sábado, 23 de setembro de 2017

Fé demais



Feito na América

Cristóvão Feil

FEITO NA AMÉRICA, o filme

[Baseado em uma verdadeira mentira.]

Drogas são uma cadeia produtiva longa e pontilhada de atores.

Começa no agricultor do altiplano andino (que ganha uma merreca) e termina nos grandes bancos lavadores de dinheiro.

No meio deste sanduíche insalubre, temos senadores, traficantes de armas, e uma legião de mulas, soldados, sicários, chefetes, chefões, etc.

Vejam o filme "Feito na América", onde se pode entender melhor os meandros das drogas, inclusive, como financiamento de contra-revolução e políticos lesa-pátria.

Observem como a lei é burlada para servir de instrumento da "realpolitik" do Império.

A nossa Lava-Jato, neste sentido, não fica muito longe deste modelito 'Made In USA'.

Loucos assumiram comando do Hospício Brasil

Fernando Horta


Por favor, me digam quem é o mais fora da realidade?

Cármen Lúcia dizendo que "as instituições estão funcionando"?

Temer dizendo que "estão forjando provas contra mim"?

Moro dizendo "o juízo é imparcial e se pauta somente pelas leis"?

Dallagnol dizendo que "as dez medidas são propostas pelo povo para diminuir a corrupção".

Aldo Rebello dizendo "os militares são nacionalistas e se comprometem a defender o Brasil"?

Ciro Gomes dizendo "Lula faz um desserviço para o país concorrendo"?

Raquel Dodge dizendo que "é preciso gravar as conversas entre advogado de defesa e seu cliente como forma de diminuir a insegurança"?

Geddel dizendo que "está sob ameaça de ser estuprado e precisa ir para casa"?

Gilmar Mendes dizendo que "ele é imparcial para julgar seus padrinhos mesmo e ninguém pode aventar o contrário"?

Rodrigo Maia dizendo que "o congresso trabalha sem parar para melhorar a vida do cidadão" (quando votou as reformas)?

Janot dizendo que "fui enganado por Muller e se ele recebeu dinheiro eu não sei de nada".?

Pezão dizendo que "o exército está no RJ para ajudar na segurança"?

Raul Jungmann dizendo que "o exército está pronto e treinado para este tipo de missão"?

Moniz Bandeira dizendo "é preciso uma intervenção militar nacionalista para colocar o Brasil no rumo"?

Ainda tem a esquerda batendo palma para o golpe branco que estão armando contra o corrupto do Temer e acreditando que sai algo de positivo daí. E a direita achando que tem "apoio do povo".

Colocaram o país nas mãos dos mais despreparados entre nós, este é o resultado.

Senta que lá vem história

Antero Greco 

Quer uma historinha? Lá vai.

Esta o barbeiro aqui do lado de casa me contou.

Ele mora num bairro da periferia de São Paulo, lá pros confins da Zona Leste. Tem vizinho de tudo quanto é qualidade, ofício e ociosidade também. A maioria, claro, gente honesta, que sua sangue para ter vida minimamente digna.

Tem os que, digamos, se viram.

Caso de um mecânico especializado em motos. A oficina fica nos fundos da casa. Modesta, pouco aparelhada. Porém, lhe garante o sustento e um ou outro luxo, como celular bom, tevê nova, geladeira frost free, carrinho da hora. Aquelas bossas... E uma assinatura de tevê a gato.

De vez em quando, para não se indispor com a turma da pesada do pedaço, ele dá um jeito em “motos encrencadas”, eufemismo para “roubadas”. Conserta, modifica, as torna diferentes. Novas e irreconhecíveis.

Dias desses, logo de manhã, a polícia bateu na porta da casa dele. Denúncia anônima falou de uma oficina clandestina que “dava jeito” em motocas furtadas. O amigo do barbeiro, já na labuta, mãos sujas de graxa, atende. 

Toma um susto ao ver os policiais e, por instinto, assim que abre a porta, enfia as mãos nos bolsos, engorduradas mesmo. E vem o diálogo.

“Pois não? ”

“O senhor mora aqui? ”

“Moro, sim senhor. ”

“Disseram que tem uma oficina de motos aí no fundo. ”

“Ah, é? Sei não. Mudei pra cá faz um mês. Saio de manhã e volto à noite. ”
“Nunca viu nada estranho. ”

“Não. Tem mais morador aqui. Eu fico fora o dia todo. ”

Disse isso e acrescentou: “Me dão licença, preciso ir comprar pão na padaria. ”

Falou e foi passando, ligeiro, no meio dos policiais. E pensava. “Chego na esquina e dou no pé. ”

Tinha caminhado poucos metros e ouve a polícia batendo palma na casa vizinha. Nela mora um mudinho. Assim que os policiais perguntam pelo dono da oficina, ele grunhe: “Uhhn, nhunhu, gruuu!!!” e aponta o dedo para o amigo do barbeiro.

O mecânico saiu correndo, desapareceu do bairro por um tempo.

Passado o perigo, voltou pra casa, avisou a turma da pesada que não iria mais arrumar “moto entortada” (variação de encrencada) e fechou a história com esta observação:

“Mas, ôxi satanás! Tanta gente pra me denunciar e quem me cagueta é o mudinho?!”

É, amigo, hoje em dia de onde menos se espera vem a delação...

Escombros de um projeto de país


Luis Felipe Miguel

Com todos os percalços, com todas as limitações, a partir do fim da ditadura militar nós estávamos começando a construir um país. Não era o país dos sonhos de ninguém - pelo menos não o dos meus. Era ainda injusto, pobre e violento. Mas era um país em construção que nos permitia vislumbrar a possibilidade de novos avanços.

Mas as classes dominantes brasileiras veem qualquer evolução no país como uma ameaça direta a elas. Os progressos dos últimos anos, que tantos de nós considerávamos muito tímidos e eivados de contradições, já foram demais. Então, com uma fúria impressionante, elas se dispuseram a destruir tudo o que se começara a construir.

Os resultados estão à nossa vista. O país que se projetava está dando lugar a um monte de escombros. Das ruas do Rio de Janeiro, transformadas em praça de guerra, ao Supremo dando mais um passo em sua desmoralização e enterrando a ideia de Estado laico, os últimos dias foram férteis em evidências do que está acontecendo.

A ditadura venezuelana e a democracia brasileira



A Venezuela é uma ditadura onde há eleições para todos os cargos, plebiscitos para consultar a opinião pública, partidos políticos de oposição, imprensa que ataca o governo todos os dias e manifestações de protesto nas ruas. O Brasil é uma democracia onde a presidenta eleita é deposta num golpe de estado, a Constituição é violada por reformas arbitrárias do Congresso, o Judiciário não investiga crimes praticados por políticos de um partido -- o P$DB -- e pune sem provas políticos de outro partido -- o PT --, ninguém sabe se haverá eleições em 2018, generais da ativa defendem a volta da ditadura militar e a imprensa hegemônica conta apenas uma versão dos fatos.

Golpe entra em nova fase com intervenção militar, queda de Temer e cooptação de Aldo Rebelo

Fernando Horta

Duplo twist mortal carpado.

É nisto que estão colocando o país. Agora, uma parte da esquerda comemora um duplo twist mortal carpado em que não se tem a mínima noção onde se vai parar.

Em princípio, os militares derrubariam Temer com um golpe branco, fariam Aldo sair do PCdoB (porque eles não aceitam comunista no governo) ir para o PSB (que ultimamente se transformou em nacional-socialista e nada tem mais de esquerda) para ser vice do Maia (delatado, corrupto, enfiado em todas as maracutaias e sem o mínimo do brilho de um Sarney ou de um Renan).

Eu não sei quem convenceu estes golpistas brancos e a esquerda de que isto é alguma solução. Isto é mais uma pirueta completa sem que ninguém saiba o que vai acontecer. E, notem, se os militares não "aceitam" Aldo Rebello (que dizem ser um "homem forte" no Partido Comunista) isto significa que continuarão mandando no país e expurgando quem eles acham que é problema. O que farão com Lula? Com Dirceu? Com os cientistas de humanas, historiadores, politólogos? O que farão?

Não me peçam para aplaudir isto, vamos ainda mais para o fundo. Especialmente com a demonstração de inabilidade militar que está sendo dada no RJ...

Estávamos caindo, mas agora vamos nos esborrachar ... assumam todos a posição para o impacto. E estoquem água.

Janot sai mesquinho, do mesmo modo que entrou



POR EUGÊNIO ARAGÃO, ex-ministro da Justiça

Quem leu a notívaga mensagem de despedida de Janot aos colegas pôde até se convencer de que ele nada tem a ver com o estado de caos que deixou no País, tal a força das palavras que usou, com a mesma prosódia de seu patético “Corrupção, Nãããão“, chororô com que se lançara na campanha de destruição da democracia no País.

Mas, em verdade, os “larápios egoístas e escroques ousados” estão no poder porque ele deixou. Talvez sua vaidade lhe ofuscou a vista. Pensar assim é menos grave que lhe apontar protagonismo no golpe de 2016. Foi, porém, sua omissão imprópria que permitiu a Temer e sua turma praticar o maior arrastão de que se tem notícia na história política do Brasil.

Vamos recapitular, Dr. Janot?

Para começar, o Sr. não foi escolhido PGR porque foi o primeiro da lista, mas porque prometeu acalmar o País, então sob forte comoção de uma ação midiática em torno da Ação Penal 470-DF, do STF, o chamado processo do “mensalão”. O Sr. criticava fortemente seus antecessores, por atuação que entendia politiqueira, a começar pelo caso de José Genoino, que, no seu próprio entender, tinha sido condenado por um jogo de conveniências, de forma injusta. O Sr. prometeu atuação mais discreta, equilibrada e com esforço de manter íntegras as instituições. O Sr. prometeu diálogo permanente com os atores políticos do Congresso e do governo. O Sr. prometeu desfazer injustiças cometidas pelo açodamento midiático do ministério público. Foi por isso que foi escolhido.

O Sr. sabe muito bem que a balança, na indicação, pendia mais forte para Ela Wiecko, pessoa com comprovado compromisso com as causas sociais e com severas restrições, abertamente expostas ao debate acadêmico, ao punitivismo moralista. O Sr. sabe que, até o dia em que foi formulado o convite a si, Ela Wiecko era candidata tão quanto ou mais forte que o Sr. Nada valia seu boquirroto primeiro lugar na lista e, sim, a palavra por mim empenhada aos interlocutores da Senhora Presidenta da República de que o seu era o melhor nome.

O que ninguém podia imaginar – e muito menos eu, que o conhecia há quase trinta anos e sempre o tive como parte de um projeto democrático de defesa do Estado de Direito – era que o Sr. estava praticando propaganda enganosa, com único fim de ser escolhido e colocar uma cerejinha no chantilly de seu currículo pífio. A vaidade é um sinal da fraqueza que acaba por contaminar qualquer propósito ético ou político. E o Sr. se revelou por quatro anos um fraco.

Mal instalado na cadeira de PGR, pede a prisão de José Genoino, quem sabia inocente e a quem prometera proteger, se o caso fosse, até o abrigando em sua casa. Mas não foi só isso. Revelou-se, em almoço festivo na sua casa, agastado, de público, com a repercussão midiática de minhas entrevistas como seu Vice-Procurador-Geral Eleitoral. Tinha medo de que lhe fizesse sombra. Não foi preciso. Sua mediocridade o colocou na sombra.

O que se deu a partir de março de 2014 é bem conhecido do País. Com o início da Operação “Lava Jato”, o Sr. ensaiou o contraponto. Tentou conversar e buscou  preservar ativos de empresas em risco. A turma de Curitiba deu piti. Ameaçou o escândalo midiático com o Sr. no Centro. O Sr. foi dominado pela paúra, né? Enfrentar adversidades não parecia ser seu forte. Viajou para os Esteitis só com seus lambisgóias, vetando a participação da União e do executivo federal.

Uma extensa agenda de órgãos do governo americano o esperava. E o Sr. não queria aqueles a bordo, que teria que entregar. O governo brasileiro. Voltou de lá e já não queria papo sobre preservação de ativos: “Isso é muito maior do que nós!”, me advertiu. Nós quem, cara pálida? Só se o Sr. se vê tão pequeno, que não é capaz de lutar contra os que querem afundar a Pátria! Tamanho é relativo. Prefiro ser o Davi a enfrentar Golias.

Mas o Sr. não. Preferiu esconder sua fraqueza no moralismo tacanho que faz sucesso neste País dominado pela falta de ideias e de ideais. “Corrupção, Nãããão” – dããã! Faltava só o sorvete na testa. Como o impulso agora era seguir a manada no seu estouro contra as instituições, passou a fustigar a Presidenta que o nomeou no esforço de pacificação nacional. Traiu sua missão. Cruzou os braços diante do mais descarado processo de quebra da constitucionalidade, o impeachment sem crime. “Matéria interna corporis”. E o País que se dane. “Nu d’eis é bom. Nu meu não”, seu bordão pusilânime.

E quando Moro praticou o crime de vazar gravações ilícitas, o Sr. se calou. Mais adiante, prestes a ser votada a admissibilidade do impedimento no Senado, o Sr. mandou instaurar um inquérito contra a Presidenta por fato pífio e sem lastro probatório: a nomeação do colega Marcelo Navarro para o STJ, que, segundo Delcidio do Amaral, teria sido escolhido para abafar a responsabilidade da Odebrecht. Ora, ora. O Sr. devia saber da inverdade dessa falsa delação. O Sr., tanto quanto eu, conhecia bem Marcelo, pessoa corretíssima, de conduta ética irreprochável. Tanto que o Sr. pediu por ele. Pedir pela indicação então é republicano e atender o pedido é criminoso? Explique-me isso. Mas o motivo de instaurar o inquérito, calçado na palavra de um escroque, era útil para destituir Dilma Rousseff. E a partir daí veio o caos que nos transtorna até os dias de hoje.

O Sr., internamente, se cercou de uma corriola, de gente que o adulava interesseiramente e o tornava impermeável a outras opiniões. Vocês se mereceram, o Sr. e seu “grupo de colegas”, que excluíram os demais. A patotinha “neo-tuiuiú”, que foi o desastre de sua administração. Quase todos foram promovidos por “merecimento” em detrimento de muitos outros valiosos procuradores mais antigos. Preferiu a opinião dos verdes ativistas à dos maduros serenados. E se submeteu a essa opinião. Sei que o Sr. mal lia o que assinava. Deixava tudo para seu “Posto Ipiranga”, seu chefe de gabinete, resolver. E, geralmente, resolvia de forma conspirativa, vendo inimigos para todos os lados. A vaidade foi dando lugar à paranoia.

Mas, cá para nós, suas peças processuais eram de qualidade duvidosa. Teori Zavascki, de saudosa memória, já o notava. Seu “Posto Ipiranga”, pelo jeito, era tão pouco Ipiranga, quanto o Sr. era o homem público que prometera ser. Lembro-me de um mal escrito parecer que queria que eu assinasse em sua substituição, no habeas corpus impetrado por Marcelo Odebrecht. Abundavam os adjetivos, as frases feitas, as muletas de linguagem e os clichês. Liguei para o Sr., avisando que não subscreveria a pérola na forma em que estava redigida. Dei-lhe a opção: aguardar seu retorno, para o Sr. mesmo assinar ou refazer a peça. Comprometi-me, por lealdade, a não alterar a conclusão, mas não teria como assinar um parecer daquele jeito. O Sr. preferiu que eu corrigisse. E assim foi feito. Só com supressão de adjetivos e frases feitas o parecer perdeu quase metade de sua extensão.

Mas essa turminha de colegas foi bem remunerada para fazer sua corte. Dez diárias mensais ou auxílio moradia com função comissionada, com redução a 20% do volume de trabalho no ofício de lotação. Melhor do que isso só a vida do Moro, que tem exclusividade para os feitos da tal “Lava Jato” para poder passear mundo afora a fazer campanha de si mesmo. E ainda ganha diárias e honorários de conferencista. Para vocês, este  País é uma piada. Para outros, a maioria, é exclusão e sofrimento.

Blasé. Rempli de soi même. É nisso que o Sr. se converteu. Um bufão que nada entende e nunca entendeu de direito penal a subscrever palpites que os outros redigiram para si. Mas a farmácia no gabinete ia muito bem, com uns bons goles para refrescar sua vaidade.

A melhor coisa, depois de tanta parvidade desastrosa para o País, depois de tanto amadorismo dourado em combate à corrupção, era o Sr. sair calado. Em boca fechada não entra mosca. Mas não, esqueceu-se que agora já não passa de um subprocurador da planície e, com o biquinho dos despeitados, não aceitou ser convidado, como todos, por meio eletrônico. Insistiu na majestade perdida. Sua pequenez, até na saída, chegou  a ser assustadora.

Dr. Janot, sei que não é fã do Evangelho, mas nele há muita sabedoria. Talvez devesse lê-lo. Mire-se em Lucas 14:7-14, na parábola dos primeiros lugares (Lc 14:7-14).

“7 Reparando como os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola:

8 Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar; para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu,

9 vindo aquele que te convidou e também a ele, te diga: Dá o lugar a este. Então, irás, envergonhado, ocupar o último lugar.

10 Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de todos os mais convivas.

11 Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado.”

Palavras do Senhor.

PS. Adorei ver o Sr., no seu voo de férias para Portugal, na boa companhia de Gilmar Mendes, de quem o Sr. dizia manter conflito meramente pessoal comigo. Deve ter sido um deleite para todos os passageiros experimentar essa coincidência cáustica. O Diabo sabe para quem aparece. E o Sr. está muito bem na foto em classe executiva. Sempre disse que procuradores da república são a categoria mais bem paga do Brasil. Poderia fazer um filme sobre suas “Vacances de M. Janot”– e o nome do filme seria  “Incendiou o País e saiu de férias”.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Escravidão, e não corrupção, define sociedade brasileira

Escravidão, e não corrupção, define sociedade brasileira, diz Jessé Souza
RESUMO Autor argumenta que a visão do brasileiro como vira-lata, pré-moderno, emotivo e corrupto decorre de uma leitura liberal, conservadora e equivocada de nosso passado. Para ele, é preciso reinterpretar a história do Brasil tomando a escravidão como o elemento definitivo que nos marca como sociedade até hoje.

Quem sintetizou a interpretação dominante do Brasil, que todos aprendemos nas escolas e nas universidades, foi Gilberto Freyre (1900-87). É a ideia de que viemos de Portugal e que de lá herdamos um jeito específico de ser. Para o autor de "Casa-Grande e Senzala" e para seguidores como Darcy Ribeiro (1922-97), essa herança era positiva ou, pelo menos, ambígua.

Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), outro filho de Freyre, reinterpreta a ideia como pura negatividade em registro liberal. Cria, assim, o brasileiro como vira-lata, pré-moderno, emotivo e corrupto. Tal visão prevaleceu, e quase todos a seguem, de Raymundo Faoro (1925-2003), Fernando Henrique Cardoso e Roberto DaMatta a Deltan Dallagnol e Sergio Moro.

Essa é a única interpretação totalizante da sociedade brasileira que existe até hoje.

A "esquerda", entendida como a perspectiva que contempla os interesses da maioria da sociedade, jamais construiu alternativa a essa leitura liberal e conservadora. Existem contribuições tópicas geniais, mas elas esclarecem fragmentos da realidade social, não a sua totalidade, permitindo que, por seus poros e lacunas, penetre a explicação dominante.

A ausência de interpretação própria fez com que a esquerda sempre fosse dominada pelo discurso do adversário. Reescrever essa história é a ambição de meu novo livro, "A Elite do Atraso - Da Escravidão à Lava Jato" [Leya, 240 págs., R$ 44,90]. O fio condutor é a ideia de que a escravidão nos marca como sociedade até hoje —e não a suposta herança de corrupção, como se convencionou sustentar.

Para Faoro, por exemplo, a história do Brasil é a história da corrupção transplantada de Portugal e aqui exercida pela elite do Estado. Nessa narrativa, senhores e escravos raramente aparecem e nunca têm o papel principal.

Essa abordagem seria apenas ridícula se não fosse trágica. Faoro imagina a semente da corrupção já no século 14, em Portugal, quando não havia nem sequer a concepção de soberania popular, que é parteira da noção moderna de bem público. É como ver um filme sobre a Roma antiga cheio de cenas românticas que foram inventadas no século 18. Não obstante, o país inteiro acredita nessa bobagem.

ESCRAVIDÃO

Os adeptos dessa interpretação dominante parecem não se dar conta de que, em uma sociedade, cada indivíduo é criado pela ação diária de instituições concretas, como a família, a escola, o mundo do trabalho.

No Brasil Colônia, a instituição que influenciava todas as outras era a escravidão (que não existia em Portugal, a não ser de modo tópico). Tanto que a (não) família do escravo daquele período sobrevive até hoje, com poucas mudanças, na (não) família das classes excluídas: monoparental, sem construir os papéis familiares mais básicos, refletindo o desprezo e o abandono que existiam em relação ao escravo.

Também no mundo do trabalho a continuidade impressiona. A "ralé de novos escravos", mais de um terço da população, é explorada pela classe média e pela elite do mesmo modo que o escravo doméstico: pelo uso de sua energia muscular em funções indignas, cansativas e com remuneração abjeta.

Em outras palavras, os estratos de cima roubam o tempo dos de baixo e o investem em atividades rentáveis, ampliando seu próprio capital social e cultural (com cursos de idiomas e pós-graduação, por exemplo) e condenando a outra classe à reprodução de sua miséria.

A classe que chamo provocativamente de ralé é uma continuação direta dos escravos. Ela é hoje em grande parte mestiça, mas não deixa de ser destinatária da superexploração, do ódio e do desprezo que se reservavam ao escravo negro. O assassinato indiscriminado de pobres é atualmente uma política pública informal de todas as grandes cidades brasileiras.

A nossa elite econômica também é uma continuidade perfeita da elite escravagista. Ambas se caracterizam pela rapinagem de curto prazo. Antes, o planejamento era dificultado pela impossibilidade de calcular os fatores de produção. Hoje, como o recente golpe comprova, ainda predomina o "quero o meu agora", mesmo que a custo do futuro de todos.

É importante destacar essa diferença. Em outros países, as elites também ficam com a melhor fatia do bolo do presente, mas além disso planejam o bolo do futuro. Por aqui, a elite dedica-se apenas ao saque da população via juros ou à pilhagem das riquezas naturais.

INTERMEDIÁRIAS

Historicamente, a polarização entre senhores e escravos em nossa sociedade permaneceu até o alvorecer do século 20, quando surgiram dois novos estratos por força do capitalismo industrial: a classe trabalhadora e a classe média.

Em relação aos trabalhadores, a violência e o engodo sempre foram o tratamento dominante. Com a classe média, porém, a elite se viu contraposta a um desafio novo.

A classe média não é necessariamente conservadora. Tampouco é homogênea. O tenentismo, conhecido como nosso primeiro movimento político de classe média, na década de 1920, já revelava essas características, pois abrigava múltiplas posições ideológicas.

A elite paulistana, tendo perdido o poder político em 1930, precisava fazer com que a heterodoxia rebelde da classe média apontasse para uma única direção, agora em conformidade com os interesses das camadas mais abastadas. Como naquele momento os endinheirados de São Paulo não controlavam o Estado, o caminho foi dominar a esfera pública e usá-la como arma.

O que estava em jogo era a captura intelectual e simbólica da classe média letrada pela elite do dinheiro, para a formação da aliança de classe dominante que marcaria o Brasil dali em diante.

O acesso ao poder simbólico exige a construção de "fábricas de opiniões": a grande imprensa, as grandes editoras e livrarias, para "convencer" seu público na direção que os proprietários queriam, sob a máscara da "liberdade de imprensa" e de opinião.

A imprensa, todavia, só distribui informação e opinião. Ela não cria conteúdo. A produção de conteúdo é monopólio de especialistas treinados: os intelectuais. A elite paulistana, então, constrói a USP, destinando-a a ser uma espécie de gigantesco "think tank" do liberalismo conservador brasileiro, de onde saem as duas ideias centrais dessa vertente: as noções de patrimonialismo e de populismo.

LAVA JATO

Enquanto conceito, o patrimonialismo procede a uma inversão do poder social real, localizando-o no Estado, não no mercado. Abre-se espaço, assim, para a estigmatização do Estado e da política sempre que se contraponham aos interesses da elite econômica. Nesse esquema, a classe média cooptada escandaliza-se apenas com a corrupção política dos partidos ligados às classes populares.

A noção de populismo, por sua vez, sempre associada a políticas de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a importância da soberania popular como critério fundamental de uma sociedade democrática —afinal, como os pobres ("coitadinhos!") não têm consciência política, a soberania popular sempre pode ser posta em questão.

É impressionante a proliferação dessa ideia na esfera pública a partir da sua "respeitabilidade científica" e, depois, pelo aparato legitimador midiático, que o repercute todos os dias de modos variados.

As noções de patrimonialismo e de populismo, distribuídas em pílulas pelo veneno midiático diariamente, são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média como sua tropa de choque.

Essas noções legitimam a aliança antipopular construída no Brasil do século 20 para preservar o privilégio real: o acesso ao capital econômico por parte da elite e o monopólio do capital cultural valorizado para a classe média. É esse pacto que permite a união dos 20% de privilegiados contra os 80% de excluídos.

A atual farsa da Lava Jato é apenas a máscara nova de um jogo velho que completa cem anos.

Em conluio com a grande mídia, não se atacou apenas a ideia de soberania popular, pela estigmatização seletiva da política e de empresas supostamente ligadas ao PT —o saque real, obra dos oligopólios e da intermediação financeira, que capturam o Estado para seus fins, ficou invisível como sempre. Destruiu-se também, com protagonismo da Rede Globo nesse particular, a validade do próprio princípio da igualdade social entre nós.

O ataque seletivo ao PT, de 2013 a 2016, teve o sentido de transformar a luta por inclusão social e maior igualdade em mero instrumento para um fim espúrio: a suposta pilhagem do Estado.

Desqualificada enquanto fim em si mesma, a demanda pela igualdade se torna suspeita e inadequada para expressar o legítimo ressentimento e a raiva que os excluídos sentem, mas que agora não podem mais expressar politicamente.

Assim, abriu-se caminho para quem surfa na destruição dos discursos de justiça social e de valores democráticos —Jair Bolsonaro como ameaça real é filho do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo.

O pacto antipopular das classes alta e média não significa apenas manter o abandono e a exclusão da maioria da população, eternizando a herança da escravidão. Significa também capturar o poder de reflexão autônoma da própria classe média (assim como da sociedade em geral), que é um recurso social escasso e literalmente impagável.

JESSÉ SOUZA, 57, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), é autor de "A Tolice da Inteligência Brasileira" e "A Radiografia do Golpe" (Leya), além de professor de sociologia da UFABC.

País de merda

Leandro Fortes

ENSINO RELIGIOSO

A ciência discutindo multiversos e o STF do Brasil decidindo sobre qual papai do céu é melhor de se ensinar nas escolas.

País de merda.

As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o "caos". Elas foram parte fundamental do caos.


As Forças Armadas não agem contra o 'caos', mas são parte fundamental dele
Vladimir Safatle

Talvez não exista momento mais propício do que este para se lembrar da frase de Adorno e Horkheimer, para quem há horas em que não há nada mais estúpido do que ser inteligente. A frase se referia à incapacidade de setores da sociedade alemã de encararem claramente os signos de ascensão do nazismo no começo dos anos 1930 e pararem de procurar explicações sutis e inteligentes sobre a impossibilidade de o pior ocorrer. Dificilmente raciocínio dessa natureza não se aplicaria ao Brasil atual.

De fato, nosso país tem ao menos a virtude da clareza. E foi com a clareza a guiar seus olhos redentores que o general Antonio Hamilton Mourão revelou aos brasileiros que as Forças Armadas têm um golpe militar preparado, que há uma conspiração em marcha a fim de destituir o poder civil. Para mostrar que não se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das punições, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas descartou qualquer medida e ainda foi à televisão tecer loas a ditaduras e lembrar que, sim, as Forças Armadas podem intervir se o "caos" for iminente.

O "caos" em questão não é a instauração de um governo ilegal e brutalizado saído dos porões das casernas. Ao que parece, "caos" seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país?

Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária.

De toda forma, como esperar moralidade de uma instituição que nunca viu maiores problemas em abrigar torturadores, estupradores, ocultadores de cadáveres, operadores de terrorismo de Estado, entre tantas outras grandes ações morais? As Forças Armadas brasileiras nunca tomaram distância dessas pessoas, expondo à nação um mea-culpa franco.

Ao contrário, elas os defenderam, os protegeram, até hoje. Que, ao menos, elas não venham oferecer ao país o espetáculo patético de aparecerem à cena da vida pública como defensoras de um renascimento moral feito, exatamente, pelas mãos de imoralistas. As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o "caos". Elas foram parte fundamental do caos.

É verdade que setores da sociedade civil sonham com mais um golpe como forma de esconder o desgoverno que eles mesmos produziram. Há setores do empresariado nacional que articulam abertamente nesse sentido, sonhando como isto não terem que se confrontar mais com uma população que luta pelos seus interesses. Para tanto, eles apelam ao artigo 142 da Constituição de 1988.

Este artigo fora, desde o início, uma aberração legislativa imposta pelos próprios militares. Ele legalizava golpes de Estado, da mesma forma que o artigo 41 da República de Weimar, que versava sobre o estado de emergência, permitiu a ascensão da estrutura institucional do nazismo. Segundo o artigo, se qualquer poder chamar as Forças Armadas para garantirem a ordem, se digamos o sr. Rodrigo Maia fizer um apelo às Forças Armadas porque há "caos" em demasia, o golpe está legalizado. Ou seja, é verdade, nossa Constituição tinha uma bomba-relógio no seu seio. Bomba pronta a explodi-la, como agora se percebe.

Contra essa marcha da insanidade, há de se lembrar que, se chegamos ao ponto no qual um general na ativa pode expor abertamente que conspira contra o poder civil, então cabe àqueles que entendem não terem nascido para serem subjugados pela tirania, que não estão dispostos a abrir mão do resto de liberdade que ainda têm para se submeter a mais uma das infindáveis juntas latino-americanas, prepararem-se para exercer seu mais profundo direito: o direito de resistência armada contra a tirania.

Que os liberais se lembrem de John Locke e de seu "Segundo Tratado sobre o Governo". Que os protestantes se lembrem de Calvino e de sua "Instituição da Religião Cristã". E que o resto se lembre que a liberdade se defende de forma incondicional.

Ana Cañas canta “O Bêbado e a Equilibrista”


O show de Ana Cañas, com participação de Hyldon, foi uma celebração das liberdades individuais e coletivas.  Ana emocionou a plateia cantando O bêbado e a equilibrista", hino antiditadura militar, à capella, com imagens de manifestações populares de rua dos anos 1960 e atuais passando no telão. 

"Nunca antes na história desse país o processo de democracia foi tão ameaçado como agora. Um general pediu intervenção militar. Infelizmente essa música é muito atual", a cantora lamentou, antes de começar a canção de João Bosco e Aldir Blanc.



A luta do Jaburu-da-mala contra o Botafogo

Moisés Mendes

QUEM PAGA MAIS?

Até as emas de Brasília sabem que a briga de Rodrigo Maia com o jaburu-da-mala é mais do que parece. O argumento de Maia para peitar o jaburu é o de que o PMDB vem assediando políticos do PSB, para atraí-los para o partido, quando muitos deles já estavam acertados com o DEM e o projeto presidencial do homem que os propineiros chamam de Botafogo.

Maia está dizendo: nós sabemos que eles estão sendo comprados pelo jaburu, para que o PMDB se fortaleça e mais uma vez a nova denúncia seja rejeitada com segurança no Congresso. E assim o jaburu seguiria em frente até o fim do mandato que deveria ser de Dilma.

O recado de Maia é este: se for preciso, desta vez vamos complicar e tentar fazer o que conseguimos quando da primeira denúncia.

Na votação da primeira acusação contra o jaburu, Maia chegou a ensaiar a conspiração, junto com Meirelles, para derrubar o jaburu. A Globo deu cobertura à estratégia dos dois, e muitos chegaram a pensar que o golpe no golpe estava no papo.

A Globo derrubaria o jaburu, e Maia ou Meirelles seriam os candidatos numa eleição indireta. Como a Globo não derruba mais ninguém, o jaburu sobreviveu e continuou manobrando.

O que vai acontecer agora? Maia pode estar blefando, ou teremos um duelo de forças de dois medíocres, sem nenhum apoio popular, sustentados por seus conchavos políticos.

Os próximos passos da ‘democracia’ brasileira se decidem agora entre dois representantes da política rasa e sob suspeita dos mais variados crimes, que numa eleição não teriam juntos 3% dos votos, considerando-se uma margem de erro de quatro pontos para mais ou para menos.

A democracia não é mais necessária ao capitalismo

Claudio Daniel 

A democracia é uma conquista histórica da burguesia, que necessitou de uma nova forma de organização estatal, jurídica, social e econômica, após derrubar a monarquia e desenvolver o sistema capitalista de livre mercado, em substituição à ordem feudal. 

Ao longo de 250 anos, foram conquistados direitos sociais como o sufrágio universal para homens e mulheres, as liberdades de expressão, artística, religiosa, de organização sindical e partidária, entre outros, o que só foi possível após intensas lutas de trabalhadores, jovens e mulheres -- o voto feminino só foi conquistado na década de 1930. 

Hoje, a democracia, tal como a conhecemos, começa a ser um entrave para os interesses do grande capital, não apenas no Brasil e na América Latina, mas também na Europa e nos EUA. 

Se no século XVIII a democracia era condição para o desenvolvimento capitalista, hoje ela deixa de ser imprescindível a esse mesmo desenvolvimento, pelas crescentes reivindicações da maioria da população. É possível que surjam novos sistemas autoritários, como acontece na Ucrânia, em que os interesses do capital se sobreponham a direitos sociais históricos da juventude, dos trabalhadores, mulheres, negros e outras camadas populares. 

O século XXI será um período de acirramento da luta de classes em todo o mundo e as consequências desse processo são totalmente imprevisíveis.

Dançando com o Diabo



São Paulo terá marcha da família cristã em defesa do general Mourão e da intervenção militar. Para derrubarem a Dilma, os liberais soltaram esses cães raivosos e toda a sorte de reacionários. O que começou no ridículo ganha forma mais robusta. Mourão não foi punido e, para piorar, o comandante do Exército andou fazendo declarações dúbias. Vão acabar achando chifre em cabeça de cavalo. O estrago que os liberais fizeram não tem como mensurar.


Quando você dança com o diabo, você não muda o diabo, o diabo muda você.
Andrew Kevin Walker

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que é o que é?


a) declarou que fez sexo com galinha e bezerra;
b) declarou que bate em mulher;
c) foi preso por planejar atentado terrorista contra o Exército;
d) considera ser estuprada por ele um prêmio;
e) declarou que sua primeira medida como presidente seria "matar uns 300 mil";
f) declarou peso de uma pessoa negra em "arrobas";
g) declarou que devíamos entregar a Amazônia aos EUA porque não temos competência de administrá-la;
h) repete sempre que não entende nada de economia;
i) nunca administrou nem uma quitanda;
j) disse que fuzilaria artistas da exposição do Santander;
k) disse que preferia um filho morto a um filho gay;
l) declarou que o que importa é a vontade da maioria, as minorias que saiam do país.


Não temos nada de bom a esperar dos militares

Entreguismo, fascismo e corrupção.


Você viu algum militar criticar a venda da Amazônia? Ou a condenação pela Lava Jato virtualmente à prisão perpétua do almirante responsável por nosso programa nuclear? Ou a assinatura, ontem, na calada da noite, pelo usurpador, do tratado que coloca nas mãos das grandes potências nosso programa nuclear? Ou, ainda, as manobras conjuntas na Amazônia com o exército americano, algo inédito na nossa história, uma prévia a uma possível intervenção na Venezuela? Nada, nem mesmo de um reles sargento, quanto mais de um general. Do que reclamam, nas suas falas recentes, é da "corrupção" e do "caos", dois tópicos favoritos do discurso reacionário. Portanto, até prova em contrário, não temos nada a esperar dos militares na luta pela democracia e contra o desmonte e precisamos nos livrar de qualquer ilusão nesse sentido.

Não existe setor das Forças Armadas que seja patriota ou progressista. Milicos dividem-se em entreguistas e fascistas.

Breno Altman

NÃO HÁ LIMITES PARA O DELÍRIO?

Pode parecer incrível, mas há vozes progressistas que passaram a defender intervenção militar ou a especular sobre seu eventual caráter positivo.

Não são apenas guerrilheiros de Facebook, aventureiros sem lastro ou falastrões em busca de fama.

Respeitáveis personalidades, como o professor Moniz Bandeira, talvez movidos por esse catalizador alucinante que é o desespero político, passaram a bater nessa tecla.

O delírio revela absurdo desconhecimento ou deformação do que sejam nossas Forças Armadas, seu papel no Estado e sua trajetória histórica.

O sistema de três correntes foi esmagado após 1964. Até então, disputavam hegemonia em seu interior os "entreguistas" (favoráveis ao acoplamento integral do Brasil à economia capitalista mundial, liderada pelos EUA), os "nacionalistas" (divididos entre fascistas e moderados, advogavam um projeto de Estado forte e potência regional) e os "progressistas" (oriundos do tenentismo de esquerda e inspirados por Prestes, seu nacionalismo era de caráter democrático, anti-imperialista e popular).

Essa ultima corrente, que em alguns momentos conseguiu atrair os "nacionalistas moderados" (como o general Teixeira Lott, que garantiu a posse de JK em 1955 e foi candidato a presidente apoiado pelo PCB em 1960), foi inteiramente expurgada depois de 1964, com o golpe liderado pela aliança entre "entreguistas" e as duas vertentes dos "nacionalistas".

O denominador comum dessa coalizão militar, que passou a estruturar a formação doutrinária das Forças Armadas, foi o anticomunismo visceral, o ódio às ideias de esquerda.

Os conflitos desde então existentes passaram a ser dentro do mesmo campo de classe: como deveriam se comportar os militares para defender o Estado burguês e o desenvolvimento do capitalismo brasileiro.

Os "entreguistas" não mudaram quase nada, ainda que tenham passado a considerar contra-producente o protagonismo político das FFAA, ao menos enquanto estratégia.

Os "nacionalistas" de caráter fascista, como o general Mourão, continuam a considerar que os militares são o único estamento capaz de garantir que o capitalismo brasileiro possa ter autonomia e estabilidade, destruindo seu inimigo histórico - a esquerda - e enquadrando os quadros civis, medularmente corrompidos, da burguesia brasileira.

Os "nacionalistas moderados", como o general Villas Boas, foram os que lideraram a retirada dos militares da cena política, passaram a defender a profissionalização das Forças Armadas e seu papel de reserva constitucional.

O que ocorre, no entanto, é que a crise econômica e institucional tem enfraquecido esse setor, cada vez mais pressionado pelos neofascistas, que começam a recuperar terreno no comando das tropas e na instituição.

Claro que esse cenário não coloca como próxima ou provável qualquer intervenção militar, pois as circunstâncias internas e internacionais são diferentes de 1964, mas é evidente - para qualquer um que acompanhe as questões militares - que os "moderados" estão cedendo terreno tanto a "entreguistas" quanto aos neofascistas. Além de Mourão, um elétron livre, outro exemplo dessa situação é o peso adquirido pelo general Sérgio Etchegoyen, atual chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

Esses elementos deveriam ser suficientes para prevenir delírios sobre eventual função progressista de uma intervenção militar.

Se viesse a ocorrer tal ação, ela teria inequívoco caráter antidemocrático e antipopular.

Por essa razão, a denúncia implacável e a defesa da Constituição, mesmo que esfarrapada pelo governo usurpador, são as únicas atitudes consequentes das forças progressistas diante de ameaças como a proferida pelo ex-chefe do Comando Sul.

Qualquer intervenção militar seria o golpe dentro do golpe, uma variável cuja lógica estaria em estabelecer, mais uma vez, a ditadura aberta do capital sobre a classe trabalhadora e o povo brasileiro.

Narcoestado brasileiro promove um genocídio contra os pobres


Thomas de Toledo 

Está morrendo mais pessoas vítimas da violência no Rio de Janeiro e São Paulo do que em Bagdá e Damasco. A guerra civil já começou no Brasil. Há muito tempo. Em tese é uma guerra do Estado contra tráfico de drogas. Mas em fato é um genocídio de quem mora nas periferias.

Afinal, quem controla o Estado? Assim como no México e na Colômbia, o narcotráfico está enraizado nas estruturas do Estado brasileiro. Há representantes do crime no Executivo (inclusive nas polícias), no Legislativo há bancada até com donos de helicópteros e no Judiciário, o PCC tem seus representantes nas várias instâncias.

Mas então por que ocorre a guerra? Por que ganham os traficantes, ganham os produtores de armas, ganham os intermediários (advogados, infiltrados, etc.) e ganham os políticos que fazem o discurso do ódio e da violência, tão ao gosto da bancada da bala. Por fim, ganha a elite branca e entreguista que faz sua limpeza étnica dos negros na cidade e dos índios no campo. 

A guerra civil no Brasil não é entre esquerda e direita: é do Estado autoritário sob controle das elites contra o povo. Esta é a guerra de Canudos que nunca se acabou, e que mata mais que no Iraque e na Síria.

Anão moral e caloteiro


Leandro Fortes

O PRÍNCIPE VALENTINHO

ACM Neto, o último pingo do carlismo, decidiu processar Manno Góes depois de ser esculachado por dar um calote de 30 milhões de reais em direitos autorais devidos a compositores - baianos ou não - que têm suas músicas utilizadas nas campanhas e festas promovidas pela prefeitura da Salvador.
Manno, um dos maiores compositores e uma das raras vozes críticas da música baiana, chamou Neto de "anão moral" e "caloteiro". Nada de novo no front.

"Anão" é o apelido do prefeito na lista de pagamentos da Odebrecht. Ao inserir o "moral", Manno ainda lhe fez a gentileza de julgar-lhe pelo caráter, não pela estatura física - o que, sabemos, não é demérito nenhum.

Caloteiro, como todos sabem, é quem dá calote. Acho que essa parte não é preciso explicar.

O valente alcaide, pois, achou por bem processar Manno. Confia, certamente, nas frutas podres do Judiciário alinhadas à criminalização de opositores de esquerda.

Quem sai aos Magalhães, sempre degenera.

A quadrilha evangélica brasileira

A “psicóloga cristã” Marisa Lobo e o mentor Feliciano
Do DCM:

A psicóloga da “cura gay”, Patrícia Lélis, Feliciano e a quadrilha evangélica brasileira. 

Por Nathalí Macedo

Retrocedendo algumas dezenas de décadas, como é sabido, o Brasil voltou a admitir a homossexualidade como doença a partir da decisão absurda de um juiz de primeiro grau que agora tenta tornar-se desembargador (pai, afasta do Brasil esse cale-se!).

A psicóloga (?) que trouxe para o século XXI o medieval conceito de “cura gay” é Marisa Lobo, a mesma que assinou contra Patrícia Lélis – aquela que acusa o Pastor Marco Feliciano de estupro -, sem sequer consulta-la, um laudo atestando que ela seria mitomaníaca (risos), como forma de invalidar as acusações de Patrícia contra seu estuprador.

Na época, os conservadores que já vivem em busca de um motivo para culpabilizarem a vítima comemoraram o laudo.

Era tudo o que precisavam, afinal – dessa vez com um documento, pensavam eles, legítimo – para dizerem o que sempre dizem quando uma mulher é estuprada no Brasil: ela está mentindo, ela está perseguindo o pobre homem, ela é uma mentirosa compulsiva.

O laudo foi anexado ao processo contra Patrícia para acusá-la de calúnia e extorsão.

Marisa Lobo, uma mulher, como Patrícia e como eu, assinou o falso laudo para tornar ré quem, na verdade, era vítima. Sororidade pra quem?

A incompetente e irresponsável psicóloga – evangélica, é bom mencionar – chegou a ter seu registro cassado pelo Conselho de Psicologia. Depois dessa, ela devia ter cassado o seu registro como mulher e quem sabe como ser humano.

Marisa é, portanto, a autora da cura gay e também da falsa acusação contra Patrícia Lélis.

Coincidência? Acho que não.

A bancada evangélica é uma quadrilha que age ardilosamente contra as minorias e, em última análise, contra o Brasil. É uma quadrilha completa e organizada: tem seus próprios pastores ladrões-estupradores, seus próprios deputados para enfiarem retrocessos goela abaixo no povo brasileiro e suas próprias psicólogas incompetentes para assinarem falsos laudos contra vítimas de estupro e pateticamente defenderem cura para o amor.

Os LGBTs não precisam de cura – precisamos de mais Pablo Vittar, isso sim! -, e Patrícia Lélis não precisa de cura.

Quem precisa de cura – o que pode significar um pouco de vergonha na cara – é a bancada evangélica e seus colaboradores (comparsas), que, através de mentiras deslavadas – alô, pessoal, o deus de vocês condena a mentira! – oprime minorias institucionalmente.

O cristianismo fanático é um câncer.

E é do fundamentalismo religioso que o Brasil precisa se curar.

Deputado sociopata nazi-evanjegue eleito pelo PSOL defende regime de terror e é vaiado

Do DCM:

Deputado é vaiado ao defender fechamento do Congresso e intervenção militar

Da Gazeta do Povo:

No meio da votação da aprovou o fim das coligações partidárias e motivado pela polêmica de um general que falou em intervenção militar no país, o controverso deputado Cabo Daciolo (PTdoB-RJ), que se elegeu quatro anos atrás pelo PSOL, defendeu em discurso nesta quarta-feira (20) o fechamento do Congresso Nacional e a intervenção militar no país. Disse que ali só tem corruptos e pediu que os brasileiros estendam a bandeira do Brasil nas suas janelas e varandas em forma de protesto. A defesa do fechamento do Congresso ocorreu no final de sua fala, que durou quatro minutos.

(…)

O parlamentar foi eleito pelo PSOL em 2014, mas foi expulso do partido no ano seguinte, depois que ele defendeu a liberação dos doze policiais acusados de torturar o pedreiro Amarildo de Souza, caso emblemático ocorrido numa favela do Rio, em 2013. O partido, porém, preferiu não retirar o mandato dele.

(…)

Por seu discurso, Daciolo pode ser alvo de uma representação por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa.

O futuro do Brasil


O jurista do PCC

Fabio Sa e Silva 

Olhei de passagem os votos de hoje no STF.´

Chamou-me atenção o Alexandre de Moraes dizer que os delatores agiram com desvio de finalidade.

Que cargo ou função pública os delatores ocupavam para poderem agir com desvio de finalidade, Ministro?

Brasil caminha para o quinto mundo

Nilson Lage

Depois da fala dos generais, ficou evidente que,mantido o atual quadro institucional - com um governo não eleito e impopular, uma crise econômica persistente e um clima de agitação que se amplia - o país caminha realmente para uma situação de caos e uma intervenção das forças armadas.

Não só os militares: por motivos variados e com diferentes soluções em vista, nenhum segmento aguenta a permanência de uma situação dessas. Talvez só os banqueiros, que se cevam.

Aparentemente, a nomeação da novo procuradora, que logo mostrou a que veio, não abrandou as contradições.

A questão é, havendo uma intervenção, a natureza, extensão, duração e vínculos externos dela.

Quanto a isso, a divisão é muito profunda entre os próprios militares. Talvez por isso a intervenção não tenha ocorrido e não venha a ocorrer em curto prazo.

De toda sorte, não sei se o "mercado" aposta certo inflando a bolsa.
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