dando liminares para amigos poderem (enquanto inimigos não podem) e fazem tudo isto dizendo que é "justiça".

Isto vai dar uma tremenda confusão se surgir no parlamento qualquer pingo de vergonha na cara. Vai dar mais confusão se os militares acharem que ditadura por ditadura a deles é melhor. E vai dar mais confusão ainda quando este "sistema" se naturalizar...

Paneleiros não foram enganados por ninguém e não merecem perdão nenhum


“A gente tem que perdoar os paneleiros, eles foram enganados e...” 
Enganados uma ova. Não são pobres inocentes, não. Eu lembro muito bem das manifestações na Paulista, lembro dos grupos subindo pela Alameda Campinas e o que eles gritavam. Eles queriam exatamente o que está acontecendo, e é inclusive por isso que seguem quietinhos, satisfeitos. Eu lembro deles marchando felizes ao lado dos fascistas que pediam golpe militar e carregavam cartazes lamentando que a Ditadura não tenha matado todos os esquerdistas. Todos juntos querendo a supressão de direitos trabalhistas, principalmente das domésticas, que eles nunca engoliram. Lembro da minha vizinha de prédio, da turma de camisa da CBF, buscando cumplicidade em mim enquanto terminava de descarregar o carro num sábado às 14h com compras de mercado e desabafava que “agora, com essas leis de doméstica, elas não querem mais trabalhar! Porque antes ela trabalhava sábado até às 16h, e agora chega meio-dia e ela já se manda e se eu peço pra ela ficar tenho que pagar hora extra. Elas não têm mais medo de desemprego porque sabem que tem Bolsa Família. Esse PT acabou com o Brasil.” Então, meu amigo, me desculpe, mas eu não perdoo nenhum paneleiro, não. Não foram enganados coisíssima nenhuma, eles foram atores políticos do golpe, queriam o Brasil mais desigual, queriam a fome, a miséria, a mão de obra barata e sem direitos, o fim do acesso do pobre às universidades, a censura, o controle da educação e a limitação do pensamento crítico. Queriam “o Brasil de volta”, e conseguiram. Não são inocentes não e muito menos se arrependem do que fizeram.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Já que juiz honesto não é possível, precisamos de juízes mais baratos


Eu aceito juiz mandando prender político por cima das decisões das assembleias e parlamento. Aceito ministro dando uma de Luis XIV e avisando que a "lei é ele e seus colegas"...

Aceito tudo isto, desde que:]
(1) se tire a imunidade dos juízes
(2) se escolham juízes por votação
(3) que para ser juiz não seja obrigatório curso de direito
(4) que se retirem TODOS os auxílios e penduricalhos.
(5) todo juiz tenha mandato fixo improrrogável.

Para todos, sem a história de "direitos adquiridos".

Enquanto não se entender que a lei (todas e qualquer uma) são frutos de acordos políticos e entendimentos prévios e portanto sua constituição é subsidiária à política caminharemos para uma ditadura. 

E pouco importa se os ditadores usam uniformes verde olivas ou togas pretas. Perdendo a política perde-se tudo.

Não aceito viver numa país em que 11 divindades supremas partilham seus poderes máximos com 4000 ungidos e celestialmente tocados juízes que fazem o que bem entendem.

Edit 1: Os juízes criaram uma falácia que eles precisam ganhar inúmeras vezes acima do resto da sociedade para "que possam julgar sem pressões econômicas ou morais". Bobagem, simplesmente tornaram a compra dos juízes cara. Não é todo mundo que pode comprar um juiz no Brasil, a população mais pobre fica fora. Quem tem 500 mil para pagar por sentença continua mandando e desmandando. É preciso acabar com esta bobagem imediatamente.

O país do pau mandado

Moisés Mendes

O PAÍS DO PAU MANDADO

Dois juízes do Supremo se agridem durante um julgamento, um diz que o outro solta os bandidos amigos e o outro responde que o um só decide a favor de correligionários da política. 

Um delegado assume o comando da Polícia Federal e desqualifica o trabalho do Ministério Público, e o ex-chefe do MP responde dizendo que o delegado é um pau mandado de um chefe de quadrilha denunciado formalmente pelo MP. O chefe da quadrilha por acaso é o sujeito que se declara presidente da República.

E os sociólogos, os cientistas sociais, os historiadores, os antropólogos, os jornalistas e os palpiteiros tentando entender por que os bandidos se matam no Rio e em Porto Alegre na disputa de mercado para fornecer cocaína para os bacanas.

Matam-se porque têm armas. Os que não têm armas e não dão tiros (por enquanto) nos enrolam com uma conversa mole em nome dos bons modos e da democracia, enquanto se destroem mutuamente e aplicam golpes. 

Viramos o país do pau mandado, com pau para todo lado, com pau do Supremo e com tudo.

Distrito Federal dá uma contribuição desproporcional ao bestiário da política nacional

Luis Felipe Miguel

O Distrito Federal é pequeno, mas dá uma contribuição desproporcional ao bestiário da política nacional. Fomos governados por Roriz, Arruda, Cristovam e Agnelo. Nosso trio de senadores é imbatível: Cristovam de novo, o inefável Reguffe e Hélio Gambiarra, de codinome autoexplicativo. (O Rio Grande do Sul até que se esforçou, colocando Ana Amélia e Lasier Martins, mas ainda sobra Paulo Paim.) São daqui os deputados federais Rogério Rosso, autor do projeto que criminaliza a "cristofobia"; Izalci Lucas, adversário incansável da educação pública e cruzado do Escola sem Cérebro; Laerte Bessa, que espera que a ciência avance para que os criminosos sejam abortados antes de nascer (fora isso, claro, ele é um defensor aguerrido da "vida desde a concepção").

Agora, o deputado federal Alberto Fraga, líder da bancada da bala, anunciou sua candidatura ao governo local - alinhado a Bolsonaro, claro. E explicou que sua única prioridade é a segurança pública. Educação e saúde? Em segundo plano. E explicou: "Prefiro meu filho doente e burro, mas vivo".

Impropriedade verbal de momento? Não. Fraga estava repetindo frase que usou em pronunciamento na Câmara dos Deputados, em junho deste ano. É o discurso que ele calibrou para atingir seu eleitorado. Isso é o mais estarrecedor.

Doente e burro, na verdade, anda o Brasil. Nem por isso está mais seguro. É a prova de que o raciocínio de Fraga está furado.

Tese fraca

Sírio Possenti

Segóvia avaliou que: (a) a dica de Temer para que a mala fosse entregue a Loures; (b) a entrega de uma mala a este senhor com uma grana alta; (c) a devolução que ele fez da mala, com uma grana a menos e (d) a "devolução" da quantia que faltava NÃO são indícios suficientes para processar o "presidente". Para mim, isso é mais sólido do que a "tese" de que a bola que está na boca da cadela aqui de casa é a mesma que acabou de ser jogada...

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Luta de classes não se confunde com lutas de gênero e etnia

Nilson Lage

Os negros são discriminados (os negros pobres, no Brasil, duplamente, por serem negros e por serem pobres; negros ricos, se bem vestidos e bem transportados – o que torna visível sua condição –, raramente)

As mulheres são perseguidas por uma machismo idiota e discriminadas no mercado de trabalho, desde que nele ingressaram, por serem mulheres – aqui mais do que na Europa, menos do que em países árabes, por exemplo.

Criado junto à umbanda, casado com mulher negra, pai de filha mulata – uma dentre quatro que estão no mercado de trabalho – solidarizo-me com ambos os grupos humanos.

No entanto, a luta deles não se confunde com a luta de classes que move a História e explica, entre muitas outras coisas, a ideologia do golpe imperialista consumado no Brasil, porque:

(a) a condição de classe não é étnica nem aqui, nem na Europa, Ásia ou África; , e, na História, não se reporta ao sexo das pessoas.

(b) a mulher burguesa, salvo exceções de cunho ideológico, age como burguesa; já trabalhei para empresas dirigidas e chefiadas por mulheres;

(c) o negro burguês, salvo exceções de cunho ideológico, pensa e age como burguês. Meu pai, desempregado fraudulentamente sem direito, após 35 anos de trabalho por um patrão negro, seria um bom exemplo disso.

Em suma:

Lutem com vigor por seus direitos, como negros ou mulheres.

Mas, por favor, não confundam as coisas: a contradição explorados e exploradores é uma coisa; as oposições negros e brancos, homens e mulheres são outra coisa.

Não permitam que nos dividam estimulando ódios atávicos.

A mais terrível de nossas heranças

Marco Antonio Araujo

Sobre consciência negra. Darcy Ribeiro, um brasileiro cada dia mais imprescindível:
"A mais terrível de nossas heranças"

Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro – mercador africano de escravos – para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas. Dali partiam em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o corpo e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio, o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapando vivo à travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e nos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava à terra adentro, ao senhor das minas ou dos açúcares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia todos os dias do ano. No domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar faminto a parca e porca ração de bicho com que restaurava sua capacidade de trabalhar, no dia seguinte, até à exaustão.

Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém – seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos –, maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia a sua rotina. Esta era sofrer todo o dia o castigo diário das chicotadas soltas para trabalhar atento e tenso. Semanalmente, vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilação de dedos, do furo de seio, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob 300 chicotadas de uma vez, para matar, ou 50 chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado com uma bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso.

Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida através de séculos sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos. Descendentes de escravos e senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.

A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária.

(Do livro “O povo brasileiro”, editora Companhia das Letras, 1995)

Jocosos

Moisés Mendes

JOCOSOS

Quando não tenho nada para pensar, como numa segunda-feira ensolarada, penso na frase de Sergio Moro sobre Aécio, ao explicar em recente entrevista à TV a famosa foto com o mineirinho. Esta é a frase: 

“O senador é uma pessoa espirituosa e tem seus momentos jocosos”. 

O que Aécio teria dito de jocoso para Sergio Moro? Sergio Moro tem tanto tempo de convivência com Aécio (e com que frequência?) para poder defini-lo com tanto carinho e tanta graça?

E às vezes, quando não tenho nada para pensar, em penso também em Tacla Duran. Este eu acho mais jocoso do que Aécio. Mas não sei se o juiz tem a mesma opinião.

O Poder no Rio


A cobertura das eleições no Chile da imprensa brasileira

Imprensa brasileira (de pé) e os fatos
Luis Felipe Miguel

Na cobertura da imprensa brasileira, é perceptível o tom de decepção com o resultado do primeiro turno chileno, que colocou o direitista Sebastián Piñera com folga bem menos elástica do que o previsto.

Mas Vinicius Mota arranja o que comemorar: o baixo comparecimento e o desencanto dos chilenos com a disputa, algo "típico de nações desenvolvidas, em que o resultado eleitoral altera pouco o rumo da comunidade".

É uma velha tese conservadora. Nos anos 1960, Seymour Lipset já escrevia que, quanto menos gente vota, mais sólida está a democracia.

O que está por trás é a demofobia de sempre. Não é que as pessoas devam abandonar as eleições em favor de formas mais efetivas de tomada coletiva de decisão. É que devem abandonar qualquer expectativa de mudar o mundo e aceitar que suas vidas sejam totalmente controladas pelas forças do mercado.

A democracia, entendida de acordo com seu significado genuíno (dar poder a quem não o tem, promover a igualdade na capacidade de influenciar a vida coletiva), continua sendo uma ideia altamente subversiva. É por isso que todas as campanhas para retirar direitos e prejudicar a vida das maiorias começam por golpeá-la.

Morre Charles Manson, mais famoso assassino americano

Kissinger matou um milhão de vezes mais, mas quem está contando?

Aos 83 anos, serial killer Charles Manson morre na Califórnia
O Globo

O serial killer americano Charles Manson, líder da seita que assassinou a atriz Sharon Tate e mais seis pessoas em 1969, morreu neste domingo, aos 83 anos. Ele estava internado em estado grave em um hospital de Bakersfield, na Califórnia. Um dos criminosos mais conhecidos nos Estados Unidos, ele estava preso desde 1971. A notícia da morte veio de Debra Tate, irmã da atriz morta pela seita de Manson.

Manson foi hospitalizado em janeiro para ser operado por lesões no intestino e uma hemorragia interna, mas seu estado foi considerado muito frágil para isto e ele retornou à prisão.

Ainda insuspeito, o assassino fundou a comunidade hippie conhecida como "A famíia" enquanto vivia entre artistas e músicos na Califórnia do período contracultural, mas liderou o movimento como uma seita composta por seguidores que acreditavam em teorias de que poderiam fazer com que estourasse uma guerra civil entre brancos e negros, interpretada através de músicas do "Álbum branco", dos Beatles.

O americano Charles Manson foi o autor de uma massacre no qual foi morta a atriz Sharon Tate, mulher do diretor Roman Polanski. Na época do assassinato, ela estava grávida. Outras seis pessoas também morreram. Ele se encaixa na seara de psicopatia severa, o que é minoria entre os sociopatas.

Ele foi condenado à morte em 1971 ao lado de quatro de seus discípulos pelo assassinato bárbaro de sete pessoas em Los Angeles — incluindo Sharon Tate, que era mulher do cineasta Roman Polanski, grávida de oito meses e meio, em agosto de 1969. As condenações foram comutadas para prisão perpétua, assim como as de seus principais seguidores, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel, Leslie Van Houten e Charles “Tex” Watson.

No fim de 2014, Manson pediu autorização para se casar com uma mulher de 26 anos, Afton Elaine Burton. Depois, desistiu da ideia após descobrir que ela pretendia usar seu corpo para fins de exposição quando ele morresse. Em 2012, apresentou uma demanda para obter liberdade antecipada, que foi rejeitada. Ele teria que esperar até 2027 para fazer um novo pedido.

Ao longo dos anos, Manson se consolidou ainda como ícone cultural: a brutalidade dos assassinatos cometidos por sua seita, que por alguns anos viveu em meio a pacíficas comunas hippies da Califórnia dos anos 1960, ficou marcada no imaginário popular dos EUA. Um choque em uma geração que havia ficado marcada pelo discurso de paz a subversão do chamado american way of life.

"Muitas pessoas que conheço em Los Angeles acreditam que os anos 1960 acabaram abruptamente em 9 de agosto de 1969", escreveu a autora Joan Didion.

— Deixem marcas para que o mundo saiba que estiveram aqui — disse Manson em uma das várias entrevistas que deu desde a prisão, quando perguntado sobre o que diria aos jovens.

Alienígenas racistas


Os alienígenas do passado e os racistas do presente


No dia da consciência negra, uma pergunta: por que europeus e estadunidenses dizem que extraterrestres fizeram as pirâmides do Egito, mas não falam que o coliseu e o Parthenon foram obras alienígenas? A resposta está no racismo histórico do colonialismo, de não aceitar que uma civilização africana seja capaz de realizar feitos monumentais. O extraterrestre surge como pretexto para ocultar uma verdade inegável: as origens orientais do ocidente, ou melhor dizendo, africanas e asiáticas. Não, a história não começa com Grécia e Roma. Como disse Fidel Castro, todos somos afrodescendentes, inclusive pelo que entendemos por "civilização".

Eleições no Chile

Proposta de governo da direita
Victor Farinelli

CHILE URGENTE

(balanço rápido das eleições presidenciais, com 90% dos votos apurados e uma tendência já clara)

1) A direita vence o primeiro turno com Sebastián Piñera, mas com muito menos do que se esperava: a média das pesquisas davam a ele 44% e algumas diziam que poderia vencer de primeira, mas ele fica entre 36 e 37%. Isso não significa que ele perderá no inevitável desempate, mas é uma frustração importante.

2) Os candidatos-jornalistas Alejandro Guillier (centro-esquerda) e Beatriz Sánchez (esquerda) estão praticamente empatados: 22,5% a 20,5% respectivamente. A tendência é que Guillier consiga a vaga, mas a votação de Sánchez é surpreendente - ela marcava entre 13% e 15% nas últimas pesquisas. Sánchez é a representante da Frente Ampla, coalizão que reúne pequenos partidos de esquerda, alguns deles ligados a ex-líderes estudantis. Será importante saber se essas duas forças terão a capacidade de se unir ao menos eleitoralmente no segundo turno. Se isso acontecer, poderiam sonhar com virar o jogo e evitar que o Chile se torne mais um governo na linha de Temer no Brasil e Macri na Argentina.

3) A ultra direita também assusta, com o pinochestista orgulhoso José Antonio Kast, espécie de Bolsonaro chileno, beirando os 8%. Com os votos dele, Piñera alcançaria 45% de eleitorado possível para o segundo turno - numa matemática simples, mas pode-se dizer que ele larga com esse potencial mínimo.

4) Dois candidatos empatam no quinto lugar, entre 5 e 6%: Marco Enríquez-Ominami, social-democrata puro, de esquerda, que deve apoiar Guillier no segundo turno, e Carolina Goic, que faz parte da coalizão centro-esquerdista de Bachelet, mas é da Democracia Cristã, o centrão chileno, que poderia pender pra direita se ameaçado. Os democratas cristãos foram os maiores fracassados da eleição, o partido já fez três presidentes no país mas nessa tentativa de candidatura solo conseguiu votação pífia. Goic disse aos eleitores que não devem votar por Piñera, mas outros caciques mais conservadores do partido não escondem seu ódio ao PC, que faz parte da chapa de Guillier - e menos ainda comporiam com a Frente Ampla de Sánchez, que consideram radical.

domingo, 19 de novembro de 2017

Coisa de preto


COISA DE PRETO
Bernardo Mello Franco

Na segunda-feira, será comemorado o Dia da Consciência Negra. A data foi criada para lembrar a luta contra a escravidão e a desigualdade que ainda separa brancos e negros no Brasil. Quem pensa que este debate é desnecessário deveria dedicar alguns minutos do feriado à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE.

A nova versão do levantamento informa que pretos e pardos somam 63,7% dos desempregados. Isso equivale a um exército de 8,3 milhões entre os 13 milhões de brasileiros que procuram trabalho. Apesar da leve melhora da economia, a taxa de desemprego de pretos e pardos ainda alcança 14,6%. É um índice muito superior ao registrado entre trabalhadores brancos: 9,9%. A média nacional está em 12,4%.

As diferenças também persistem entre a população ocupada. De acordo com os números da PNAD Contínua, pretos e pardos ganham menos, ocupam vagas piores e têm menos estabilidade no emprego.

O rendimento médio desses brasileiros é de R$ 1.531, enquanto o dos brancos chega a R$ 2.757. Pretos e pardos somam 66% dos trabalhadores domésticos e 66,7% dos vendedores ambulantes, mas representam apenas 33% dos empregadores.

Em setembro, a Oxfam Brasil informou que o país ainda levaria sete décadas para equiparar o rendimento dos negros ao dos brancos. Segundo o estudo, os dois grupos só devem se igualar em 2089 -mais de dois séculos depois da Lei Áurea. Agora a projeção parece ter sido muito otimista. De acordo com a PNAD, a desigualdade voltou a crescer nos últimos 12 meses.

Na semana passada, o Brasil debateu o caso do apresentador de TV que foi afastado após se referir a um buzinaço como "coisa de preto". O episódio mostrou que discutir o racismo ainda é importante e necessário. A pesquisa do IBGE nos lembra que também precisamos cobrar políticas públicas para combater a discriminação e tornar o país menos desigual.

Não tendo candidato à presidência viável, a direita vai extinguir o cargo e implantar a Cleptocracia Parlamentarista


Não se tendo candidato à presidência que se preste a liquidar o país e seja aceito pelo povo, extingue-se a presidência da República, transforma-se o cargo em de mera função decorativa e entrega-se o todo poder à súcia de picaretas, nulidades, corruptos e carreiristas que compõem o Congresso Nacional, eleitos a peso de ouro.

Para isso, há excrecências atuantes no Supremo Tribunal Federal.


O neoliberalismo na matriz

Cris Penha

Esse é o produto do Neoliberalismo que tem gerado aumento da desigualdade nos EUA. Vejam: não são pessoas desempregadas. São pessoas empregadas, até professores universitários. Agora imaginem no Brasil, onde a renda é bem menor, os efeitos de políticas neoliberais. Já estamos vendo isso no governo Temer/PSDB. Matéria de hoje na Folha de SP.

Carro vira moradia para trabalhadores do Vale do Silício



DA ASSOCIATED PRESS

Na mesma afluente cidade suburbana em que o Google construiu sua sede, Tes Saldana vive em um pequeno trailer, que estaciona na rua.

Ela admite que "não é uma situação de moradia muito agradável", mas tampouco se pode dizer que é incomum.

Até que as autoridades ordenassem que eles fossem movidos, outros trailers que serviam de moradia a pessoas que não conseguem pagar aluguel ficavam estacionados na mesma rua em que Saldana parava seu veículo.

Os defensores dos moradores de rua e as autoridades municipais dizem que é absurdo que, à sombra do boom na economia tecnológica –com jovens milionários que não veem nada de estranho em pagar US$ 15 por um avocado grelhado na madeira ou US$ 1.000 por um iPhone X–, milhares de famílias não consigam arcar com uma casa.

Muitos dos moradores de rua têm empregos regulares, em muitos casos servindo às pessoas cujos patrimônios astronômicos são o motivo para que o preço da habitação tenha se tornado inacessível para tanta gente.

Saldana e seus três filhos adultos, que vivem com ela, procuraram por acomodações menos rústicas, mas o valor dos aluguéis é de US$ 3.000 ou mais por mês, e a maioria das casas disponíveis fica bem longe. Ela diz que faz mais sentido continuar morando no trailer, perto de onde trabalham, e tentar economizar para um futuro melhor, mesmo que as recentes medidas repressivas da cidade a tenham feito perder sua vaga de estacionamento.

Tudo isso é parte de uma crise crescente na Costa Oeste dos EUA, onde muitas cidades viram uma disparada no número de pessoas que vivem nas ruas, nos dois últimos anos. Contagens realizadas em 2017 demonstram que existem 168 mil moradores de rua nos Estados da Califórnia, do Oregon e de Washington -20 mil a mais do que na contagem precedente, realizada dois anos atrás.

O boom econômico, alimentado pelo setor de tecnologia, e décadas de construção insuficiente causaram uma escassez histórica de habitações de preço acessível.

Isso inverteu a visão tradicional dos moradores de rua como desempregados. Entre eles há vendedores, encanadores, faxineiros –até mesmo professores–, que trabalham, dormem onde podem e são sócios de academias de ginástica para tomarem banho.

Não existe estimativa firme sobre o número de pessoas que vivem em veículos no Vale do Silício, mas o problema é onipresente e aparente a todos que veem trailers estacionados nas ruas da cidade.

Ellen Tara James-Penney, 54, professora-assistente na Universidade Estadual de San Jose, estaciona seu velho Volvo em uma igreja que serve de refúgio aos moradores de rua e come em seu refeitório.

Ela corrige os trabalhos escolares de seus alunos no carro. De noite, reclina o assento do motorista e se prepara para dormir, com um de seus cachorros, Hank, ao seu lado. O marido dela, Jim, alto demais para dormir no carro, se deita do lado de fora em uma barraca, com o outro cachorro do casal, Buddy.

Em resposta à crescente desigualdade de renda, sindicatos e organizações de defesa dos direitos civis criaram a Sillicon Valley Rising, há três anos. O grupo exige melhores salários para as pessoas de baixa renda que fazem com que a região funcione.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Globo Repórter mostra o sucesso da Dinamarca e o fracasso do Brasil e defende modelo brasileiro, claro.


O lugar do caos


Janio de Freitas

A cada fato novo, segue-se uma situação tumultuosa, confrontos, confusão de conceitos, trombadas e agressões às regras vigentes. Quem ainda se importa com esse estado de coisas, transita entre a perplexidade e o desalento, indagando aqui e ali, indagando-se, sempre em vão. Quem nunca se importou, ou cansou de se importar, com a apatia dá a mais eficaz contribuição para a continuidade, senão o aumento, do país desgarrado. E não está menos inquieto do que aqueles outros, porque seus olhos e seus ouvidos não estão imunes ao que se passa, no transtorno inquietante e indiscriminado.

Uma decisão do Supremo desprovida de coragem e de reflexão, por exemplo, dá um novo poder ao Senado, com a preservação imprópria da presença de um senador que, assim rearmado, cria uma crise no seu grande partido, racha-o, e abala a composição do governo. Acaba aí? Não. Nem é certo que venha a ter fim em tempo previsível. A decisão insatisfatória do Supremo permite, ou requer, a extensão judicial do que deu a Aécio Neves: políticos do Rio presos e acusados de corrupção são libertados pela Assembleia fluminense, em imitação ao decidido no Senado. Desponta novo braço da crise, entre Assembleia, Judiciário fluminense, partidos e o Supremo. Um círculo perfeito.

O governo faz das "reformas" um meio de picaretear apoio de "quem tem dinheiro", como diz a crueza do neoliberal Gustavo Franco, para o Michel Temer de 3% de aceitação pública, recordista planetário negativo. A legislação do trabalho, nos seus 77 anos, tem o que ser melhorado, para patrões e empregados. Mas o governo amontoa alterações a granel, com a parcialidade esperável, e manda ao Congresso, que apenas remexe a salada.

Ninguém sabe como aplicar aquilo: a inquietação está nos beneficiados e nos prejudicados. O governo emite medida provisória com as correções mais prementes. Piorou: houve troca de erros por erros. Os assalariados continuam sem saber como e quanto perdem, os empregadores sem saber usar seus novos meios de ganhos. E como a população ativa compõe-se dos dois segmentos, a "reforma" é uma imensa perturbação. A idiotia do governo não relaxa.

Há mais de três anos discute-se a delação premiada. Seu uso descriterioso, em numerosos casos, deu ao pagador da extorsão ou do suborno sentença muito mais pesada que a do recebedor, o qual, ainda por cima, deliberou provocar o desvio de centenas de milhões, ou bilhões mesmo, da Petrobras e de outros cofres da riqueza pública. Os prêmios fixados por procuradores da Lava Jato foram avalizados pelos dois relatores do Supremo, sem dificuldades, até que a imunidade judicial dada aos bilionários Joesley e Wesley Batista causou escândalo. A Procuradoria-Geral da República, ao tempo de Rodrigo Janot, e os ministros Teori Zavascki, Edson Fachin e Cármen Lúcia, pelo Supremo, deram à lei da delação frequente flexibilidade.

O ministro Ricardo Lewandowski negou-a, relatando agora o acordo de delação do marqueteiro Renato Pereira, do grupo de Sérgio Cabral. Devolveu-o à Procuradoria-Geral, por nele encontrar desacordos com a legislação. É o papel que a lei da delação lhe atribui. O acordo, a despeito das trapaças financeiras que o motivam, concede ao "sentenciado" até o direito de viajar quando quiser. A restrição é só dormirem casa durante um ano –se não estiver em viagem.

A devolução do acordo não impede a delação nem prejudica o inquérito, apenas exigindo a correção. Apesar disso, Rodrigo Janot, que encaminhou o acordo, lança suspeita sobre a atitude de Lewandowski: "Será que as investigações foram para rumos indesejáveis?". Maldade por maldade, há outra pergunta possível: será que Rodrigo Janot, com sua generosidade de premiador, queria combater ou mostrar que a corrupção vale a pena? Por hora, com o desastre para o país e os prêmios a quem o prejudicou, a melhor resposta é a pior das duas.

Tempo bom que não volta nunca mais



Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser. Mas houve uma lei que garantia a estabilidade no emprego. Foi assinada por Vargas em 1935. Empresário pagava salgada indenização em caso de demissão sem justa causa. A ditadura acabou com ela por exigência das multinacionais. Hoje, as transnacionais acabaram com o que restava.

Nos trilhos


Uma elite de rapina e uma classe média imbecil


JESSÉ ESTÁ CORRETO

O Brasil está passando por uma desestruturação profunda que envolve:

1. Severos cortes em políticas sociais (PEC do teto);

2. Fim de diversas proteções no mundo do trabalho (terceirização e reforma trabalhista);

3. Mercantilização de importantes dimensões da vida cotidiana dos cidadãos, via não apenas privatizações, mas também afrouxamento regulatório em áreas como fármacos e planos de saúde; e

4. Uma reforma da previdência que deixará uma ou duas gerações sem expectativa de aposentadoria.

Serão entre 25 e 50 anos de caos social, incerteza jurídica e tendência de descrença crescente no sistema político.

E tudo sob a batuta de um presidente não eleito com aprovação popular na margem de erro.

À falta de palavras para nomear esse despautério, só me restam as que ouvia de Jessé Souza, em nossas conversas.

Temos uma "elite de rapina" e uma classe média "imbecil".

sábado, 18 de novembro de 2017

A faísca

Moisés Mendes

A FAÍSCA

Alguém em algum momento terá que cometer o grande gesto, aquele gesto demarcatório que conduz a uma reação coletiva e acaba por provocar mobilizações pela democracia. Um gesto que não precisa ser de um político, de uma celebridade e muito menos de um salvador.

Um gesto de alguém com autoridade moral para confrontar o golpe com sua imoralidade e sua fragilidade. Um gesto aparentemente singelo, mas suficiente, por sua força simbólica, para abalar a estrutura de poder dos corruptos.

Imagino, por idealização, que esse gesto pode ser cometido pelo curador de arte Gaudêncio Fidelis, perseguido desde a suspensão da exposição Queermuseu, no Santander, por pressão da extrema direita.

Gaudêncio terá de depor, sob condução coercitiva, à CPI dos Maus Tratos de Crianças e Adolescentes, por exigência do senador Magno Malta, um dos porta-vozes do fascismo religioso no Brasil.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, negou a Gaudêncio o direito de depor voluntariamente. Não há surpresa nessa decisão. Moraes não precisou plagiar ninguém para determinar que Gaudêncio seja conduzido pela polícia à CPI do Senado.

E agora? Agora Gaudêncio poderia, com sua inteligência, aproveitar o teatro montado no Senado e desnortear o golpe. Não imagino que deva ser herói ou valentão em meio a hienas, mas que aproveite a chance de se defender e de ser o defensor de todos nós.

Falta uma faísca para que o golpe, como já aconteceu antes em tantos outros lugares em circunstâncias semelhantes, sucumba ao poder da maioria. E a maioria está saturada do golpe.

É preciso acionar essa faísca. Gaudêncio pode tentar, outros também poderão tentar mais adiante. A arte tem esse poder de provocar e desestabilizar os fascistas. Falta a faísca.

Qual a diferença entre a velha e a nova ditadura?


Define-se ditadura como o modelo de governo em que um indivíduo ou grupo de indivíduos desrespeita os mecanismos de gestão democrática e impõe sua vontade sobre os cidadãos.

Os sistemas autoritários, exercidos com ou sem a participação do parlamento, apropriam-se do patrimônio público, estabelecem medidas de interdição da manifestação discordante e constituem meios de regular o comportamento dos cidadãos.

Considerado o conceito clássico, resumido acima, não resta dúvida de que o Brasil, desde 2016, vive novamente um período de ditadura.

As finanças públicas são controladas pelo governo de intervenção e utilizadas arbitrariamente para comprar o voto de deputados e senadores.

Por meio de diversos mecanismos de Estado, como as forças coercitivas e o aparato juristocrático, exerce-se permanente repressão à expressão de discordância, criminalizada e punida sumariamente. 

O paradigma seletivo garante a garra da lei sobre qualquer voz dissonante, enquanto assegura plena liberdade aos amigos do regime.

Por fim, os mesmos sistemas, associados à rede da mídia hegemônica, estão mobilizados em uma campanha massiva de estigmatização de comportamentos, de difamação de personalidades progressistas e de detração de grupos minoritários ou divergentes.

Há, no entanto, diferenças na aplicação da regência autoritária. No período de 1964 a 1985, recorreu-se frequentemente à mordaça sobre a mídia, por meio de órgãos como a Divisão de Censura Federal e a Divisão de Censura de Diversões Públicas.

Desta vez, as ações de censura contra artes e espetáculos, por exemplo, são exercidas por meio de figuras do ministério público e dos baixos tribunais, onde a direita nacional lentamente constituiu enclaves de hegemonia.

Esse time de poderosos inquisidores, no entanto, faz tabela com movimentos conservadores organizados, como o MBL, o Vem Pra Rua e o Endireita Brasil, encarregados de agregar as vozes reacionárias e alçar a voz de demanda proibitiva.

Associados a essas representações, cujos líderes são bem remunerados pelo capital interno e externo, cerram fileiras na vanguarda do atraso também os exércitos de articulistas, distribuídos pelos portais digitais noticiosos, pelos jornais, pelas revistas e pelos programas de rádio e TV.

A direita nacional, ironicamente, educou-se em Gramsci melhor do que a esquerda organizada. Dessa forma, operou silenciosamente nos últimos anos para constituir "hegemonias" nos mais diversos setores, da imprensa à academia, da justiça às igrejas, sobretudo as evangélicas.

Esse constructo poderoso e maligno, operado dia e noite, na mídia convencional e também nos canais de comunicação alternativos, consultados pelo computador doméstico ou pelos aparelhos móveis, demonizou o pensamento progressista e convenceu largos setores populares de que as políticas de universalização de direitos constituem um desvio moral da política.

Não à toa, entre aqueles historicamente explorados, enviados de volta aos estratos sociais subalternos, muitos manifestam feroz repúdio a termos como distribuição de renda, direitos humanos e reforma agrária.

Ao mesmo tempo, reproduzem o pensamento retrógrado, fazendo reverberar conceitos fascistas, machistas, racistas e homofóbicos.

Na Ditadura Militar que apeou João Goulart do poder, articulou-se (sobretudo a partir da promulgação do AI-5, em 1968) um aparato de Estado destinado a reprimir a opinião dos diferentes e insatisfeitos. Foi criado, por exemplo, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e o binomial Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

A partir do modus operandi da Operação Bandeirante (OBAN), o governo de usurpação aprisionou, torturou e assassinou. E, muitas vezes, fez desaparecer fisicamente as vítimas do arbítrio.

Na ditadura iniciada em 2016, o sistema de repressão é difuso e não nomeado. A cultura de ódio e intolerância conduz, muitas vezes, o cidadão comum a articular a conduta violenta.

São agentes dessa barbárie reinventada o comerciante de Foz do Iguaçu que folga em aspergir veneno em crianças, a profissional de hotelaria que vai ao aeroporto agredir uma filósofa, os baladeiros bem aquinhoados que esmurram uma mulher na padaria da Rua Augusta e os proletários que, em Fortaleza, espancam até a morte uma travesti.

A nova ditadura é tentacular e espalha seus poderes pelas vozes de promotores, juízes, jornalistas, pastores e simples repassadores de hoaxes pela Internet. É uma ditadura perigosa, extremamente bem estruturada, e que se impôs mesmo antes do rito do impeachment de Dilma Rousseff.

A nova ditadura soube alinhavar, pacientemente, o tecido institucional ao cultural, de modo que as redes de interdição recorrem cada vez menos ao cassetete e à bala de borracha. 

A passeata de mulheres não sente a força da farda, mas se encharca com a urina ensacada que o cidadão "de bem" lhe atira do oitavo andar. Não há agente da lei molestando o professor. É o pai do aluno quem o aborda para censurar o estudo do darwinismo ou da teoria do big-bang.

A nova ditadura terceirizou o terror e a ignorância, inoculando o vírus do rancor nas pessoas comuns, persuadidas de que seus sofrimentos e frustrações têm origem nas práticas de liberdade e solidariedade. 

E elas tratam de propagar a contaminação em suas próprias comunidades, conforme o roteiro dos filmes B de zumbis e outras criaturas monstruosas.

A nova ditadura é mais eficiente e mais eficaz. É altamente destrutiva e inimiga do rito civilizatório. É tremendamente contagiosa e mortal. 

E distribui soldados voluntários em cada esquina, em cada praça, no balcão de cada bar, em cada torcida de futebol, em cada congregação religiosa, em cada família. 

Agora, é assim.

A Globo informa que não pagou propina. O FBI segue investigando


Bob Fernandes

O empresário argentino Alejandro Buzarco negociava direitos de transmissão. Agora, em Nova York delata no julgamento de Marin, ex-presidente da CBF.

Buzarco delatou a Globo. Disse: a Globo pagou propina para comprar diretos de transmissão de Copas e campeonatos.

Delatou também Televisa, Fox, Full Play- argentina- e a espanhola Mediapro. Que negocia direitos no mercado europeu.

Em novembro de 2015, Jamil Chade lançou o livro "Política, Propina e Futebol". Jamil, correspondente do Estadão na Suíça há 18 anos.

Em fevereiro de 2016 relatamos aqui: a página 77 desse livro seguia invisível... E ainda segue...

Na página 77 a revelação de procuradores suíços: propina foi paga pelos direitos de transmissão das copas 2002 e 2006. Naquelas Copas, direitos comprados pela Globo.

Agora Buzarco delata: a Globo teria pago propina de US$ 15 milhões pela exclusividade dos direitos para 2026 e 2030.

Licitação e resultados para 2026 e 2030 não tornados público pela Fifa. Porque sequer se escolheu onde serão tais Copas.

A Globo assegura: fez auditoria interna, nunca pagou propina e não é investigada no caso...

...O FBI não investiga empresas. Investiga pessoas. Não investiga a FIFA, investiga o Blatter. Não investiga a CBF, e sim Ricardo Teixeira, Del Nero, Marin...

O FBI está investigando ex-funcionários da Globo nesse setor. O principal deles, Marcelo Campos Pinto, ex-diretor que negociava pela Globo.

Todos deixaram a Globo entre 2013 e 2016. Campos Pinto depois da prisão de Marin pelo FBI.

Ao menos quando deixou a emissora, Campos Pinto não teria assinado termo de responsabilidade.

Das emissoras do mundo, Campos era o único que se hospedava onde estavam dirigentes da FIFA, o hotel Baur Au Lac, em Zurique.

Campos Pinto era conselheiro do Comitê de Mídia da Fifa. E negociador dos direitos para a Tv Globo.

O Jornal Nacional informou não ter conseguido falar com Campos Pinto. A Globo assegura que propinas não foram pagas.

Ricardo Teixeira e Del Nero seguem exilados no Brasil, intocáveis. Mas tem o Nuzman...
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